Artigo

Não marque gol contra: torça pelo Brasil, mas sem deixar os estudos de lado

  • PDF

*Francisca Paris

O futebol sempre fez parte do dia a dia dos brasileiros, de uns mais, outros menos. Porém, em época de Copa do Mundo, até quem não liga muito para os jogos de quarta e domingo acaba se rendendo às quatro linhas e torcendo pelo Brasil, mesmo sem entender bem as regras. Em um país que tem o futebol e o carnaval como parte da cultura popular, não é possível renegá-los. É uma questão de identidade.

Se a Copa já movimenta o Brasil quando acontece em outro país, imagina tendo os jogos no nosso quintal? Mesmo quem não gosta e optar por não assistir ao campeonato acabará afetado pelos jogos, já que tudo girará em torno deste calendário, especialmente entre junho e julho. Trânsito, horários, expediente bancário, feriados...

Em relação às escolas, é natural que haja uma mudança de calendário, mas sem prejudicar os estudos, claro. Será um evento tão grande que crianças e jovens estarão inertes no tema. Já que não dá para ser radical e tentar proibir que se fale sobre isso no colégio, nada melhor do que aproveitar assuntos relacionados para trabalhar em sala de aula.

O mesmo vale para o álbum da Copa, que é febre até mesmo entre os adultos. Melhor que ignorar o fato, que tal organizar uma mesa de trocas das figurinhas repetidas na hora do intervalo? Essa simples solução integra os alunos de diferentes séries e evita tanto que a brincadeira atrapalhe as aulas quanto que haja um consumismo excessivo.

No ensino fundamental, pode ser feito, por exemplo, um projeto interdisciplinar que reúna os alunos em grupos para fazer um levantamento completo sobre as características locais de cada uma das 12 cidades-sede no país, seu clima, região geográfica e hábitos. Depois, o trabalho pode ser apresentado em seminários e ter seu resultado exposto nos corredores na escola para todos conhecerem um pouco mais sobre as localidades. Além de divertido, será muito útil.

Entre os jovens do ensino médio, os professores podem aproveitar alguns jogos já definidos para debater importantes temas. Uma disputa entre os times da Inglaterra e da Argentina, por exemplo, pode suscitar um debate sobre a Guerra das Malvinas, o conflito entre Reino Unido e Argentina pelo domínio das ilhas, que começou em abril de 1982, quando o ditador argentino aproveitou uma briga histórica entre os dois países pelo território ocupado pelos ingleses desde 1883 e invadiu a região.

O importante é que se cumpram os 200 dias letivos exigidos na lei. O ideal é que as escolas antecipassem as férias para o mês de junho a fim de evitar o cancelamento das aulas em virtude dos jogos. Porém, se alguns colégios não conseguirem, há opções para repor as aulas perdidas, já que não faz sentido manter os meninos na escola durante os jogos do Brasil. O melhor é dispensá-los.

As escolas têm autonomia para reorganizar seu ano letivo, basta enviar a proposta do novo calendário para a aprovação do Conselho Municipal de Educação. A reposição dos dias perdidos pode ser feita aos sábados, antes das férias do meio do ano, ou no final de 2014, estendendo o segundo semestre em alguns dias quando normalmente já começaria o recesso. Lembrando que deve-se repor exatamente as disciplinas perdidas, então não vale cancelar um dia que teria português e matemática e marcar aulas de artes e educação física no lugar. É também bacana propor trabalhos para serem feitos em casa para complementar as atividades presenciais.

Com a orientação da escola e da família, até mesmo quem está se preparando para prestar vestibular não será prejudicado. Basta se programar para parar os estudos apenas na hora do jogo, mantendo a dedicação nos momentos restantes. Como tudo na vida, o importante é saber dosar e equilibrar os momentos de obrigação e de lazer.


*Francisca Paris é pedagoga, mestra em educação e diretora de serviços educacionais da Saraiva.


