O tesouro de Mão de Luva

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Dentre as lendas que enfeitam a história de Cantagalo, umas são recentes, como a do Duque de Santo Tirso, que tem menos de 100 anos de existência. Outras, como a do galo denunciante que avisou aos soldados o exato local do garimpo, é mais antiga, pois já era contada desde a época do Império. Porém, a mais velha de todas é a do tesouro de Mão de Luva, que data da fundação do núcleo, no século XVIII. 

Quando o Vice-Rei D. Luiz de Vasconcellos nomeou o Desembargador- Superintendente Manoel da Cunha e Souza para chefiar o grupo destinado a fundar o arraial, em 22 de janeiro de 1787, já sabia da existência dessa lenda. Tanto que, no ato da nomeação, embora não acreditasse na sua veracidade, recomendou ao delegado que, assim que chegasse ao local do antigo garimpo, examinasse a história, conforme se vê no respectivo ato:

“Há quem diga que no Racho ou Cazá no interior do sertão do Macacu, onde foi preso Manoel Henriques, vulgo Mão de Luva, deixou este enterrado três arrobas de ouro dentro de huma vasilha que ficara coberta com huma lage três palmos debaixo da terra; em se devendo desprezar esta notícia, assim mesmo despida de toda certeza, se faz muito necessário que Va. Exa. logo que chegar ao dito sertão do Canta Gallo mande examinar o lugar que se aponta ou outros que paresão suspeitozos, para se descobrir com toda a individuasão a verdade ou a falsidade desta noticia.

À falta de informação histórica, ficamos sem saber se o superintendente efetuou ou não a pesquisa recomendada. Entendemos que não, por dois motivos: primeiro porque já havia se passado mais de um ano da prisão de Mão de Luva quando o superintendente chegou ao local (2 de julho de 1787); segundo porque o capitão Duarte Melha, nomeado pelo coronel Coimbra para administrar o reduto logo após a conquista, já havia destruído todo o garimpo ilegal.

Ao que tudo indica, o único ouro existente no local à época do assalto era mesmo o encontrado pelo sargento São Martinho na célebrenoite de 13 de maio de 1786 e por ele levado para Vila Rica: as 685 oitavas do metal em pó. O resto é pura fantasia, como fantasiosas também são as histórias que transformaram o modesto garimpeiro do Xopotó em duque português e em canto de galináceo a extraordinária obra dos soldados de Minas Gerais, que até ao papel de mascates se prestaram por cerca de dois anos.

Certamente, as pessoas que ainda acreditam na veracidade dessas histórias não tiveram a oportunidade de examinar os documentos que tratam do assunto. Afinal, a história de Cantagalo é suficientemente bala para precisar desses recursos ornamentais.



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