Artigo

A derrocada do barão

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Dentre os integrantes ilustres da sociedade cantagalense no século XIX, incluía-se Augusto de Souza Brandão, o Barão de Cantagalo. Além de integrar estirpe nobre (a mesma dos barões de Porto Novo e Aparecida), ele era forte comerciante na praça e atuante político, tornando-se, inclusive, chefe do Partido Liberal e presidente da Câmara local mais de uma vez. Nessa última posição, cuidou, entre outros melhoramentos, de calçar a principal rua da cidade, que ainda guarda seu nome, e de arborizar a bela praça que hoje se chama João XXIII.

Homem progressista e dinâmico, o barão pretendeu transformar sua fazenda Santana (800 alqueires de terras, que davam um total de duas sesmarias) em propriedade modelo, grande centro cafeeiro. Para tanto, contraiu um empréstimo de 250 contos de réis junto a algumas instituições de crédito, notadamente Miranda Velloso & Cia. e Paulino Tinoco, que operavam no setor de comissariado do café no Rio de Janeiro. A título de garantia, ofereceu a hipoteca da fazenda.

Sobrevindo a extinção do regime servil em 1888 e a consequente perda dos numerosos escravos que possuía, ele não teve como colher o café que plantou e nem pagar a dívida que contraiu. Em consequência, rompeu com o Império, apontando-o como causador do revés que sofreu, e aderiu, com força, à campanha republicana, inscrevendo-se, como grande força política, no clube de São Sebastião do Paraíba. 

Falecendo pouco depois do evento, deixou para os dois filhos, então integrantes da firma Augusto Brandão Filho & Irmão, a solução do problema.

Augusto Brandão Filho, que era médico conceituado, dirigiu, em nome da firma, uma carta a José Heggendorn Monnerat, dono da fazenda São João e outras em Duas Barras, em 25 de setembro de 1900, solicitando um empréstimo no referido valor para saldar as dívidas. Como garantia, oferecia a hipoteca da Fazenda Santana, cujos vínculos anteriores deveriam ser desfeitos com o pagamento dos débitos.

José Monnerat, que era empresário astuto, procurou, antes, sondar os riscos do negócio: escreveu aos credores do falecido barão, informando-se das dívidas, e percorreu a fazenda para verificar a solidez da garantia oferecida. Por fim, verificando que melhor negócio seria deixar que se consumasse a execução. Escreveu ao Dr. Augusto Brandão, em 29 de setembro seguinte, comunicando-lhe que não poderia aceitar a proposta, e assim foi feito: no dia aprazado, compareceu ao leilão e arrematou a Fazenda de Santana por preço muito inferior ao montante que lhe fora solicitado a título de empréstimo. Tanto que acabou pagando a propriedade com o produto da colheita nela mesmo procedida naquele ano!

Em razão disso, ao mesmo tempo que a família do antigo barão emigrava de Cantagalo, levando o menino igualmente chamado Augusto e que, mais tarde, seria uma das glórias (vindo, inclusive, a merecer o título de “príncipe dos cirurgiões brasileiros”), a Fazenda Santana passou a ser administrada por Sebastião Monnerat Lutherbach, genro do arrematante, que acabou deixando nome na história do município.

Além de presidente da Câmara nos anos de 1920/1921, Sebastião Lutherbach destacou-se como administrador da fazenda (que enfeitou com novas construções, nela introduzindo gado guzerá de qualidade) e como inovador agroindustrial, participando, diretamente, da Exposição de Cordeiro de 1920 e da criação do Partido Rural, de grande aceitação na época.

Os filhos Tito, Augusto e Homero, embora apolíticos, ainda deram sequência às tradições agrícolas da família. Mas Santana, outrora vasta e produtiva fazenda, acabou, com o tempo, retalhada entre os herdeiros e sucessores, não passando, hoje, de mais um centro habitacional do município.




*Clélio Erthal é ex-funcionário da Justiça, tendo ocupado cargos de vulto, como desembargador e juiz, além de pesquisador da história de Cantagalo.

Sete passos para você elevar a resiliência

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Bibianna Teodori*

Saber atuar sob pressão, responder rapidamente em momentos de crise, demonstrar criatividade e encontrar soluções, mesmo com poucos recursos, não são tarefas fáceis. Mas, hoje, mais do que nunca, é justamente este perfil de profissional que o mercado de trabalho valoriza.