Passeio público

  • PDF

No centro das minhas atenções, sempre está o Centro de Cantagalo. Caminho por ele e, em meio aos acenos e cumprimentos verbais – um dos prazeres da vida no interior –, observo os detalhes, a movimentação geral e as mudanças. Mais uma faixa de pedestres aqui, outra calçada revestida com as ondas da praia de Copacabana ali, menos uma casa antiga acolá...

Quando constatei o milagre da multiplicação das faixas de pedestres, lembrei-me da instalação delas em Brasília. Na época, o governo do Distrito Federal contratou artistas de rua para oferecer flores aos motoristas que as respeitassem, realizando um necessário trabalho pedagógico. Sem isso, o efeito das faixas é, muita das vezes, ornamental. Acho, também, que alguns condutores não as respeitam temendo que motoristas desavisados colidam nas traseiras dos seus veículos.

Coloco-me na extremidade de uma delas e nada acontece, o trânsito flui “normalmente”. Espero a minha vez de atravessar a Avenida Barão de Cantagalo, quando o fluxo de automóveis cessa. Cruzando a Praça da Matriz, recentemente modificada, o que me prende a atenção não são os “coqueiros” acondicionados em avantajados vasos, e sim o enorme painel que retrata a fachada do finado Solar dos Ventura. Lembro-me que quando o imóvel histórico estava para ruir, reunimos, sob a liderança do então vereador Henrique Bon, centenas de assinaturas, em vão, pela não derrubada. Belíssimo painel! Agora, o desafio é que a prometida reconstrução da fachada fique à altura da qualidade da reprodução em outdoor.

“Volto ao jardim, com a certeza que devo chorar”... Ao adentrar o nosso “mais belo cartão postal”, atravessando o pórtico que ladeia o Fórum, não há tema musical mais apropriado; e passo a cantarolar o clássico de Cartola.

Aproximo-me, sem pressa, da “casinha de Papai Noel”, onde, em pleno mês de junho, por sobre a porta envidraçada, descansa, meio tímida, pois deslocada no tempo, uma guirlanda saudosa do Natal. Ano após ano, esta pequena habitação fica a figurar destoante à espera do inquilino que só chega para sua curta temporada de dezembro.

Sempre gosto de atualizar as minhas retinas em relação ao coreto, não me canso de admirá-lo, mesmo na fase de penúria em que se encontra. Desde o fundo da infância, ele sempre teve em mim um companheiro, na alegria e na tristeza. Deslizando olhar nos seus detalhes, contraponho-os às imagens de fotos antigas que tenho gravadas na memória, e constato, não sem uma pontada de pesar, o empobrecimento de suas características originais. Por conta de restaurações pouco criteriosas, a antiga sofisticação da cobertura de zinco, dos vitrais e do candelabro desapareceram. A imitação de galhos retorcidos da sua estrutura encontra-se avariada; os pequenos animais retratados nela, por conta de pintura descuidada, transformaram-se em caricaturas do que antes eram; e o piso hidráulico se apresenta como tendo sofrido abalos sísmicos.

Alço o patamar superior do coreto, galgando pausadamente a escada de mármore encardido. Meu campo de visão lentamente se amplia. Agora, tenho um olhar panorâmico de alguns canteiros onde impera a confusão de arbustos e arvoredos, em competição por uma réstia de sol. Por décadas, o plantio desordenado ofusca o projeto paisagístico original. Mas me alivia notar que, apesar disso, as características mais marcantes da escola do bom e velho Auguste François Marie Glaziou continuam resistindo, já que, felizmente, até hoje, o traçado sinuoso dos canteiros e alamedas continua intacto, e a ideia primordial da disposição das massas vegetais de maior porte ainda se pronuncia, apesar dos plantios aleatórios, comemorativos e festivos de inúmeras espécies sem nada se considerar em termos de gestão e, apesar também do recente corte da mangueira secular (talvez por justificáveis motivos de segurança dos transeuntes), reduzindo seu largo tronco a uma melancólica mesa, a servir nada a comensal algum. Como consequência desse ato, a próxima espécie a perecer por ali talvez seja a tradicional grama pelo de urso, que viceja adaptada ao sombreamento.

