Artigo

2016, um ano para ser esquecido?

  • PDF

Eliomar de Lima*


O ano de 2016 finda e, certamente, não deixará muitas saudades entre os brasileiros. Que acabe logo. Difícil esquecer o rol de perdas em meio a tanta desordem, tramoias e desmoralização. A pátria humilhada envergonha-se do festival de corrupção e achincalhe que atingiu nossas instituições mais caras. Fragilidade no comando, descontrole, desrespeito, golpe. A memória esmaecida pelo tempo se reaviva e traz à lembrança fragmentos poéticos de Cecília Meireles e Chico Buarque no tema de ‘Os Inconfidentes’, com seus versos singelos e fortes, plenos de verdades acumuladas, explicativas de nossa história autoritária. Difícil ficar indiferente frente à força das palavras que dizem: “toda vez que um justo grita, um carrasco vem calar. Quem não presta fica vivo, quem é bom, mandam matar”. Matam e matam rápido. São mortes metafóricas, no plano da política e da mídia. Silenciam e amordaçam líderes reconhecidos, revestemos numa capa de opacidade e retiram-nos de forma soturna da cena política. O ano de 2016 ficará conhecido pela farsa dos falsos líderes, salvadores da pátria às avessas. Julgadores que deveriam ser julgados. A hipocrisia reina e o povo padece. Reformas são propaladas, o trabalhador perde seu emprego, compromete sua diminuta renda familiar, desestrutura sua vida. As cidades ficaram piores, perigosas, violentas. Tudo é longe – trabalho, escola, posto de saúde, hospital. No Brasil, a gestão pública assumiu que lugar do pobre deve ser pobre, seja na paisagem, na infraestrutura instalada, nos equipamentos disponíveis. O uso do automóvel dita as políticas públicas e surgem mais viadutos, mais túneis, novas avenidas. Na periferia distante, o povo apartado, sem jeito, desesperançado, sonha com metrô e VLT que funcionem. Que ano perverso! O pior é saber que o novo que se aproxima não parece nem um pouco promissor. Pobre povo brasileiro! Cheio de sonhos, acreditou que a Copa das Confederações, a Copa do Mundo e as Olimpíadas trariam dias melhores. Fim das festas e o duro choque de realidade. Legado, que legado! Contas e mais contas a pagar. Adeus, primeiras viagens de avião; adeus, primeiro carro comprado em intermináveis prestações. Que saudade do acesso à casa própria, mesmo sabendo que o programa era minha casa, minha dívida. E as políticas de transferência de renda, o que farão com ela? Neste fim de ano, a corda mais uma vez arrebenta no lado maior, o dos mais fracos, ainda não conscientes de sua força. Meu texto é pessimista e não poderia deixar de ser. Sou professor de universidade pública. Nos últimos anos, vibrei com a posição da UFC no ranking das melhores universidades brasileiras. E agora, diante das várias ameaças, temo reviver um novo período de perdas. Tivemos épocas nos anos de chumbo em que a evasão de excelentes professores prejudicou sobremaneira as universidades públicas. Foram muitos os que migraram para o Exterior em busca de melhores condições de trabalho e de pesquisa. Nesse quadro turbulento de 2016, pressinto com angústia o ano seguinte, quando poderemos perder conquistas  obtidas com muito suor e luta.

Eliomar de Lima é jornalista, radialista, professor e escritor de histórias infantis, mas, acima de tudo, um viciado em informação. Email: Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. / Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