Para quem não sabe, as citadas acima são algumas características da resiliência, um conceito que vem da física e que está tão em alta. Originalmente, a resiliência se refere à capacidade que alguns materiais têm de acumular energia quando submetidos à pressão e, depois de absorver o impacto, voltar ao estado original sem deformação, como se fosse um elástico.

No comportamento humano, a resiliência é a habilidade de se adaptar e superar adversidades, situações estressantes. Isso de forma saudável, construtora, sem ser afetado por elas de modo negativo, permanente. Em outras palavras, uma pessoa resiliente é aquela que:

- Tem energia e disposição para enfrentar dificuldades em vez de se deixar abater;

- É capaz de atuar com competência, mesmo sob forte pressão;

- Antecipa crises, prevê obstáculos e se prepara para lidar com eles;

- Tem atitudes positivas, realistas e firmeza de objetivos;

- Recupera-se mais rapidamente após sofrer revezes e não muda sua essência depois de passar por experiências difíceis.

Desenvolver a resiliência é fundamental para enfrentar os desafios pessoais e profissionais. E também para ser bem sucedido profissionalmente, uma vez que a pressão por resultados, as mudanças e as crises são constantes.

No mundo atual, quanto mais resiliente for o profissional, maior será sua vantagem competitiva. E maior será sua capacidade de lidar com tudo isso e ainda manter ou aumentar seu bem-estar, além de encontrar mais satisfação.

Confira sete passos para você elevar a resiliência:

1) Mantenha o foco no futuro. Olhe para frente e não se prenda ao passado;

2) Mantenha-se motivado. Lute por seus sonhos e objetivos. Quem trabalha por seus ideais não tem tempo para chorar mágoas;

3) Invista em seus relacionamentos. Eles são uma grande fonte de apoio e de encorajamento;

4) Mude o hábito de colocar defeito nas coisas e de ver apenas o que as pessoas têm de pior. Combata o costume de ter uma opinião formada sobre tudo;

5) Redescubra as coisas que lhe dão prazer. Fique atento às suas necessidades. Cuide de sua mente, de seu corpo e de sua saúde;

6) Fique atento às necessidades dos outros. Contribuição e compaixão aumentam a resiliência;

7) Resiliência não é rejeitar ou ignorar as emoções negativas, mas apenas não permitir que elas controlem você. Fique atento!


*Bibianna Teodori é executive e master coach, fundadora da Positive Transformation Coaching e coautora do livro ‘Coaching na Prática - Como o Coaching pode contribuir em todas as áreas da sua vida’ – www.bibiannateodori.com.br.

O fim melancólico do governo Dilma

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Felizmente, está próximo o fim da desastrada gestão de Dilma Rousseff à frente dos destinos do nosso infeliz país. Sua herança vai ser terrível para a próxima administração, que irá encontrar dificuldades de toda a ordem para dar um novo rumo ao Brasil, que se viu engolfado em um mar de corrupção e roubalheiras sem fim, tendo em vista que a fraqueza e incompetência da “revolucionária” da década de 1960 do século passado, no movimento que justificou a entrada dos militares no poder, virou o país de “ponta a cabeça”, com uma política econômica condenada por todos, que nos trouxe a volta da inflação, juros altos e, pior do que isso, a desconfiança dos investidores nacionais e estrangeiros, que já se afastaram de qualquer possibilidade de aplicarem seus recursos no nosso crescimento.

Considerada por seu chefe e orientador Lula como uma grande “gerente”, com pouco tempo no governo desandou a tomar decisões e atitudes inconsequentes, sempre apoiadas por um Congresso de aproveitadores e negocistas, com 40 ministérios no geral entregues a politiqueiros venais. Com as raras exceções de sempre, levou a que todos aqueles que pudessem colocar recursos para alavancar o crescimento econômico se encolhessem por não confiar no governo. O escândalo da compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos, e a construção da refinaria Abreu Lima, em Pernambuco, abalou a nossa grande Petrobras, cujas ações despencaram nas bolsas de valores, causando prejuízos sem conta para os investidores. Por incrível que possa parecer, as ações da Petrobras passaram a oscilar com os resultados das pesquisas eleitorais. Se Dilma desce, as ações sobem de preço. Isso confirma que os que investem seus recursos em qualquer setor da economia entenderam que o nome de Dilma é sinônimo de azar na área financeira.

