Artigo

Greve dos caminhoneiros – uma análise sobre a crise que surpreendeu o país

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Alessandra de Paula

A greve é um instrumento utilizado pelos trabalhadores, de qualquer setor de produção, para exercer pressão, seja sobre os patrões, seja sobre órgãos da administração pública, de forma direta ou indireta.

Fenômeno social de grande importância – considerados os motivos que a materializam e a participação dos grupos que reivindicam o que consideram seus direitos –, a greve ocorre entre os trabalhadores que compõem a camada caracterizada como pertencente à infraestrutura social. No entanto, outros campos do conhecimento também se ocupam de análises em relação à prática desse movimento reivindicatório com pretensões de compreender e, também, reverter prejuízos causados por paralisações de determinado setor.

Assim, reflexões e discussões são realizadas, profissionais se debruçam sobre números e estatísticas, para poderem divulgar os impactos das greves principalmente sobre a economia de uma região ou de um país.

Essa movimentação toda foi verificada, recentemente, quando uma greve organizada por caminhoneiros, com a duração de 11 dias, deixou visíveis alguns pontos de vulnerabilidade de nossa economia, principalmente expondo a dependência do setor produtivo em relação ao transporte rodoviário.

Durante o período de paralisação, as estradas foram bloqueadas, o que acarretou desabastecimento de vários produtos, principalmente os perecíveis, como carnes, frutas, verduras, leite e seus derivados. A falta de combustíveis nos postos de gasolina e em aeroportos também foi um agravante, pois provocou o cancelamento de voos nacionais e internacionais e causou danos em setores de produção de bens e serviços, assim como trouxe prejuízos aos consumidores, de maneira geral, com a consequente elevação dos preços de diversos produtos e reflexos no transporte público. Perdas também foram observadas nos segmentos da saúde, pois hospitais ficaram desabastecidos de materiais e medicamentos para, inclusive, atendimentos de urgência e emergência, e da educação, com o cancelamento ou precarização de aulas, pois os alunos, muitas vezes, não conseguiram chegar aos estabelecimentos de ensino.

Em resumo, o impacto social e econômico resultante do movimento grevista tomou grandes proporções, a ponto de alguns analistas econômicos se mostrarem bastante preocupados com seus desdobramentos, em médio e longo prazo.

Dentre as principais reivindicações dos caminhoneiros, pode-se destacar a política de controle do preço do diesel, a extinção da cobrança de pedágio referente aos eixos suspensos e a aprovação do projeto de lei 528/2015, que define um valor mínimo pago por frete, o que propiciaria maiores garantias de lucro aos motoristas.

Com o objetivo de atender a algumas das solicitações, o governo anunciou uma redução de R$ 0,46 no litro do diesel com um congelamento de preço por 60 dias sendo que, transcorrido esse prazo, os reajustes voltariam a ser mensais, e não diários ou semanais, como estavam sendo praticados. Foram anunciadas, também, outras medidas provisórias. Uma delas aponta para a isenção de cobrança de taxa de pedágio do eixo suspenso; uma segunda estabelece o direito dos caminhoneiros autônomos a 30% do frete da CONAB; e uma terceira que determina uma tabela mínima para a cobrança/pagamento do frete. Estima-se que essas medidas possam trazer, à economia do país, um impacto da ordem de R$ 10 bilhões, valor expressivo se considerada a economia já instável por causa de outros fatores, principalmente eventos climáticos e valores praticados no mercado externo.

Ainda existem outras medidas em tramitação, como o programa de incentivo à renovação de frota, com a concessão de alíquota zero de PIS/Pasep, Cofins e Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para a compra de caminhão por motoristas autônomos e também por pequenas transportadoras, com a obrigatoriedade de entrega do veículo antigo, para que seja encaminhado para reciclagem. Outra medida é a anistia de multas emitidas pela Agência Nacional dos Transportes (ANTT) para infrações de caráter médio e leve, sem reincidência no período de 12 meses, que poderão ser substituídas por advertência. Outra mudança é no limite de 20 pontos para cassação da carteira que passa a ser de 40 pontos para os caminhoneiros. Contudo, isso só é possível desde que não exista multa grave ou gravíssima.

