O trem entrava de marcha a ré em Cantagalo

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Clélio Erthal*

Quando, no século XIX, foram lançadas as primeiras ferrovias entre nós, os trens raramente cortavam as cidades pelo meio, dividindo-as em duas ou mais partes urbanas. Geralmente, tocavam suas periferias ou terminavam o curso em bairros afastados dos centros, bem longe do trânsito citadino. No Rio de Janeiro, por exemplo, eles nunca chegaram a trafegar pelo Centro e na zona sul, ficando mesmo na área norte, voltados para os subúrbios então classificados como da “Central do Brasil” e da “Leopoldina”. Ou então para o interior do País, como o maior meio de transporte que era, fugindo sempre das avenidas movimentadas (Presidente Vargas, Rodrigues Alves, Rio Branco) e dos bairros residenciais mais concorridos (Flamengo, Lapa, Laranjeiras, Botafogo, Copacabana). E o mesmo acontecia em Niterói, então capital do estado: o ponto terminal dos trens vindos da Região Serrana ou de Campos, ou que partiam da metrópole, no princípio era Marui (Barreto), devendo os passageiros que chegavam ou que saíam da cidade buscar outra condução até o ponto de embarque ou de chegada.

O caso de Nova Friburgo, cujo Centro era cortado de ponta a ponta pelo trem, era exceção, justificada pela topografia e pelo destino da viagem, Afinal, para a viatura que ultrapassava a serra e demandava os antigos sertões do Macacu, não havia outro recurso senão atravessar a cidade suíça.

Em Cantagalo o trem – quer vindo do Vale do Paraíba, quer da capital – passava na borda, como na maioria das cidades brasileiras. Do trecho percorrido em suas imediações, o ponto mais próximo do Centro era o depois denominado “Triângulo”, onde, mais tarde, foi montada a congelação de laticínios da cooperativa. Ali é que o comboio, depois de ultrapassar o ponto de entrada na urbe, recuava por um dos “catetos” da tortuosa figura geométrica e seguia de ré até o coração da cidade, badalando o sino costumeiro.

Em suma: obedecendo ao sistema geralmente adotado, era nesse ponto tangencial que devia ser edificada a estação ferroviária, afinal não muito distante do Centro urbano e situado no lugar onde passavam os trilhos da ferrovia rumo a Cordeiro ou a Santa Rita do Rio Negro (hoje Euclidelândia), sem precisar fazer a estranha manobra de recuo. Se o trem prosseguisse na direção da Batalha, rumo a Duas Barras, então sim, a penetração se justificaria por ser ali sua passagem natural. Mas não tocando-a apenas num dos lados, como na realidade se dava.

Entretanto, por circunstância não esclarecida pelos historiadores da ferrovia, a concessionária preferiu construir a gare no coração da cidade. Diziam os cantagalenses antigos que isso foi obra das mulheres. Certamente – diz a lenda – que não querendo andar até o “triângulo”, que achavam muito longe e desconfortável, foram elas que iniciaram o movimento, trazendo o trem quase à porta de suas residências, dispensando-as da incômoda caminhada. Será verdade?

Pelo sim, pelo não, é mais uma curiosa singularidade da tradicional urbe serrana.

*Clélio Erthal é desembargador aposentado, pesquisador e escritor sobre Cantagalo e região.



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