Queira Deus que os números apurados pelos institutos de pesquisas se confirmem e que, em janeiro de 2015, o fantasma petista esteja banido do poder para “o bem do povo e a felicidade geral da Nação”.


*Joel Naegele é vice-presidente da Sociedade Nacional de Agricultura (SNA), conselheiro do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas no Estado do Rio de Janeiro (Sebrae-RJ) e membro da Câmara Setorial de Agronegócios da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj).

Postagens anônimas na internet podem ser usadas para promover o cyberbullying

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Francisca Paris (*)

 Com a promessa do anonimato, usuários cedem ao apelo do aplicativo para celulares Secret e revelam seus segredos. Ele permite fazer confidências sobre si mesmo ou outras pessoas por meio de posts com textos ou fotos – ou também compartilhar amenidades e brincadeiras – sem que o autor tenha sua identidade declarada, e se conectar tanto com conhecidos como com desconhecidos, que interagem por meio de comentários e curtidas.

A ideia de seus criadores, nos Estados Unidos, até pode ter sido boa, já que o programa incentiva o compartilhamento de pensamentos e sentimentos que, às vezes, são difíceis de serem revelados em outras situações. Porém, a condição de anonimato acabou criando um espaço aparentemente sem lei, em que se pode falar de tudo, inclusive propagar calúnias, difamações e imagens constrangedoras sem a devida autorização.

O Secret é mais uma ferramenta de relacionamento com infinitas possibilidades, que podem ser usadas para o bem e para o mal. O problema é quando ele é mal utilizado. O que era para ser um diário aberto virtual e bacana, em alguns casos tornou-se uma grande rede de intrigas e fofocas. Ou, pior, um espaço utilizado por alguns para promover o cyberbullying – agressão, intimidação ou humilhação de terceiros na esfera virtual –, a intolerância, o preconceito e, até mesmo, a pedofilia.

Mesmo quando essa violência é provocada sem intenção de machucar, geralmente por pessoas que não pensam nas consequências de seus atos, ela resulta na vitimização especialmente da criança ou do jovem, causando-lhe sofrimento, perturbação e diversos danos. Como em tudo na vida, é preciso pensar bem antes de agir, e não o contrário.

O aplicativo está disponível para download no Brasil há poucos meses e tem provocado muitas reclamações. Quem se sentir ofendido com um conteúdo que julgar inadequado pode denunciar o post ou até bloquear o autor da postagem no aplicativo. Em casos mais sérios, é possível, também, prestar queixa na delegacia. Já há, inclusive, pedidos de vítimas de postagens maldosas na Justiça para que o Secret não possa mais ser usado por aqui.

A internet é livre, mas não pode esconder ações erradas pelo anonimato. Não é tão fácil encontrar o autor de uma ofensa virtual, mas também não é impossível. De acordo com especialistas em crimes cibernéticos, tudo o que é feito na internet deixa rastros. Quer postar um segredo seu ou contar algo sobre outra pessoa nas redes? Então se prepare para correr o risco de ter que assumir as consequências e, eventualmente, enfrentar, até mesmo, um processo por ter ofendido alguém.

As redes sociais trazem enormes benefícios, especialmente quando estreitam os laços entre famílias, amigos e escola. Mas a migração dos contatos reais para o espaço virtual também carrega consigo os vários conflitos da sociedade. E a violência utilizada no mundo virtual apenas reflete aspectos das práticas desse fenômeno no mundo real: sofrimento e humilhação da vítima e incapacidade de se defender das agressões. O combate a esses acontecimentos será tão mais exitoso quanto maior for a interferência dos variados protagonistas do espaço social: família, professores, amigos e comunidade em geral.