O pão nosso que sobrou de ontem, nos vendei hoje ou amanhã, se for possível

  • PDF

Eromilto Chermout*

Nos tempos atuais, com tanta preocupação que o homem tem com o futuro, principalmente, não é a toa que, por vezes, ouvimos o bordão “que mundo deixaremos para os nossos filhos?” E é realmente muito preocupante. A humanidade está muito preocupada em desenvolver tecnologias para comunicação, fontes de energias limpas, meios de transporte mais velozes e, ao mesmo tempo, mais seguros e menos poluentes, construção de moradias mais compactas para conseguir acomodar cada vez mais pessoas em um mesmo espaço, e outras preocupações que, sinceramente, considero um tanto descabidas, como, por exemplo, pesquisar a possibilidade de vida em marte, a possibilidade de vida fora do planeta Terra. O fato é que já se fala em fazer uma turnê pelo espaço e, sinceramente, não vejo propósito para tanto. Gastar, esbanjar ou sei lá que nome eu daria para a atividade. Só não me digam que é investimento, pois está completando um ano que foram gastos 2,5 bilhões de dólares, o equivalente a 5,8 bilhões de reais, com esta aventura, e já se projeta uma possível viagem tripulada, não por mim, é claro, ao planeta Marte, que a Nasa estima para o ano de 2030. Com tantas preocupações assim, eu acredito que a humanidade está se esquecendo de que a população está aumentando. Tudo bem que estão aumentando o número de médicos, de engenheiros, de físicos, de químicos, matemáticos, enfim, em todas as carreiras profissionais, mas estão aumentando também o número de pessoas sem ocupação, e, o que é pior, está diminuindo o número de pessoas que produzem alimentos. A população aumenta nos grandes centros e diminui na área rural. Estamos à beira de um colapso no abastecimento das cidades, pois a cada dia que passa é menor a relação entre o número de produtores para o de consumidores, e não se vê uma preocupação aparente, por parte dos governantes, com as pessoas envolvidas com a produção primária. Não sei se este fato se dá apenas aqui, no estado do Rio de Janeiro, pois, afinal de contas, o nosso estado, graças ao petróleo, é um dos mais ricos do país, ou era, antes da crise do petróleo, pois, hoje, é um dos mais quebrados do país. Continuamos a ser o segundo maior centro consumidor de alimentos do país, mas, como só fomos incentivados a produzir petróleo, na hora de produzir alimentos os produtores rurais, heróis solitários e desassistidos, não conseguem acompanhar a demanda. Temos uma produção por vezes medíocre diante do nosso potencial. A nossa produção, com isso, se torna cara e o preço de venda, que é definido pelo mercado, com a forte pressão de quem produz em maior quantidade, deixa sem fôlego aqueles que ainda tentam resistir. Diante dessa difícil equação, o que será que estaremos comendo daqui a 30 anos? Ou será que tentarão produzir alimentos em Marte para comercializar aqui? É bem sabido que, até lá, a população já terá aumentado bastante e que o número de produtores de alimentos, se nada for feito por eles, terá diminuído consideravelmente.

*Eromilto Chermout, técnico em laticínios e agricultor

A VERGONHA NACIONAL DOS POLÍTICOS GOSPEL

  • PDF

Eduardo Baldaci*

Com propriedade, eu só posso falar de dois estados do Brasil: Rio de Janeiro e Mato Grosso, lugares onde morei e onde fui pastor. Consequentemente, conheço os políticos destes dois estados e suas relações com os evangélicos. No Rio, Anthony Garotinho, político há muito tempo envolvido com diversos escândalos e é apoiado por muitos pastores, inclusive por pastores com interesses eleitorais. Shows gospel aqui e acolá e uma igreja apática e comprometida que vê essas programações como “bênçãos”.

No Mato Grosso, Silval Barbosa, aquele mesmo que só aceitava promover cultos em seu gabinete com pastores de “grandes igrejas” (leia-se Grande Templo e Comec) e dizia não estar quando o pastor não liderava um “grande número de ovelhas”. Certa vez, pedi a um desembargador e a um deputado estadual para avisar Silval que tal descriminação não era boa aos olhos do Senhor.

Mas de quem será a culpa quando vemos políticos evangélicos atrás das grades? Quem tem a responsabilidade de discipular esses homens? A quem são dirigidas essas palavras bíblicas: “Eu te dei por atalaia sobre a casa de Israel; e tu da minha boca ouvirás a palavra e os avisarás da minha parte” (Ezequiel 3:17)????

Ter um governador como amigo, como membro de minha igreja, pode parecer algo muito interessante desde o ponto de vista do status social. Porém, é espiritualmente perigoso!

Eu convivi com muitos poderosos “gospel”. Suas festas não tinham nada de diferente de uma festa mundana. A mesma cerveja, a mesma caipirinha, o mesmo whisky... E a igreja e o pastor? Vamos disciplina-los? Não, afinal quem, em sã consciência, iria se arriscar a perder uma personalidade destas como membro de sua igreja?

Conclusão: aqui estão dois personagens “convencidos” do mundo gospel que estão ajudando a promover o maior escândalo de todos os tempos no Brasil. Unam-se a estes outros nomes, como Eduardo Cunha, Francisco Silva... Ufa, a lista é enorme!