Ao apoiar meu antebraço no guarda-corpo lateral, mergulho o olhar nas águas lodacentas do repuxo, onde nadam, meio claudicantes, alguns peixes acometidos por estranhas mutações; alivia-me notar que os mais afetados pelo mal, como um branquinho que desenvolveu uma corcova e assustava as crianças na tentativa frustrada de equilibrar-se no nado, foram retirados.

Despeço-me momentaneamente do jardim, caminhando em direção ao pórtico em frente ao Banco do Brasil. 

A visão de outro tipo de banco, os de sentar, do Senadinho, na indecisão de se reconhecerem como brancos ou alaranjados, fica impressa nas minhas retinas já fatigadas. Uma manilha de borda torta e torneira improvisada fazem às vezes de tanque. A força das raízes soergue, inclina e desalinha a mureta lateral. Apertando o passo, cruzo a Avenida Leontino Felippe Richa por sobre os paralelepípedos sepultados pelo asfalto. De súbito, toca na minha cabeça o último trecho de ‘As rosas não falam’: “Devias vir para ver os meus olhos tristonhos, e quem sabe sonhavas meus sonhos, por fim”.



*João Bôsco de Paula Bon Cardoso é professor de sociologia e geografia, coordenador de Patrimônio Cultural do Projeto Fazenda São Clemente e um dos coordenadores do Centro de Memória, Pesquisa e Documentação de Cantagalo.

Os grandes cafezais de outrora

  • PDF

Quem se dedica ao estudo da história cantagalense, logo verifica que a evolução do lugar foi marcada por quatro ciclos econômicos perfeitamente definidos: o do ouro, o do café, o da pecuária e o do cimento. O primeiro, embora importante, porque motivou a ocupação da área, foi fugaz e enganador, ensejando o desencanto de muitos povoadores iniciais. O terceiro e o quarto foram notáveis e até decisivos para o progresso do lugar, mas deixam de ser aqui considerados, porque não foram específicos da área ou se manifestaram em épocas mais recentes.

Neste espaço, vamos ventilar apenas o ciclo do café, que foi o mais importante de todos e o que mais projeção deu à cidade de Cantagalo.

Depois de haverem inundado os morros do Rio de Janeiro (enfeitando, inclusive, o brasão de armas do Império), os cafeeiros subiram a serra de Friburgo e invadiram os antigos sertões do Macacu com uma fúria inaudita. Os primeiros exemplares entraram na região em princípios do século XIX, certamente como espécimes exóticas de viveiros preparatórios de futuras lavouras, espalhando-se rapidamente nos anos subsequentes. Quando John Mawe visitou a área, em 1809, já encontrou muitas plantações de vulto, como a do tenente Joaquim José Soares, nas “Lavrinhas, e a do açoriano Manoel José Pereira, na fazenda “Rancharia” (hoje Monnerat), onde havia “cinco mil pés de café em pleno crescimento”.

Mas a grande expansão do café ocorreu mesmo a partir de 1820, com a chegada do português Antônio Clemente Pinto (futuro barão de Nova Friburgo) como simples sesmeiro. Segundo consta, ele começou a epopeia na fazenda de “Areias”, em Boa Sorte, plantando, ali, as primeiras lavouras, que acabaram se estendendo às demais propriedades que foi adquirindo nos anos seguintes, como “São Clemente”, “Boa Sorte”, “Laranjeiras” e outras desse porte (há quem diga, certamente com algum exagero, que chegou a possuir, na região, 21 fazendas), acabando por construir numa delas (“Gavião”) a mais suntuosa sede rural do Brasil-Império.

Seguindo os passos do notável empresário luso, muitos outros fazendeiros também plantaram imensos cafezais, derrubando matas e lançando bases de grandes fazendas, que acabaram bordando toda a região. E, assim, o grande município de Cantagalo, que cerca de um século antes era mero sertão inculto, habitado só por “índios brabos”, transformou-se na meca do café e terra de opulentos barões, haja vista que a região chegou a possuir cerca de 20 titulares do Império!