No entanto, para implementação dessas medidas, há outros fatores a serem considerados, principalmente se forem levadas em conta as péssimas condições das rodovias brasileiras, principais canais de escoamento da produção agropecuária e de hortifrutigranjeiros. A revitalização da malha viária implicaria mais investimentos dos que os previstos, ainda mais se forem computadas as alterações do cenário econômico do Brasil, uma vez que, de acordo com o Banco Central, a projeção de crescimento, que era de 2,37%, caiu para 2,18%. Com a alta dos preços no período da greve, a estimativa para o índice de preços ao consumidor (IPCA), índice oficial de inflação, passou de 3,6% para 3,65%. Esse percentual está abaixo do centro de meta de inflação que é de 4,5% –  mas, para 2019, a projeção do IPCA feita por economistas é de 4,01%.

O cenário que se apresenta merece, portanto, um olhar mais atento do setor de logística, principalmente com o planejamento e implementação de ações efetivas para minimizar o impacto dessas perdas junto aos produtores e consumidores, de maneira geral. Nesse primeiro momento, as ações poderiam estar voltadas à retomada de crescimento do país, por meio da intralogística, com melhorias em diversos setores de cada empresa, como tecnologias da informação, condomínios empresariais, segurança e gestão de risco, buscando soluções multimodais, agregando toda a cadeia logística em função do aperfeiçoamento de custos e efetivação de processos para minimização de custos.

Investimentos em sistemas de transporte, bi ou plurimodais, podem ser a resposta, em médio ou longo prazo, para a retomada do crescimento econômico.

O país tem uma malha ferroviária subutilizada, assim como hidrovias, situação que se reflete nas rodovias, que carecem de manutenção e recuperação. Um bom planejamento de estratégia logística, voltado ao melhor aproveitamento dos recursos oriundos de uma parceria público-privada poderia ser a resposta para a retomada do crescimento econômico do país, assim como para a manutenção dos direitos conquistados pelos caminhoneiros, no movimento recentemente deflagrado.



Alessandra de Paula, coordenadora do curso superior de Logística da Escola de Gestão,
Comunicação e Negócios do Centro Universitário Internacional Uninter

Suíços – A Migração Esquecida

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Henrique Bon

“Pouco a pouco uma espécie de sujeira tomou conta de nós, e que nada pode controlar, nada pode prender, ainda que todas as pessoas do navio aparecessem em formação militar. Eis que recebemos o ataque de pequenos bichinhos – os piolhos – muito sociáveis por natureza e índole, que se multiplicaram de modo tão familiar e íntimo entre nós, até que finalmente todos, jovens ou velhos, ricos e pobres, ganhamos uma bem sortida quantidade ou parcela deles. Ninguém ficou a salvo. Tão atrevidos como jamais alguém o foi, esses bichinhos se excederam em insolência – tudo foi conquistado. Tivemos no meio do mar uma praga universal”.

Com tais palavras, o alfaiate Joseph Hecht, nascido em Willisau, Cantão de Lucerna, descreve parte de sua experiência de imigrante a bordo do Heureux-Voyage, um dos sete navios que, entre 11 de setembro e 11 de outubro de 1819, deixariam a Europa com uma carga humana de 2100 suíços. Os pouco mais de 1500 sobreviventes desta curiosa e trágica experiência tropical fundariam uma cidade, participariam ativamente da expansão cafeeira do médio Paraíba e mudariam para sempre a face do país.

Até os primeiros anos do século XIX, aceitar a migração estrangeira para o Brasil, implicava para Portugal colocar em risco a posse do seu maior território ultramarino, posição que viria a se modificar somente com a transferência da corte para o Rio de Janeiro em 1808, em fuga das tropas napoleônicas.