Entre os dois, além de usarem o nome cristão de forma indevida, está a mesma característica: ambos acabaram com a ouvidoria em seus estados. No Rio, Garotinho extinguiu de vez. Em Mato Grosso, Silval a colocou dentro da Corregedoria Geral, a qual é ligada ao governador e “abafa” aquilo que não é de seu interesse.

Enfim, se o Brasil vai mudar, isso vai passar também pelos nossos púlpitos e sermões, com escala em nossa antiga eclesiologia, que promovia o desligamento de membros que apenas iam a um boteco comprar um guaraná engarrafado em um vidro similar ao de uma cerveja.


*Eduardo Baldaci é pastor e já comandou a Igreja Batista de Cantagalo. Foi articulista do JORNAL DA REGIÃO e, atualmente, mora nos Estados Unidos.

Profissão: político

  • PDF

Luiz Carlos Borges da Silveira*

É consenso nacional que a política brasileira tem baixo conceito e quase nenhuma credibilidade junto à sociedade. Não precisa ser cientista político para perceber, basta ser um cidadão atento e razoavelmente informado. A questão é: por que isso é assim há tanto tempo e não muda? Acredito que, em parte, se deve à legislação (por isso a reforma política é pauta permanente) e também pela deterioração do sistema e do caráter da maioria que entra na vida pública. Política, no Brasil, é sinônimo de carreirismo, de profissão. Disso decorre boa parte dos problemas que afetam a própria política e ricochetam no país, na população.

A grande maioria dos políticos é formada de carreiristas de pouco espírito público e muito de interesse pessoal. Quem entra prova o gosto do poder e das regalias e não sai mais. E, para permanecer, faz todos os esforços possíveis, até alguns nada decentes, como temos visto. Assim se formam os caciques, donos de partidos, influentes em qualquer governo. 

Parlamentares que acumulam há décadas mandatos e montam esquemas tão duradouros e poderosos que, se alguma liderança nova quiser enfrentá-los, desiste. A força é desigual, os políticos profissionais sempre têm grandes recursos para gastar em uma eleição, mesmo que tal investimento nunca seja coberto com os subsídios recebidos durante o mandato, o que é, no mínimo, suspeito. Então, essa situação prejudica e até impede a renovação.

Portanto, política aqui é profissão, meio de vida, forma de enriquecer, construir grandes patrimônios. Não deveria ser assim, deveria ser forma de servir ao país e ao povo, cumprir uma missão e depois voltar à profissão de origem, cuidar de seus negócios anteriores. 

Todavia, na maioria das vezes, os políticos brasileiros permanecem vitaliciamente na atividade e se saírem não saberão exercer a antiga profissão por estarem desatualizados e também não saberão gerir um negócio próprio na iniciativa privada. E, como geralmente saem milionários da política, nem precisam se preocupar.

Gostei muito do que disse Eric Cantor na revista Veja: “Nos EUA, uma pessoa não entra na carreira pública para ficar rica. Se fizer isso, vai para a cadeia. Você tem de sair da vida pública para ganhar dinheiro. Deveria ser assim também no Brasil”. 

Cantor foi líder da maioria republicana na Câmara dos Estados Unidos entre 2011 e 2014 e, quando deixou o parlamento, foi trabalhar como advogado de um grande banco de investimentos. Na entrevista, ele fez outra observação: na Câmara Legislativa do estado da Virgínia, os deputados recebem cerca de 17 mil dólares por ano. “Ou seja, você precisa trabalhar, o Legislativo não basta. Todos têm um emprego.”

Voltando ao Brasil, a pergunta é: por que os políticos se perpetuam nos governos ou nos legislativos? A resposta mais simples, e correta, é: 1) Nos governos, pela sedução que o poder exerce, altos salários, mordomias e o exercício da influência em proveito pessoal. Sempre que alguém é convidado para cargo executivo, acaba transformando esse cargo em profissão, dificilmente o deixará; se muda o governo, muda junto; se não puder continuar no federal, vai para uma estatal ou para um governo estadual. Isso, se não usar o cargo público como trampolim para se eleger deputado ou senador; 2) No Legislativo (municipal, estadual e federal), há uma prerrogativa legal, o estatuto da reeleição. O parlamentar pode se reeleger quantas vezes quiser. Aí, caberia ao eleitor ter discernimento e capacidade de avaliar os candidatos, mas exigir isso seria exigir demais.