O fato é que, em meados do século XIX, o município desbancou Vassouras, antes “rainha do café”, e a então Província do Rio de Janeiro, graças à produção de Cantagalo, suplantou a de São Paulo e a de Minas, assumindo a liderança da produção de café em todo o território nacional. Segundo Roberto Simonsen, a Província Fluminense, então batida por elas, disparou na frente, com 77,12% da produção brasileira, contra 13,82% de São Paulo e 7,63% de Minas Gerais. Em 1860, essa porcentagem subiu para 81,57%, num total de 8.746.361 arrobas.

Em razão desse avanço, a sociedade cresceu (a despeito do regime escravocrata, que também aumentou), com a elevação da vila à condição de cidade, em 1857; introdução da ferrovia, em 1876; novos jornais, teatro (1878); um grandioso templo católico (1876); vários colégios e empresas de expressão. Em suma: o lugar acabou alcançando grande projeção, sobretudo na Europa, de onde vieram príncipes, cientistas e viajantes só para conhecê-lo. Alguns dos seus habitantes chegaram a angariar fama até no exterior, como o conde de São Clemente, que recebeu comendas de vários países, tal a importância do ciclo do café na história cantagalense.


*Clélio Erthal é desembargador federal aposentado, pesquisador, escritor e autor de vários livros sobre a história dos municípios da região.

Gente que faz história

  • PDF

Já faz tempo que não escrevo sobre pessoas que, por competência, disciplina e força de vontade, conseguem superar dificuldades de toda sorte para chegar a realizar seus sonhos, fixar posições de relevo na sociedade, enfim, galgar os degraus da escada que os levam ao sucesso. O meu retratado de hoje é o advogado e empresário de sucesso Moacyr José Malheiros, gaúcho de Taquara, nascido em 19 de agosto de 1942, que começou seus estudos na cidade de Santa Maria (RS), frequentando a conhecida Escola Frederico Westphalem, em Santa Maria, que se deslocou para o Rio de Janeiro em 1969, onde completou sua formação na antiga Universidade Estadual da Guanabara, onde foi aluno do renomado professor e advogado Roberto Lyra, de quem guarda ótimas recordações. Em l971, obteve sua carteira profissional e começou advogar. Em 1974, fez concurso para procurador federal com ótimo aproveitamento, iniciando suas atividades profissionais junto ao Tribunal Marítimo, funcionando nos casos de acidentes de embarcações nacionais e estrangeiras. À mesma época, já acumulava funções de advogado na esfera particular, trabalhando ao lado de grandes profissionais da profissão, como Geraldo Veridiano de Azevedo e Haroldo Valadão, em escritório especializado na área de exportação de café, junto aos grandes exportadores da época, como Marcelino Martins, Nelson Brand Maciel e José Martins dos Santos. De 1976 até 2007, exerceu a função de assessor jurídico do Centro de Café, no Rio de Janeiro.

Em 1992, conheceu Cantagalo graças à sua contratação como profissional do direito. Gostou da cidade, logo adquirindo propriedade rural próximo a Euclidelândia, cujo solo considera de excelente qualidade, onde cultiva o plantio de eucalipto, com ótimo desempenho. Em 1999, adquiriu a Fazenda Santa Guilhermina, em Santa Rita da Floresta, e, pouco a pouco, anexou outras pequenas propriedades, cultivando um terço da propriedade com café, calculando seu plantio em 80 mil pés aproximadamente.

Sua vocação empreendedora o levou a implantar, em área alugada à Fazenda da Aldeia, equipamentos modernos para o tratamento de eucalipto. Com a evolução dos negócios nessa área, ampliou suas instalações em três hectares, adquiridos da Fazenda da Aldeia, onde ampliou, consideravelmente, suas instalações com aquisições de equipamentos de nova geração e de maior capacidade de produção, ampliando o número de funcionários. 

Moacyr José Malheiros é uma história de sucesso que merece ser realçada.


*Joel Naegele é vice-presidente da Sociedade Nacional de Agricultura (SNA), conselheiro fiscal do Sebrae-RJ e membro da Câmara Setorial de Agronegócios da Alerj (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro).