É preciso estar atento ao que se expõe e compartilha online, porque cada informação divulgada pode ser interpretada de inúmeras maneiras e trazer problemas. E, nos casos dos menores de idade que estão na rede, é preciso atenção redobrada dos pais e da escola para ajudá-los na tarefa de identificar os limites entre o que precisa permanecer privado e o que pode tornar-se público. Mesmo que o autor não se identifique, as postagens no mundo virtual podem trazer implicações morais, éticas e legais. Na internet, assim como na vida, quanto mais conscientes, autocríticos e racionais com as nossas atitudes nós formos, melhor será nossa convivência com o próximo.

Quando o ataque acontece no mundo real, como na escola, por exemplo, e é denunciado, os agressores são identificados e confrontados pela autoridade escolar. Já nos casos de “perturbação online”, isso é mais difícil de ser combatido, especialmente quando o autor cria um perfil falso ou uma página anônima. Apesar disso, as vítimas não devem se calar por vergonha ou medo de represália e, sim, denunciar o que encontrarem de errado e até mesmo exigir que as medidas legais cabíveis sejam tomadas. Utilizando a velha máxima do “não faça com os outros o que você não gostaria que fizessem com você”, podemos estimular o convívio com o diferente, sabendo olhar para o outro com respeito.


*Francisca Paris é pedagoga, mestre em educação e diretora de Serviços Educacionais da Editora Saraiva.

Valorizar os pequenos e médios negócios locais

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*Rafael Abud

Foi aprovado, pela Câmara Federal, um projeto que visa alterar e atualizar a Lei de Licitações e Contratos (Lei 8.666/1993), criado por uma comissão temporária de modernização e apresentado pela senadora Kátia Abreu (PMDB-TO). O projeto tem por objetivo aumentar a qualidade dos serviços prestados ao governo em caso de contratação de empresas, dificultar a prática de cartéis entre instituições e ainda favorecer a livre-concorrência.

Com a extinção da carta-convite e da tomada de preços, instrumentos muitas vezes utilizados para burlar as exigências de licitação nas contratações de serviços e para encarecer os custos, uma vez que as empresas podem estabelecer um valor fixo entre si e não oferecer serviços de qualidade ao contratante, a nova legislação deu um passo adiante para o estímulo de uma prática comercial justa. Mais do que isso, responsabiliza as empresas a se dedicarem a outras variáveis que não só o menor preço para a contratação, e sim melhor qualidade.

Outro ponto do projeto que favorece o oferecimento de bens e serviços qualificados é a relevância do fator “ciclo de vida” nos objetos adquiridos pelo governo quando das contratações. A inclusão da durabilidade nos quesitos de aquisição de serviços garante que, nas licitações, as empresas se comprometam a manter o objeto prestado em condições palpáveis de qualidade, assegurando um equilíbrio entre isonomia, economicidade e eficiência.

Essas medidas, somadas ao aumento do piso contratual de R$ 8 mil para R$ 80 mil em casos de contratação sem necessidade de licitação, favorecem e estimulam a prática da contratação de micro e pequenas empresas pelos governos. Se combinado com uma lei estadual que se proponha a estabelecer uma cota obrigatória de fornecimentos de serviços por empresas locais nas compras do governo e nas licitações, esse projeto pode contribuir, em muito, para o fortalecimento dos mercados locais.

Mais do que isso. O estabelecimento de uma porcentagem de contratação de empresas locais, sejam elas pequenas ou não, pode fazer com que o capital gire em torno de cada núcleo regional, gerando empregos, desenvolvendo a economia e sustentando e fomentando o crescimento de cada localidade. Além disso, estimula o investimento empreendedor em serviços de qualidade e impede que micros e pequenas empresas quebrem antes de se estabelecer no mercado, uma vez que encontrarão sustentação em seu próprio nicho comercial local.

Dessa forma, uma das propostas de minha candidatura enquanto deputado estadual, que é justamente um projeto de lei embasado no estabelecimento de cotas obrigatórias para fornecimento de serviços por empresas locais, vem como um complemento firme ao projeto aprovado pela Câmara Federal. É preciso, mais do que promover condições mais vantajosas de contratação ao erário, fomentar a economia e permitir que todos tenham oportunidade de crescer dentro dela, gerando verbas e ampliando o faturamento do próprio patrimônio público.


*Rafael Abud é empresário e consultor de novos negócios e empreendedorismo.

