150 anos de Euclides da Cunha

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José Augusto Oliveira Huguenin*

Quando aprendi as primeiras lições de geografia política sobre a constituição administrativa de minha terra natal, o município de Cantagalo/RJ, fiquei maravilhado ao aprender o nome do terceiro distrito, Santa Rita de Euclidelândia. Maravilhado por dois motivos. Primeiro, porque sendo do segundo distrito, a encantadora vila de Santa Rita da Floresta, achei curioso haver duas Santas Ritas. Naquele dia, soube que, no feriado municipal de 22 de maio, Floresta dividia a importância com Euclidelândia. O segundo motivo era este nome sonoro, longo para uma criança soletrar. De acordo com os programas infantis da época, eu sabia que devia ser a terra de alguém, pois ouvia muito falar na televisão sobre a Disneylândia, o mundo mágico de Walt Disney. Esse “Euclide” devia ser importante. Imagina ter um nome de uma cidade e que não era parque de diversões, não. Era um lugar onde gente morava e tinha até três fábricas de cimento! Logo me falaram que ele havia escrito o livro ‘Os sertões’, que ele havia nascido em uma fazenda lá em Euclidelândia, que, na época, ainda não chamava Euclidelândia, pois esse nome era uma homenagem e, por isto, o distrito de Santa Rita do Rio Negro, onde ele nasceu, havia trocado de nome. As coisas começaram a fazer sentido. Descobri a razão do nome da melhor manteiga do mundo se chamar ‘Sertões’. Na carroceria de uma kombi adaptada, vendendo verduras com o Tio João, passei em frente à Casa de Euclides da Cunha, ao lado do Colégio Maria Zulmira Torres, onde viria a estudar. Era um museu onde estava o seu cérebro. Era mesmo importante esse escritor. E o menino, quando ia para algum lugar longe, fazia questão de dizer que era da terra de Euclides da Cunha. 

Mas o dia que este menino sentiu mais orgulho mesmo foi quando, já adolescente, no ensino médio, estudando literatura, viu no livro didático o ilustre cantagalense como ícone e marco inicial de um movimento intitulado de “pré-modernismo”, justamente por não caber em nenhuma escola literária tradicional, por, junto com romances de Graça Aranha e Lima Barreto, representar uma virada no jeito de escrever e pensar do Brasil. Antecederam e influenciaram o  modernismo. Para um adolescente sonhador, antever e influenciar o moderno era uma coisa muito grande. 

Quando se tem uma celebridade dessas, logo quer se saber de sua vida e, neste quesito, romancista nenhum(a) seria capaz de imaginar tamanha trama trágica deste brasileiro. Orfandade aos dois anos, mudanças, o fim trágico assassinado pelo amante de sua esposa. Também convivemos em Cantagalo com uma espécie de “des-orgulho” frente à tragédia do conterrâneo. Tal fato se acentuou por ocasião de uma série televisiva que expunha ao país o cantagalense traído, como se isto diminuísse nossa terra. Não raro, a menção a Euclides despertava um comentário de quase desprezo. Fico buscando na memória para ver se acho situações em que como papagaio repeti comentários depreciativos de colegas mais fortes e populares com a intenção de fazer parte da turma. Não me lembro, mas com certeza deve ter acontecido.

Aí veio a Semana Euclidiana em São José do Rio Pardo (SP), que participei como estudante. Que orgulho saber que intelectuais do porte de Walnice Nogueira, Roberto Ventura, Oswaldo Galoti, Adelino Brandão e tantos outros, gente do estrangeiro que traduziu as palavras do conterrâneo para outras línguas. A maratona intelectual da Semana Euclidiana influenciou algumas gerações de estudantes cantagalenses, dando origem a um grupo que mantém viva a chama euclidianista na sua terra natal. 

Foi na Semana Euclidiana que conheci mais da história de sua vida. A vida que viveu e a vida no sertão que ele apresentou ao mundo. E não foi só o sertão não. Ele ajudou a dar contorno ao mapa do Brasil na expedição do alto Purus, no Acre. Ele, que invejou a letra do hino nacional peruano, insistiu com Coelho Neto que era preciso uma campanha para termos uma letra para o hino Nacional Brasileiro. Lá mesmo viu e denunciou ‘Contrastes e Confrontos’ que deixavam trabalhadores, muitos sertanejos fugidos do sertão em chamas, que sobreviviam da lida nos seringais, deixados “à margem da história”. Ó pátria amada, um filho teu não foge à luta.

Um jovem que entrou para escola militar, onde bebeu da fonte do positivismo de Auguste Comte que, associada à formação científica, racional e ao pensamento da época, amalgamou uma personalidade forte, de coragem, tanto que foi o único cadete que atirou o sabre aos pés do Ministro da Guerra em protesto pró-república, o que gerou saída do Exército. Esta formação também o fez ter atitudes e pensamentos que, sob a ótica de hoje, certamente geram questionamentos. Há ainda quem lhe impinja a pecha de racista. Ele pode ter enveredado no uso de teorias antropológicas sectaristas, o que estava em voga na época, ao tentar descrever o homem, mas, sangrou sua consciência de cidadão a campanha nefasta de Canudos, reconheceu que antes de tudo o sertanejo era um forte, escreveu o livro vingador. 

Creio que não podemos condená-lo pelo fato do mundo ser o que era quando nasceu em 1866... E chego à razão destas linhas, nascidas em agosto, mês de sua morte. Em 2016, comemoramos 150 anos do nascimento de Euclides da Cunha. Uma data que não passa em branco para um cantagalense orgulhoso por ter  um conterrâneo imortal cuja obra o mundo reverencia.


*José Augusto Oliveira Huguenin é doutor em física pela UFF, trabalha na UFF de Volta Redonda e é escritor, autor de diversos livros de contos e romances.



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