Conheci Mão de Luva

  • PDF

Carlos Élio Maciel Teixeira*

Criação do distrito, em 9 de outubro de 1806; da vila em 9 de março de 1814; elevação à categoria de cidade em 2 de outubro de 1857. São datas importantes no calendário civil do município de Cantagalo. Quando, em 2 de outubro de 1957, comemorou-se 100 anos da cidade, houve uma grande festa com a presença do governador do estado, Dr. Miguel Couto Filho; do senador Vasconcellos Torres e de inúmeras outras autoridades. Era prefeito o senhor Henrique Luiz Frauches, que nomeara uma comissão de professores, escritores e personalidades da terra para cuidar do evento.

Nas duas últimas administrações e na atual, preferiu-se comemorar o 9 de março. O 2 de outubro sempre vinha prejudicado, em decorrência das eleições no início do mesmo mês, de dois em dois anos. A escolha de 9 de março passa a ser uma opção. No entanto, 2 de outubro é uma data que não pode ser esquecida.

Em 2057, a cidade vai completar 200 anos de sua existência. Nas datas mencionadas, Cantagalo foi referência na colônia e sua influência chegava até a Corte. O imperador D. Pedro nos visitou mais de uma vez. Tivemos os nossos barões, de Cantagalo e de Nova Friburgo, que também nasceu aqui. A Igreja Matriz, o Palacete do Gavião, o jardim, o prédio do Fórum, a estrada de ferro e as fazendas de café são relíquias que refletem e guardam traços fortes da cultura e do desenvolvimento de um povo.

A fundação da maioria das cidades se dá por acaso. Se podemos retroceder, voltar no tempo, às suas origens, nelas encontraremos as figuras dos seus fundadores. É o que veremos, mais adiante, em relação à cidade de Cantagalo.

A história fala das Entradas e Bandeiras, expedições que visavam conhecer o interior do Brasil, descobrir pedras e metais preciosos. Devemos a elas a ampliação de nossas fronteiras, além do que estabelecia o Tratado de Tordesilhas. Não fogem de nossas memórias de estudantes as figuras lendárias de Fernão Dias, Paes Leme (O Caçador de Esmeraldas) e Bartolomeu Bueno da Silva (O Anhanguera).

O nosso herói, Manoel Henriques, comandava uma expedição com o mesmo desejo. No banco da escola, com imaginação, convidamos a todos para lembrarmos de Manoel Henriques, o Mão de Luva, fundador da cidade de Cantagalo. Com seu perfil aventureiro, sertanista, desbravados, de bandeirante, chegou, com seus companheiros. O objetivo do garimpar ouro, por aluvião, embrenhando-se neste vastíssimo sertão é a sua saga. Foi o primeiro e sua presença na história é verdadeira. Atraiu para cá os olhos e a atenção da colônia. Um explorador obstinado. Sua vida não foi uma vida de transgressão. Praticar o garimpo sem passar à Coroa a quinta parte exigida seria o seu crime. Que outro achou neste território?

Garimpar exige conhecimento, equipamentos, intuição, perseverança, contato com a natureza e muito trabalho. A febre do outro, em todo mundo, tornava regiões antes pacatas em verdadeiras áreas de turbulência, dando origem à sua colonização. A notícia do precioso metal atrai. A área ficou infestada de garimpeiros. Perante as autoridades, todos que permaneciam eram chamados facinorosos. Até jesuítas haviam explorado a terra sem a devida permissão. Certamente que cumpriam seu papel de catequizar e fundar cidades.

Conta-se que Mão de Luva, em todos os seus contatos com as pessoas e seus seguidores, ensinava alguma coisa aprendida com os próprios jesuítas. Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, participou, em 1784, de uma expedição como encarregado de mapear o território, que já chamava a atenção há muito tempo. É possível que Tiradentes tenha observado o sentimento desbravador do famoso garimpeiro. Tiradentes, mais tarde, foi morto e esquartejado, no Rio de Janeiro, por querer a independência do Brasil, em 1792. Vejam!