A transformação do Brasil, na prática, de colônia em metrópole, venceria a relutância lusa à solução imigrantista, uma vez que a população branca era considerada numericamente insuficiente para a edificação de um estado nacional forte sob a égide política, étnica e cultural européia. Estava assim, aberto – ao menos parcialmente, uma vez que a escravidão não havia sido abolida – o espaço para que o excedente populacional europeu aqui aportasse.

A Suíça por sua vez, então um conglomerado de estados (cantões) semi-independentes, possuía desde a idade média uma forte vocação migratória. Mercenários, comerciantes, artistas e artesãos deslocavam-se periodicamente para outros países da Europa e a partir do século XVIII, levas de agricultores e artífices descobrirão também a América do Norte. A seta que no início do século XIX, desloca parte deste contingente de seus destinos tradicionais para o Brasil, será disparada por um misto de acaso e oportunismo.

No mesmo período em que no Brasil se consolidava a condição de Reino Unido os cantões suíços atravessavam grave crise. Barreiras alfandegárias tinham sido levantadas em 1816 pela França, e o manufaturado suíço dependente em grande parte do mercado vizinho, enfrentaria também em todo o resto da Europa a implacável concorrência britânica. Em 1817 alterações climáticas decretam o fracasso das colheitas. Esta nefasta conjugação irá se refletir em todas as comunidades, produzindo uma legião de miseráveis. Era, pois, o momento de emigrar em massa para o Novo Mundo, ainda que aos rigores do mar se somassem os riscos de comissários inescrupulosos.

Em meio a crise um aventureiro de nome Sebastien-Nicolas Gachet chegou ao Brasil em 3 de outubro de 1817. Ao solicitar o passaporte, conseguira ele do governo de Fribourg uma carta de apresentação que na prática o transformava em agente diplomático encarregado de negociar junto à corte portuguesa o estabelecimento de seus compatriotas no Brasil. Na verdade, sem que as autoridades de seu cantão o soubessem, proporia ele a D. João, a exploração da colônia a ser criada, por uma sociedade européia. Esta seria a única proprietária das terras concedidas pelo governo português e obteria direitos de comercialização exclusiva, de alguns produtos brasileiros mantidos sob monopólio da coroa.

Descartada a intermediação privada, o incansável diplomata formula nos meses subsequentes nova proposta, desta feita a da celebração de um tratado diretamente entre o Cantão de Fribourg e as autoridades brasileiras. Ante a necessidade de um representante do governo português junto à Dieta Helvetica (parlamento suíço), sugere Gachet ao príncipe D. João o nome de Jérome Brémond (1760-1839), francês estabelecido em Semsales e proprietário de uma fábrica de vidros, seu sócio secreto, para, “na qualidade de fervoroso realista e antigo secretário de S.M. Luiz XVI", ocupar o consulado português na Suíça. Tal proposta, equivalente na prática a se entregar ao lobo à guarda das ovelhas, será efetivada em 2 de maio de 1818, quando o Ministro Thomaz Antonio de Villa Nova Portugal notifica o governo suíço sobre a nomeação. Restava escolher o sítio exato para a futura colônia e formular o tratado definitivo.

O religioso e militar português Pedro Miranda de Machado Malheiro (?-1839), nomeado para o cargo de Inspetor da Colonização Estrangeira optará pela fazenda Morro Queimado, em Cantagalo, pertencente a Monsenhor Almeida, religioso como ele. A propriedade custaria ao erário cerca de vinte vezes o que o antigo proprietário despendera por ela seis anos antes, recebendo Miranda, não obstante, autorização real para o negócio.

