A derrocada do barão

Qua, 17 de Setembro de 2014
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Dentre os integrantes ilustres da sociedade cantagalense no século XIX, incluía-se Augusto de Souza Brandão, o Barão de Cantagalo. Além de integrar estirpe nobre (a mesma dos barões de Porto Novo e Aparecida), ele era forte comerciante na praça e atuante político, tornando-se, inclusive, chefe do Partido Liberal e presidente da Câmara local mais de uma vez. Nessa última posição, cuidou, entre outros melhoramentos, de calçar a principal rua da cidade, que ainda guarda seu nome, e de arborizar a bela praça que hoje se chama João XXIII.

Homem progressista e dinâmico, o barão pretendeu transformar sua fazenda Santana (800 alqueires de terras, que davam um total de duas sesmarias) em propriedade modelo, grande centro cafeeiro. Para tanto, contraiu um empréstimo de 250 contos de réis junto a algumas instituições de crédito, notadamente Miranda Velloso & Cia. e Paulino Tinoco, que operavam no setor de comissariado do café no Rio de Janeiro. A título de garantia, ofereceu a hipoteca da fazenda.

Sobrevindo a extinção do regime servil em 1888 e a consequente perda dos numerosos escravos que possuía, ele não teve como colher o café que plantou e nem pagar a dívida que contraiu. Em consequência, rompeu com o Império, apontando-o como causador do revés que sofreu, e aderiu, com força, à campanha republicana, inscrevendo-se, como grande força política, no clube de São Sebastião do Paraíba. 

Falecendo pouco depois do evento, deixou para os dois filhos, então integrantes da firma Augusto Brandão Filho & Irmão, a solução do problema.

Augusto Brandão Filho, que era médico conceituado, dirigiu, em nome da firma, uma carta a José Heggendorn Monnerat, dono da fazenda São João e outras em Duas Barras, em 25 de setembro de 1900, solicitando um empréstimo no referido valor para saldar as dívidas. Como garantia, oferecia a hipoteca da Fazenda Santana, cujos vínculos anteriores deveriam ser desfeitos com o pagamento dos débitos.

José Monnerat, que era empresário astuto, procurou, antes, sondar os riscos do negócio: escreveu aos credores do falecido barão, informando-se das dívidas, e percorreu a fazenda para verificar a solidez da garantia oferecida. Por fim, verificando que melhor negócio seria deixar que se consumasse a execução. Escreveu ao Dr. Augusto Brandão, em 29 de setembro seguinte, comunicando-lhe que não poderia aceitar a proposta, e assim foi feito: no dia aprazado, compareceu ao leilão e arrematou a Fazenda de Santana por preço muito inferior ao montante que lhe fora solicitado a título de empréstimo. Tanto que acabou pagando a propriedade com o produto da colheita nela mesmo procedida naquele ano!

Em razão disso, ao mesmo tempo que a família do antigo barão emigrava de Cantagalo, levando o menino igualmente chamado Augusto e que, mais tarde, seria uma das glórias (vindo, inclusive, a merecer o título de “príncipe dos cirurgiões brasileiros”), a Fazenda Santana passou a ser administrada por Sebastião Monnerat Lutherbach, genro do arrematante, que acabou deixando nome na história do município.

Além de presidente da Câmara nos anos de 1920/1921, Sebastião Lutherbach destacou-se como administrador da fazenda (que enfeitou com novas construções, nela introduzindo gado guzerá de qualidade) e como inovador agroindustrial, participando, diretamente, da Exposição de Cordeiro de 1920 e da criação do Partido Rural, de grande aceitação na época.

Os filhos Tito, Augusto e Homero, embora apolíticos, ainda deram sequência às tradições agrícolas da família. Mas Santana, outrora vasta e produtiva fazenda, acabou, com o tempo, retalhada entre os herdeiros e sucessores, não passando, hoje, de mais um centro habitacional do município.




*Clélio Erthal é ex-funcionário da Justiça, tendo ocupado cargos de vulto, como desembargador e juiz, além de pesquisador da história de Cantagalo.



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