Homenagens aos músicos da Sociedade Musical 15 de Novembro, a banda de música de Cantagalo

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Júlio, muito eficiente,

seu trabalho é exemplar,

guarda a moeda somente

não gosta de trambicar.


Luciano e Sandrinho

fazem o sax vibrar,

Messias não é sozinho,

o trio faz completar


Alexandre e Maribel, 

Ivete, Antônio, João,

levam o som perto do céu,

clarinete ao coração.


Pimenta na bateria,

esquentando a multidão.

Ele é todo alegria,

é dono da agitação.


Gabriel, o caçulinha,

a todos vive a encantar,

estuda linha por linha

e brinca de solfejar.


Rodrigo é, na verdade,

o grande animador.

Ele toca com vontade,

porque toca com amor.



Autoria: 

Dilma Coelho

Obsessões, religiões e jardins

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Devo admitir, publicamente, que sou portador de algumas incuráveis obsessões. Uma delas já atravessa quatro décadas da minha existência, portanto cultivo-a desde que me entendo por gente: os jardins e, em especial, o Jardim de Cantagalo.

Os portadores de obsessões são sempre compelidos a alegarem algo que justifique tais estados psicológicos. Aqui não vai ser diferente. Em minha defesa, posso arguir o fato inquestionável dos jardins serem entidades míticas primordiais, arquétipos onipresentes no caminhar da humanidade pelo tempo. Algumas das maiores religiões monoteístas, como o Judaísmo e o Catolicismo, os traduzem como a visão do Paraíso, ou a paisagem primeira que foi presenteada por Deus ao ser humano para que este a cuidasse e a cultivasse. Vem daí uma ideia que acalento no fundo da minha alma, também obsessivamente: o mundo deve ser “jardinizado” e todos os jardins rigorosamente preservados, para o deleite das gerações presentes e futuras.

Esses bucólicos espaços de convivência sempre chamam os homens e mulheres de boa vontade, que se dispõem a aquietar-se em suas sombras, à contemplação e, por que não dizer, à meditação. Uma importante tradição religiosa oriental nos conta que Sidharta Gautama, o Buda, atingiu a iluminação meditando sob uma árvore sagrada. Já a filosofia religiosa Zen assinala que, ao encontrarmos a beleza no mundo natural, a encontraremos também em nós mesmos. Portanto, os jardins são, ou deveriam ser, ambientes nos quais a natureza reorganizada pelas mãos humanas serve à fruição serena, contemplativa e meditativa do belo, para que, a partir dessa experiência estética, possamos aquietar a alma e até mesmo, por que não dizer, alçar patamares mais elevados da existência.

Os jardins são altamente terapêuticos. Neles, o bater do coração segue a suave cadência do rodopio das folhas, ao bailarem no ar, ao sabor da brisa. A convivência se acalma e se entrega àquilo que, na pressa do dia a dia, não habita nossas retinas, nem detém nossa atenção: o operoso trabalho das formigas, o delicado deslizar de peixinhos no espelho d’água, o majestoso voo dos sabiás, o sopro do vento embalando a folhagem...

Locais libertos da insistente presença dessas clausuras ambulantes de metal e vidro – os automóveis; os trajetos dos jardins são projetados não para o trânsito desenfreado e cada vez mais intenso e caótico desses objetos luzidios emissores de gás carbônico, mas para o andar a pé e o calmo vislumbre de árvores, lagos e pássaros. Locais onde as faixas de pedestres, que mantém frequente presença no passeio público, mostram-se completamente dispensáveis, já que suas alamedas são de domínio exclusivo dos caminhantes.

No mundo atual em que a satisfação é sempre atrelada ao consumo, em que a ordem é trabalhar mais, para amealhar mais e consumir ainda mais, os jardins são revolucionários, pois proclamam o nada fazer, o lazer e proveito gratuitos; conclamando a todos, proletários e patrões, à comunhão em torno de uma proposta libertária de convivência harmoniosa e descompromissada, na qual tempo não é dinheiro e sim algo que se deixa escorrer pelas mãos, preguiçosamente e sem culpa.

Um jardim é, sobretudo, o reino das crianças. Local onde os pequenos conquistam finalmente a liberdade do correr sem rumo, do brindar com terra, do sujar a roupa de lama, sem o olhar quase sempre desabonador das zelosas autoridades materna e paterna. 