Os fatos, as evidências, apontam para Mão de Luva. Ele não sabia o que estava fazendo, mas sabemos o que ele fez! No seu sonho de garimpo, deu origem a uma cidade chamada Cantagalo. Na madrugada fria da floresta, em canto prolongado, ecoando por todo o sertão, anuncia que, na casa do galo tem gente, às quatro horas da manhã. Nasce um novo dia, uma nova era. Mão de Luva é preso, levado e seu acampamento, um pequeno núcleo, pilhado. O “assentamento” de Mão de Luva ficava próximo à confluência de dois córregos, hoje, o São Pedro e o Lavrinhas, mais precisamente onde se situa a Praça Zilda Estorani Guzzo. O passo seguinte da colônia foi mandar construir a Casa do Ouro, no mesmo local, com a finalidade de recolher a cota da Coroa. Não logrou sucesso.

O canto do galo ficou, dando origem ao nome Cantagalo. E o galo, símbolo da terra, continua cantando forte, esculpido pelo ilustre e saudoso cantagalense Honório Peçanha, erguido na Praça Miguel de Carvalho, ao lado do prédio da Prefeitura Municipal. Escondido, poderia ser transferido para a Praça Zilda Estorani Guzzo, no início da cidade, como um gesto de boas-vindas. A referida praça está sofrendo reformas de embelezamento pela municipalidade e, receber um marco alusivo a Manoel Henriques, o Mão de Luva, seria louvável.

É chegado o momento de reconhecermos Manoel Henriques, o Mão de Luva, como o legítimo fundador da cidade de Cantagalo, em 1780!

Uma consulta aos historiadores e a elaboração de um projeto de lei municipal estabeleceria o bom senso a respeito.

Opine e divulgue sem moderação.


*Carlos Élio Maciel Teixeira é servidor público municipal aposentado. Já foi chefe de Gabinete da Prefeitura de Cantagalo e presidente do Instituto de Pensão e Aposentadoria Municipal de Cantagalo (Ipam).

Livros e gols

  • PDF

Karine Pansa*

Em 1990, quando se iniciou a série histórica das estatísticas relativas ao desempenho do setor editorial brasileiro e, na Copa do Mundo da Itália, a Alemanha Ocidental foi a campeã, nosso país produziu 239,3 milhões de livros e 22,4 mil títulos. Em 1994, ano em que a Seleção Canarinho conquistou o tetra nos gramados dos Estados Unidos, foram 246 milhões de exemplares e 38,2 mil títulos.

Neste ano de 2014, em que o Brasil sedia o maior evento esportivo internacional, já ultrapassamos os 450 milhões de exemplares e nos aproximamos de 60 mil títulos anuais. A evolução dos números aferidos pela Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), na Pesquisa de Produção e Vendas do Mercado Editorial, mostra a crescente profissionalização do setor e o avanço na luta para que o País tenha cada vez mais leitores.

Algo importante nesse processo – e daí a analogia que fiz com a Copa do Mundo – é o quanto o mercado editorial deve aproveitar as oportunidades para conquistar mais público. De janeiro a maio de 2014, o volume de títulos relativos à competição e ao futebol cresceu 400% em relação a igual período do ano anterior. Gol de placa, bradariam os locutores esportivos.

Tais estatísticas também suscitam uma ponderação: é preciso diagnosticar, cada vez mais, os temas de ficção e não-ficção que sensibilizam e atraem a atenção do público, inclusive do ponto de vista da segmentação. Nem todos os assuntos são tão óbvios como a Copa do Mundo, mas sempre é possível entender o mercado, perceber suas nuanças, tendências, gostos e possibilidades.

Nesse sentido, pesquisas como Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro, têm fornecido subsídios ao mercado e até mesmo à formulação de políticas públicas. Em sua última edição, o estudo demonstrou que metade da população brasileira com cinco anos ou mais (cerca de 175 milhões de pessoas) é constituída por leitores, tecnicamente definidos como aqueles que leram pelo menos um livro nos últimos três meses.