Em 11 de maio de 1818, um tratado com 24 artigos é aprovado, nele se determinando o número de cem famílias suíço-francesas, de religião católica, cujos líderes fossem preferencialmente artífices e agricultores. Continha, porém, o documento duas graves imprecisões, não estabelecendo o número exato de indivíduos que a colônia estaria apta a receber, bem como, quanto ao transporte, cuja cláusula não especificava claramente se as despesas do trajeto seriam integralmente pagas pela coroa (esta era a interpretação do governo lusitano) ou se apenas se contemplaria o percurso transatlântico.

A decisão de se entregar a Gachet e a Brémond a responsabilidade de engajamento e transporte dos suíços mediante a remuneração "per capita" de cem pesos espanhóis, independente de eventuais óbitos após o embarque, se mostraria igualmente desastrosa, pois permitiria a ambos extrapolar em muito o quantitativo estimado.

Listagens preliminares foram feitas e para desagrado das autoridades do Cantão de Fribourg, de um total de 879 indivíduos inscritos, apenas 34 pertenciam a categoria dos indesejáveis ou "apátridas”. Para as projeções de lucro dos organizadores, o número era também considerado insuficiente, e desta forma, a partir de novembro de 1818, acordará o cônsul Brémond com outros cantões a participação destes no movimento migratório. Não seria, pois, a futura colônia, composta apenas por seguidores de Roma, como estabelecia o tratado e tampouco falaria um só idioma.

Famílias inteiras de suíços, no entanto, com pleno direito de cidadania, sem dívidas sociais, aderem espontaneamente ao movimento, de sorte que apesar da grande pressão das autoridades, serão eles e não os indesejáveis, a esmagadora maioria de imigrantes, respondendo por mais de 85% do seu total.

Um contingente, majoritariamente de Vaud, Valais, Genève, Neuchatel e Fribourg, parte da vila de Estavayer-le-Lac, em três pequenas embarcações na manhã de 4 de julho de 1819, após cerimônia religiosa, rumo à Bâle, já no Reno, onde chega no dia 8. Como afluentes do fluxo principal de imigrantes, outros juntam-se aos primeiros nesta vila, notadamente aqueles de língua alemã e os do Jura. Bâle, por sua posição geográfica, estará destinada a ser o ponto de convergência de toda a migração, além do último solo pátrio a ser pisado pelos peregrinos.

No entanto, a desorganização agravada pelo súbito acréscimo populacional, começa a se fazer sentir. O número de barcos é insuficiente. A falta de espaço acirra os ânimos e descobre-se que Brémond sacrificara os colonos em função do grande número de caixotes com mercadorias que destinara ao Brasil. As caixas serão desembarcadas e jogadas sobre o cais pelos imigrantes. Brémond, que fora tentar aplacar os ânimos, escapa por pouco de ser lançado no Reno.

A margem de lucro se esgarça. O industrial de Sensales desentende-se com o armador, contratando outra empresa de navegação fluvial. O primeiro, de sobrenome Frey, revela às autoridades que Brémond, ao contrário de buscar o menor preço para o transporte, exige para si uma parte do que fora cobrado aos imigrantes. O clima é de tensão e desconfiança.

Rumo a Holanda, as cidades e vilas ribeirinhas continuarão superfaturando todos os gêneros que os viajantes adquirem. Em 15 de julho a colônia é surpreendida pelo primeiro óbito, o de um jovem afogado após queda acidental no Reno. O percurso se faz demasiado moroso, com a perda de dias preciosos por circunstancias burocráticas, ocasionando um desnecessário sangramento na bolsa dos colonos. A comitiva chega finalmente ao litoral a partir de 29 de julho. Acantonam os imigrantes em Mijl, povoado próximo a Dordrecht, ao sul de um canal que leva a St. Gravendeel. A região, estuário do Reno, é insalubre e pantanosa.