*Luiz Carlos Borges da Silveira é empresário, médico e professor. Foi ministro da Saúde e deputado federal.

150 anos de Euclides da Cunha

  • PDF

José Augusto Oliveira Huguenin*

Quando aprendi as primeiras lições de geografia política sobre a constituição administrativa de minha terra natal, o município de Cantagalo/RJ, fiquei maravilhado ao aprender o nome do terceiro distrito, Santa Rita de Euclidelândia. Maravilhado por dois motivos. Primeiro, porque sendo do segundo distrito, a encantadora vila de Santa Rita da Floresta, achei curioso haver duas Santas Ritas. Naquele dia, soube que, no feriado municipal de 22 de maio, Floresta dividia a importância com Euclidelândia. O segundo motivo era este nome sonoro, longo para uma criança soletrar. De acordo com os programas infantis da época, eu sabia que devia ser a terra de alguém, pois ouvia muito falar na televisão sobre a Disneylândia, o mundo mágico de Walt Disney. Esse “Euclide” devia ser importante. Imagina ter um nome de uma cidade e que não era parque de diversões, não. Era um lugar onde gente morava e tinha até três fábricas de cimento! Logo me falaram que ele havia escrito o livro ‘Os sertões’, que ele havia nascido em uma fazenda lá em Euclidelândia, que, na época, ainda não chamava Euclidelândia, pois esse nome era uma homenagem e, por isto, o distrito de Santa Rita do Rio Negro, onde ele nasceu, havia trocado de nome. As coisas começaram a fazer sentido. Descobri a razão do nome da melhor manteiga do mundo se chamar ‘Sertões’. Na carroceria de uma kombi adaptada, vendendo verduras com o Tio João, passei em frente à Casa de Euclides da Cunha, ao lado do Colégio Maria Zulmira Torres, onde viria a estudar. Era um museu onde estava o seu cérebro. Era mesmo importante esse escritor. E o menino, quando ia para algum lugar longe, fazia questão de dizer que era da terra de Euclides da Cunha. 

Mas o dia que este menino sentiu mais orgulho mesmo foi quando, já adolescente, no ensino médio, estudando literatura, viu no livro didático o ilustre cantagalense como ícone e marco inicial de um movimento intitulado de “pré-modernismo”, justamente por não caber em nenhuma escola literária tradicional, por, junto com romances de Graça Aranha e Lima Barreto, representar uma virada no jeito de escrever e pensar do Brasil. Antecederam e influenciaram o  modernismo. Para um adolescente sonhador, antever e influenciar o moderno era uma coisa muito grande. 

Quando se tem uma celebridade dessas, logo quer se saber de sua vida e, neste quesito, romancista nenhum(a) seria capaz de imaginar tamanha trama trágica deste brasileiro. Orfandade aos dois anos, mudanças, o fim trágico assassinado pelo amante de sua esposa. Também convivemos em Cantagalo com uma espécie de “des-orgulho” frente à tragédia do conterrâneo. Tal fato se acentuou por ocasião de uma série televisiva que expunha ao país o cantagalense traído, como se isto diminuísse nossa terra. Não raro, a menção a Euclides despertava um comentário de quase desprezo. Fico buscando na memória para ver se acho situações em que como papagaio repeti comentários depreciativos de colegas mais fortes e populares com a intenção de fazer parte da turma. Não me lembro, mas com certeza deve ter acontecido.

Aí veio a Semana Euclidiana em São José do Rio Pardo (SP), que participei como estudante. Que orgulho saber que intelectuais do porte de Walnice Nogueira, Roberto Ventura, Oswaldo Galoti, Adelino Brandão e tantos outros, gente do estrangeiro que traduziu as palavras do conterrâneo para outras línguas. A maratona intelectual da Semana Euclidiana influenciou algumas gerações de estudantes cantagalenses, dando origem a um grupo que mantém viva a chama euclidianista na sua terra natal. 