O dado é positivo por um lado, pois mostra uma sensível evolução, mas também deixa claro haver um imenso espaço de crescimento: ainda precisamos conquistar 50% do mercado em potencial. E é aí que entram oportunidades como a Copa do Mundo, um tema atraente e lúdico para parcela expressiva da população, incluindo as crianças. O sucesso dos álbuns de figurinhas das seleções, verdadeira febre a cada quatro anos, sinaliza uma tendência que não pode ser ignorada. Em 2014, a editora que detém os direitos da Fifa para produzi-los distribuiu 8,5 milhões de exemplares em todo o mundo.

Eventos de tamanha proporção e atratividade, mesmo quando permeados de polêmica, como está ocorrendo com a Copa do Mundo do Brasil, representam oportunidades para a formação de leitores. Numa obra sobre futebol, as pessoas podem descobrir os encantos de um livro, as infinitas possibilidades de aprender, emocionar-se e conhecer lugares como se estivessem viajando. É paixão à primeira vista, que, invariavelmente, se torna um relacionamento duradouro.

Por isso, mais importantes do que os cinco títulos mundiais da Seleção Brasileira (tomara que ganhemos o sexto em 2014) são os cerca de 60 mil títulos de livros a que estamos chegando e quantos mais pudermos produzir nos próximos anos. Para isso, não podemos perder as oportunidades de conquistar leitores como as que se apresentam nesta Copa do Mundo. Quando campeões em leitura, seremos quase imbatíveis no campeonato do desenvolvimento. 


*Karine Pansa, empresária do setor editorial, é a presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL).

Urnas eletrônicas e fraudes

  • PDF

*Célio Pezza

As urnas eletrônicas utilizadas no Brasil são confiáveis? Essa é uma pergunta simples, mas é um tema pouco debatido. A resposta de outros países muito mais desenvolvidos que o nosso é clara: não são confiáveis, pois um computador é vulnerável a invasões e manipulações dos resultados. Há várias formas de se fraudar os resultados: por exemplo, é possível introduzir um comando que a cada três votos, um seja desviado para um determinado candidato, mesmo que o eleitor tenha teclado o número de outro. Urnas eletrônicas foram inspecionadas por especialistas em informática na Europa, que concluíram que é impossível saber se os resultados fornecidos correspondem às escolhas feitas. Resumindo, as urnas são inseguras e vulneráveis.

Por que países como Estados Unidos, Japão, Alemanha, França e dezenas de outros de primeiro mundo se recusam a usar as urnas eletrônicas? Será que eles não possuem tecnologia? Para eles, o motivo é claro: as urnas eletrônicas não são seguras e não estão a serviço de uma democracia verdadeira.

Enquanto Holanda e Alemanha consideram “criminosas” as urnas que utilizamos no Brasil, aqui, alardeamos que conseguimos os resultados poucas horas após o pleito. Os poucos com coragem para expor essa situação vergonhosa sumiram ou foram assassinados, segundo o deputado federal Fernando Chiarelli, do PDT, que afirmou ter recebido ameaças de morte desde que começou, em 2013, a denunciar fraudes nas urnas brasileiras.

Devido à impossibilidade de auditoria na gravação dos resultados dos votos, as urnas foram rejeitadas em mais de 50 países sérios e declaradas inconstitucionais em alguns. Em dezembro de 2012, um jovem hacker conhecido como “Rangel” mostrou para mais de 100 pessoas, na Sociedade dos Engenheiros, no Rio de Janeiro, como interceptou os dados do sistema Intranet da Justiça Eleitoral e modificou os resultados sem ser detectado. Na época, um crime grave foi denunciado, mas nada foi feito. Logo depois, o hacker sumiu de cena e a mídia nunca mais falou sobre o assunto.

Também tivemos o caso de um grupo de alunos da Universidade de Brasília, que violou as urnas em uma série de testes, mas o então ministro Ricardo Lewandowski (lembram-se dele no mensalão?) se apressou em dizer que, em uma situação real, isso seria impossível. 

O fato é o seguinte: as máquinas são burras e os homens no poder sabem disso. Também sabem que vão fazer o que quiserem. Acredito que as questões e dúvidas levantadas em outros países deveriam passar por amplo debate público, mas os grandes meios de comunicação não tocam no assunto. O governo prefere o discurso ridículo que exportamos tecnologia e democracia.