Contratempos quanto à entrega de víveres para os navios, dívidas de Gachet para com fornecedores e uma tempestade na Normandia são enumerados como causas para o retardo do embarque rumo ao Brasil. A varíola e as febres intermitentes começam a fazer suas vítimas. Alguns colonos serão transferidos para os hospitais de Dordrecht e St. Gravendeel. No mês de agosto de 1819, a curva de óbitos avança, principalmente sobre a população infantil. Antes que todos abandonem a Holanda, nada menos que trinta e nove indivíduos serão pranteados.

Os mais afortunados partiriam para o Brasil em 11 de setembro, no Daphne. Outros permanecerão acampados até o dia 10 de outubro. Todos os contingentes, porém, somente embarcarão quando a higiene precária, a água contaminada, as doenças e os víveres de baixa qualidade já terão conspirado para dizimar a colônia, atingindo-a principalmente em seu trajeto oceânico.

Gachet e Brémond, ainda na Europa, em meio a acusações mútuas desfazem a aliança, a partir do momento em que a "empresa migratória" mostra-se um manancial de prejuízos e desencontros. Quanto aos colonos, estes reagem como podem ao desengano; os vínculos morais se afrouxam e diante da presença constante da morte os rígidos preceitos se relativizam cada vez mais. O abade Jacob Joye (1789-1866), pároco da futura colônia, reclama com seus superiores do que considera a corrupção dos costumes entre seus assistidos, esquecendo-se de que esperimentavam todos a situação limite do desenraizamento, agravada pela incerteza quanto a própria sobrevivência.

O padre embarcará no Urania, seguramente o mais trágico navio. Levantando ferros em 12 de setembro, a embarcação, com 437 colonos a bordo, quase todos de Fribourg, já na manhã seguinte experimentará contato com a dura realidade dos próximos 80 dias, deitando ao mar em 13 de setembro os corpos de dois imigrantes. O religioso enfatiza o triste espetáculo dos gritos, choros, vômitos, doenças e morte que seriam uma constante ao longo de toda a travessia, atingindo o paroxismo a contabilidade fúnebre no dia 24, quando nada menos que sete indivíduos são lançados sem vida às águas. Joye chega a reduzir o ritual que antecede o ato de se erguer a cabeceira do pranchão côncavo preso à borda do navio, sobre o qual se deposita o cadáver que assim desliza para o mar, "para não atormentar os moribundos pelo canto lúgubre da cerimônia".

Em 30 de novembro de 1819 o Urania firmará suas amarras no Rio de Janeiro, cujo panorama à volta causa tal impressão a Jacques Joye que este escreverá em seu diário ser impossível usufruir de mais bela paisagem. Contudo 109 colonos de um total de 437 não poderão jamais vislumbrar tal espetáculo, dispersos seus corpos ao longo do percurso.

Em geral receberam os imigrantes uma boa acolhida no Brasil. Transferidos para Tambí, seguiriam até Macacu, também conhecida como Santo Antônio de Sá, onde no mosteiro, cujas ruínas ainda existem, um hospital aguardaria os enfermos. Desde o Rio, até aquele ponto, mais 35 suíços encontrariam a morte.

No sopé das montanhas os colonos continuarão a pé ou sobre o lombo de mulas. Algumas crianças serão carregadas por escravos até Nova Friburgo, onde cem “choupanas de um cômodo só, imundas e úmidas, sem assoalho, cheias de vermes e de toda a sorte de insetos”, nas palavras do imigrante Jeremie Lugon, aguardam os novos brasileiros. 

A inauguração da vila de Nova Friburgo dá-se de maneira festiva, em cerimônia liderada pelo inspetor Miranda no dia 17 de abril de 1820. Os dias subsequentes não oferecem motivos de júbilo. O médico Jean Bazet, que registrara em março 600 enfermos, continua em atividade febril. Entre janeiro e junho de 1820, mais 131 colonos morrem, por diarreias, disenterias e febres intermitentes. A marcha insidiosa das adversidades gera o desespero, a nostalgia e um sentimento depressivo generalizado.