Foi na Semana Euclidiana que conheci mais da história de sua vida. A vida que viveu e a vida no sertão que ele apresentou ao mundo. E não foi só o sertão não. Ele ajudou a dar contorno ao mapa do Brasil na expedição do alto Purus, no Acre. Ele, que invejou a letra do hino nacional peruano, insistiu com Coelho Neto que era preciso uma campanha para termos uma letra para o hino Nacional Brasileiro. Lá mesmo viu e denunciou ‘Contrastes e Confrontos’ que deixavam trabalhadores, muitos sertanejos fugidos do sertão em chamas, que sobreviviam da lida nos seringais, deixados “à margem da história”. Ó pátria amada, um filho teu não foge à luta.

Um jovem que entrou para escola militar, onde bebeu da fonte do positivismo de Auguste Comte que, associada à formação científica, racional e ao pensamento da época, amalgamou uma personalidade forte, de coragem, tanto que foi o único cadete que atirou o sabre aos pés do Ministro da Guerra em protesto pró-república, o que gerou saída do Exército. Esta formação também o fez ter atitudes e pensamentos que, sob a ótica de hoje, certamente geram questionamentos. Há ainda quem lhe impinja a pecha de racista. Ele pode ter enveredado no uso de teorias antropológicas sectaristas, o que estava em voga na época, ao tentar descrever o homem, mas, sangrou sua consciência de cidadão a campanha nefasta de Canudos, reconheceu que antes de tudo o sertanejo era um forte, escreveu o livro vingador. 

Creio que não podemos condená-lo pelo fato do mundo ser o que era quando nasceu em 1866... E chego à razão destas linhas, nascidas em agosto, mês de sua morte. Em 2016, comemoramos 150 anos do nascimento de Euclides da Cunha. Uma data que não passa em branco para um cantagalense orgulhoso por ter  um conterrâneo imortal cuja obra o mundo reverencia.


*José Augusto Oliveira Huguenin é doutor em física pela UFF, trabalha na UFF de Volta Redonda e é escritor, autor de diversos livros de contos e romances.

EU VI UMA HISTÓRIA NASCENDO...

  • PDF

Jalme Pereira*

Pois bem, era meio de semana e, apesar de trabalhar o dia todo numa das indústrias cimenteiras da região e alguns de nós se deslocar por mais de 60 quilômetros,  diariamente, em busca de conhecimento, ainda encontrávamos tempo para dedicar nossa mente e coração para gerar algo que a maioria das pessoas não tinha expectativa que fosse crescer, ganhar credibilidade e se manter na vanguarda da informação de uma região por mais de 30 anos.

Foi assim que o JORNAL DA REGIÃO foi “concebido”. Foi imaginado, na mente de Célio Figueiredo (idealizador do JORNAL DA REGIÃO). Um empreendedor fantástico, gente da própria terra, que não se conformava com a ideia de que a cidade não era capaz de gerar notícias. Foi assim que o JR se tornou realidade no coração de Célio, que vislumbrava, inclusive, que a comunicação poderia ser trabalho (ajudar a ganhar o pão), serviço (dar informação para a sociedade local) e paixão (obsessão que o levou a dedicar uma vida inteira a este projeto), a  despeito das críticas, descrenças, do sacrifício e das escolhas, muitas vezes incompreendidas, daqueles que não conseguiam ver além do que os próprios olhos poderiam mostrar.

 Esta figura ímpar reuniu a seu lado pessoas que gostavam da mesma coisa, cada um com sua expertise, para, enfim “parir” uma história audaciosa que se tornou “voz”, “palavra” e “imagem” de uma região. A mim coube, num primeiro momento, cuidar da identidade e da marca do jornal. O nome já existia e fazia sentido, pois abraçava toda a Região Centro-Norte do estado do Rio de Janeiro. Ao nome foram acrescidas linhas horizontais que tinham como objetivo dar a ideia de folhas de jornal empilhadas, umas sobre as outras, prontas para passar por uma prensa e, assim, registrar os principais fatos e histórias da região.

E assim viveu o JR por alguns anos até que seu criador decidiu mudar. Percebeu ser hora de voar mais alto: “duas edições semanais, impressão colorida, diagramação mais moderna e intuitiva” bradou Célio ao telefone, confirmando a decisão de revitalizar o JR. Foi quando, mais uma vez, meu coração se rendeu e fui atraído para Cantagalo para desenvolver o novo projeto para o jornal. Era preciso inovar. Era preciso surpreender. Era preciso ser grande. Assim, surgiu o novo projeto: um jornal muito mais sofisticado e posicionando na mente do leitor. Um jornal com linha editorial definida. Um veículo sério e isento, capaz de ter a credibilidade e o carinho da população. Um jornal aguardado. E, após semanas de pesquisa e de trabalho intenso, eis que surge o novo JR.