Por fim, no meu caso particular, um jardim é um convite a voltar a ser criança, pois todos os signos da infância há muito vivida, mas nunca esquecida, estão lá: as árvores e os frutos, os insetos e os pássaros, os brinquedos, as brincadeiras, a ingênua alegria transbordante... Sentado no banco ao lado do coreto, embalado pelo contínuo gotejar da água que escorre languidamente do “toco”, no momento em que uma réstia de sol ofusca a visão, num lampejo, às vezes “vejo” uma charretinha puxada a bode cruzando as alamedas do Jardim de Cantagalo. Dentro dela há um menino de quatro anos, pleno de satisfação, sob o olhar cuidadoso do seu avô Antônio. Às vezes.


*João Bôsco de Paula Bon Cardoso é professor de sociologia e geografia, coordenador de Patrimônio Cultural do Projeto Fazenda São Clemente e um dos coordenadores do Centro de Memória, Pesquisa e Documentação de Cantagalo.

Copa e eleições: um desgaste emocional

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Fernando Rizzolo*

Quando, ano passado, milhares de pessoas saíram às ruas em São Paulo para protestar contra os gastos públicos, os esbanjamentos na construção dos estádios – que o governo insiste em chamar de “arenas” – e gritar contra a corrupção, tudo isso foi cansativo, não só para quem participou, mas, também, para quem assistiu aos protestos pela imprensa. Já neste ano, a expectativa desta que foi chamada de “Copa das Copas” também trouxe uma enorme carga emocional desgastante em virtude, é claro, da derrota da nossa Seleção Brasileira.

Por mais que se critique o evento esportivo no Brasil, como eu e muitos outros fizemos, as pessoas acabam torcendo. Comigo não poderia ser diferente, mas confesso que senti até um alívio quando perdemos. Aos poucos, percebi que aquilo estava me fazendo mal. Entre uma pipoca e outra, ficar ali e olhar aquela truculência, aquele circo anestesiante, me fez, ao fim do jogo, sentir que minha energia era absorvida, ganhando ou perdendo. Procurei entender o porquê, para não me julgar “um chato de galochas”, daqueles que não participam e não extravasam o patriotismo nem em Copa do Mundo, mas tentando fazer uma reflexão sobre como viver num país pobre, com tantos problemas, de modo que até o circo acaba cansando.

Muitas vezes pensei em qual seria o tema do meu próximo artigo, mas não vinha nada à mente; apenas os estádios caros, minha imagem anestesiada pelo jogo torcendo, mesmo sabendo que chega a ser revoltante ver aquelas “arenas” que não servirão para mais nada daqui pra frente. Senti um verdadeiro apagão inspirador no país onde houve, segundo o técnico Felipe Scolari, uma “pane” nos jogadores. E, assim, percebi que, por alguns instantes, do ponto de vista literário, também havia sofrido esta pane.

Agora, virão as eleições, começará tudo de novo, o horário eleitoral, as promessas vazias, as velhas figuras políticas explorando a miséria e trazendo um discurso mais esportivo, motivado pela Copa. É provável que muitos desses figurões critiquem os jogadores, para não trazer à baila a discussão sobre, é claro, o custo das “arenas”. E então, já sei, voltará o cansaço, a mesmice, e tenho certeza de que terei de descansar. Desta vez, não vou viajar para longe, ir ao exterior. Agora, pretendo ficar por aqui, quero ir para Minas Gerais. A propósito, descobri o porquê disso: toda vez que escrevo, tomo muito café, aquele café mineiro com cheiro de bule, e aí eu sonho com interior, fogão a lenha, cidadezinha de Minas... Como nunca fui ao interior de Minas, esse acaba sendo meu refúgio emocional... O lugar calmo, sem passeatas, sem “arenas”, só fogão a lenha e cafezinhos... Será que existe mesmo essa cidade? Esse “trem bom”????? Ou já estou na fase do Lexotan para me aliviar desse Brasil cansativo... de Copa e eleições...?


*Fernando Rizzolo é advogado, jornalista, mestre em direitos fundamentais, ex-articulista colaborador da Agência Estado – Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. , www.blogdorizzolo.com.br.

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