*Célio Pezza é escritor, colunista de sites e jornais de todo o Brasil e autor de sete livros. Saiba mais em www.celiopezza.com/www.facebook.com/celio.pezza

Copa do mundo: quem é obrigado a trabalhar?

  • PDF

*Ydileuse Martins

Às vésperas da Copa do Mundo, muitas cidades-sede de jogos do maior evento futebolístico do planeta poderão decretar feriado ou ponto facultativo. O Rio de Janeiro, por exemplo, vai parar nos dias em que o Maracanã receber as partidas do torneio. Ao todo, serão sete dias de feriado, incluindo a grande final no dia 13 de julho.

São Paulo, a princípio, deve ter dois feriados, nos dias 12 e 23 de junho, datas nas quais a Arena Corinthians receberá, respectivamente, a partida de abertura da Copa, entre Brasil e Croácia, e o jogo Holanda e Chile. A decisão acerca do feriado deve ser decretada pela Prefeitura em breve. Se a ideia sair do papel, o paulistano terá, ao todo, quatro folgas durante o mundial: 12, 19 (Corpus Christi), 23 de junho e 9 de julho (Revolução Constitucionalista).

De acordo com a Lei Geral da Copa, fica a critério dos estados, Distrito Federal e municípios declararem feriado ou ponto facultativo nos dias de jogos em seus territórios. Entretanto, até o momento, só o Rio está com a situação definida. Devido à paixão do brasileiro, em especial, pelo futebol, e o fato do evento ser transmitido por inúmeras redes de televisão de todo mundo, é óbvio que as atividades profissionais de grande parte das empresas serão afetadas.

Os feriados servem para todo mundo, ou seja: tanto funcionários públicos quanto da iniciativa privada. “Se for decretado, por lei, feriado nos dias de jogos, quem trabalhar deverá ser recompensado por isso,  uma vez que, de acordo com o artigo 70 da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), é vedado o trabalho em feriados nacionais e religiosos.”

Entretanto, existem muitos serviços, como hospitais, delegacias, transporte público, que não podem parar nos feriados. Diante dessa situação, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) autoriza a continuidade das atividades por sua própria natureza, em virtude das exigências técnicas da empresa ou por conveniência pública. Para compensar os trabalhadores que têm de trabalhar nessas datas, há o benefício do pagamento dobrado, salvo se o empregado determinar outra data para a folga.

Ou seja: se a empresa resolve não abrir as portas, deixa de produzir e, ainda assim, terá o mesmo gasto com a folha de pagamento de seus empregados no fim do mês. Por outro lado, abrir as portas significa pagar horas extraordinárias de 100%. As prefeituras das capitais Belo Horizonte, Cuiabá, Curitiba, Manaus e Natal já garantiram que não haverá feriado nos dias de jogos da Copa, mas, sim, ponto facultativo. Nesse caso, não há nenhum impedimento legal para trabalhar. “O empregador, conforme o artigo 2º da CLT, não tem a obrigação de liberar os empregados de suas atividades laborais. Se resolver dar a dispensa, será mera liberalidade. Assim, o trabalho pode ser exigido pelo patrão nas datas qualificadas como ponto facultativo e o  empregado não tem direito a receber qualquer remuneração especial.

As empresas e o comércio, em geral, que não cumprirem as exigências legais para funcionamento nos feriados, podem ser multados. Um estabelecimento só pode abrir suas portas nessas datas se estiver munido de lei municipal e de convenção coletiva entre o sindicato patronal e os empregados. As autuações podem variar de R$ 4 mil até R$ 40 mil e dobram em caso de reincidência, conforme determina a Lei nº 11.603/2007.


*Ydileuse Martins é advogada da IOB e alerta que feriados servem para funcionários públicos e privados.

Pgina 11 de 18

Área exclusiva - Login

Notícias completas e versão digital exclusivas para assinantes

Informativo JR

Cadastre-se e fique bem informado