Um projeto mais arrojado, a começar pela escolha da cor verde para sinalizar o respeito com o meio ambiente (que é nosso trabalho e sustento), além de representar a diversidade de nossas matas. O nome bem grande ocupando a parte superior do veículo, reafirmando o orgulho de ser JR e deixando claras a identidade e a missão do veículo. Manchetes curtas e fotos na primeira página, uma pitada de tudo aquilo que o leitor iria encontrar no conteúdo, despertando sua curiosidade e aumentando seu interesse.

O JR agradou. Conquistou novos públicos e ocupou, assim, uma posição de destaque na comunidade e, até hoje, muito mais que um conjunto de palavras amontoadas, se transformou numa diversidade de significados para aqueles que vivem ao seu redor, traduzindo a garra daquele que decidiu se dedicar inteiramente à sua causa, alimentando a cultura de uma região e contando suas histórias e realidades, permitindo trocas e valorizando relacionamentos, sinalizando e descortinando o futuro para aqueles que precisam olhar mais à frente.

É isso que o JR faz pela região: permite que ela reconheça e respeite o passado. Permite que ela registre a vida e os fatos no presente. Permite que ela possa projetar seu futuro. Voz, palavra e imagem... “Tecnologia do coração”. Emoção em cada exclamação. Pausas para reflexões em cada vírgula. Opiniões e afirmações a cada ponto. Decisão e respostas em cada interrogação. E Célio vive, assim, cumprindo sua missão. Parabéns, Célio. Parabéns, JR. Que seus filhos e netos saibam reconhecer o valor de dizer sim para a comunidade.

  

*Jalme da Silva Pereira é natural de Cordeiro, professor e coordenador do Curso de Marketing, coordenador do Núcleo de Ação Socioambiental e coordenador do Laboratório de Práticas de Pesquisa da UniCarioca, no Rio de Janeiro.

30 ANOS DE UM JORNAL VITORIOSO

  • PDF

Clélio Erthal*

A poetisa Amélia Thomaz, sem dúvida uma das expoentes da cultura cantagalense, dizia que a cidade serrana sempre teve forte pendor cultural. “Talvez por haver nascido da exploração do ouro – escreveu – talvez porque uma lenda de amor doure com auréola de sonho a sua origem, jamais faltou à terra de Mão de Luva quem se dedique às lides intelectuais, quem dedilhe a lira, quem faça jornal, quem arraste as turbas com o poder do verbo.”

De fato, desde que foi fundada, no final do Brasil-Colônia, Cantagalo nunca negou tal vocação, revelando-se desde cedo como celeiro de grandes políticos, oradores, poetas e intelectuais de escol, assim como de grandes jornais, dos maiores mesmo que o torrão fluminense tem produzido. Aliás, não foi outra a razão pela qual o Dr. Alcides Ventura dizia a seus alunos que Cantagalo é a Atenas fluminense. Realmente, assim como a capital da Grécia antiga, embora geograficamente pequena, produziu grandes cérebros e notáveis obras literárias, Cantagalo também serviu de berço a intelectuais famosos, como Euclides da Cunha e outros do mesmo naipe, de cujos cérebros nasceram grandes obras, como ‘Os Sertões’ e a notável ‘Farmacopéia Brasileira’.

Dos jornais, que sempre foram os melhores agentes informativos e formadores de opiniões, vários deles se destacaram ao longo da história do lugar. Durante a Regência, por exemplo, dois pontificaram: o ‘Aristarco’ e o ‘Tangedor’, que já davam notícias de repercussão nacional, como a coroação de D. Pedro II e a vitória de General Soares Andréa sobre os Farrapos no Rio Grande do Sul. E no Império – principalmente depois da Guerra do Paraguai e da abertura da campanha abolicionista –, outros surgiram. Entre eles ‘O Cantagalense’, de Cristóvão Vieira (1840), ‘O Conservador’, de Joaquim Santana e Francisco Alípio (1865) e ‘O Voto Livre’, de Vieira Barcellos (1882). Este último, aliás, teve vida muito curta, porque foi brutalmente empastelado quando do advento da República em 1889.

Sem dúvida, os dois jornais fundados na “República Velha” (‘Correio de Cantagalo’ e ‘Tribuna de Cantagalo’), como órgãos do PRF e do “niilismo” no município, foram os de longa duração. O primeiro encerrou seus dias em 1930, com a subida de Getúlio Vargas, enquanto o segundo durou até 1935, com a mudança do proprietário (Accácio Dias) para Niterói. Porém, nenhum deles teve a duração e o mérito do JORNAL DA REGIÃO, fundado por Célio Figueiredo e que acaba de comemorar 30 anos de existência. Além de mais longevo, este jornal é bastante moderno e informativo, destacando-se pela forma e independência político-partidária que sempre ostentou, considerando ainda que ele cobre a região e não somente o município onde é editado.


*Clélio Erthal é desembargador aposentado, pesquisador e historiador.

O trem entrava de marcha a ré em Cantagalo

  • PDF

Clélio Erthal*

Quando, no século XIX, foram lançadas as primeiras ferrovias entre nós, os trens raramente cortavam as cidades pelo meio, dividindo-as em duas ou mais partes urbanas. Geralmente, tocavam suas periferias ou terminavam o curso em bairros afastados dos centros, bem longe do trânsito citadino. No Rio de Janeiro, por exemplo, eles nunca chegaram a trafegar pelo Centro e na zona sul, ficando mesmo na área norte, voltados para os subúrbios então classificados como da “Central do Brasil” e da “Leopoldina”. Ou então para o interior do País, como o maior meio de transporte que era, fugindo sempre das avenidas movimentadas (Presidente Vargas, Rodrigues Alves, Rio Branco) e dos bairros residenciais mais concorridos (Flamengo, Lapa, Laranjeiras, Botafogo, Copacabana). E o mesmo acontecia em Niterói, então capital do estado: o ponto terminal dos trens vindos da Região Serrana ou de Campos, ou que partiam da metrópole, no princípio era Marui (Barreto), devendo os passageiros que chegavam ou que saíam da cidade buscar outra condução até o ponto de embarque ou de chegada.

O caso de Nova Friburgo, cujo Centro era cortado de ponta a ponta pelo trem, era exceção, justificada pela topografia e pelo destino da viagem, Afinal, para a viatura que ultrapassava a serra e demandava os antigos sertões do Macacu, não havia outro recurso senão atravessar a cidade suíça.

Em Cantagalo o trem – quer vindo do Vale do Paraíba, quer da capital – passava na borda, como na maioria das cidades brasileiras. Do trecho percorrido em suas imediações, o ponto mais próximo do Centro era o depois denominado “Triângulo”, onde, mais tarde, foi montada a congelação de laticínios da cooperativa. Ali é que o comboio, depois de ultrapassar o ponto de entrada na urbe, recuava por um dos “catetos” da tortuosa figura geométrica e seguia de ré até o coração da cidade, badalando o sino costumeiro.

Em suma: obedecendo ao sistema geralmente adotado, era nesse ponto tangencial que devia ser edificada a estação ferroviária, afinal não muito distante do Centro urbano e situado no lugar onde passavam os trilhos da ferrovia rumo a Cordeiro ou a Santa Rita do Rio Negro (hoje Euclidelândia), sem precisar fazer a estranha manobra de recuo. Se o trem prosseguisse na direção da Batalha, rumo a Duas Barras, então sim, a penetração se justificaria por ser ali sua passagem natural. Mas não tocando-a apenas num dos lados, como na realidade se dava.

Entretanto, por circunstância não esclarecida pelos historiadores da ferrovia, a concessionária preferiu construir a gare no coração da cidade. Diziam os cantagalenses antigos que isso foi obra das mulheres. Certamente – diz a lenda – que não querendo andar até o “triângulo”, que achavam muito longe e desconfortável, foram elas que iniciaram o movimento, trazendo o trem quase à porta de suas residências, dispensando-as da incômoda caminhada. Será verdade?

Pelo sim, pelo não, é mais uma curiosa singularidade da tradicional urbe serrana.

*Clélio Erthal é desembargador aposentado, pesquisador e escritor sobre Cantagalo e região.

Pgina 1 de 18

Área exclusiva - Login

Notícias completas e versão digital exclusivas para assinantes

Informativo JR

Cadastre-se e fique bem informado