Ao prejuízo da coesão colonial causado por tantos óbitos e o crescente número de viúvas e órfãos, soma-se o desapontamento pelas terras conferidas por sorteio, quadriláteros de 300 por 750 braças, a serem divididos entre 15 a 17 indivíduos, algumas glebas ocupadas por íngremes penhascos ou cônicos rochedos. Logo, portanto, anotações do abade Joye denunciarão evasões até mesmo para a Europa, ainda que ordenasse Miranda aos militares dos registros da serra e postos circunvizinhos, prender todo aquele que tentasse passar sem a devida autorização.

Cantagalo acolhe grande parte dos que abandonam a colônia, atendendo ao chamado do café. Às famílias Bapst (Bast), Bard, Castella (Castelar), Chevrand, Cosendey, Cortat, Crelier, Curty, Dafflon, Folly, Frauches, Herde (Herdy), Jevoux, Lapaire (Lapér), Lugon, Lugon-Moulin, Luterbach (Lutterbach), Lütolf (Ludolf), Meunier, Monnerat, Musy, Page, Pic, Robadey, Tardin, Steullet (Stelet), Stutz, Volluz (Vollú) e Wermelinger, todas da colonização de 1819, unir-se-ão os Bon, Feuchard, Huguenin, Periard, chegados posteriormente ao Brasil. Alguns imigrantes se estabelecerão também em Campos ou no Rio. Outros, principalmente os solteiros, a partir de 1823 se engajarão no recém-criado regimento de Estrangeiros, poucos retornando.

Quanto aos que permaneceram nos “números” (as glebas eram numeradas e, portanto, conhecidas como “números coloniais”) acabariam por adquirir ou ocupar terras contíguas, abandonadas por seus proprietários originais, de maneira que a pequena propriedade familiar, idealizada no projeto imigrantista, voltaria em pouco tempo a reproduzir o modelo agrário vigente no pais.

De qualquer forma, tal como o homem da parábola grega, que ao banhar-se no rio transforma o rio e a si, a despeito de toda a política tortuosa em relação ao imigrante, nenhuma das regiões atingidas pelo movimento seria a mesma e tampouco o Brasil, após 1819. Os suíços, sem o perceber, abririam uma estrada sem volta, através de cujos passos afluíram, para o bem e para o mal, milhões de estrangeiros, notadamente a partir da segunda metade do século XIX.  Se, em uma inversão das expectativas, foram estes  pioneiros colonizados pelos trópicos, a simples presença do imigrante abriria um precedente que iria modificar para sempre os rumos do país. 



Henrique Bon é pesquisador e escritor, autor de vários livros sobre a história da região

A saga de um jornal vitorioso

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Cantagalo sempre foi sede de bons jornais, desde o tempo da regência (4ª década do século XIX). Durante o Império, quando o Município tornou-se grande produtor de café e abrigou várias pessoas que até figuravam no topo da sociedade nacional, surgiram alguns periódicos que deixaram marca na história da imprensa do País. Mas não eram propriamente órgãos de informação e sim de combate, visando reforçar as teses defendidas por seus redatores.

As campanhas abolicionista e republicana, por exemplo, tiveram grandes defensores.

Dos antigos, os jornais que mais profundas marcas deixaram, foram: “O Correio de Cantagalo”, da facção conservadora, chefiada por Thomaz da Porciúncula e seguida na cidade serrana pela facção dos “Jagunços” – conduzida por Miguel de Carvalho, Alberto Bezamath e Júlio Santos – e a “Tribuna de Cantagalo”, da facção liberal, liderada por Nilo Peçanha e que tinha no Município o apoio da facção “Caburé”, conduzida por Honório Pacheco, César Freijanes e Acácio Dias – que foi o derradeiro presidente do semanário.

Mas esses últimos jornais, além das respectivas colorações políticas, tiveram vida relativamente curta. O conservador “Correio de Cantagalo” circulou até 1930, quando a revolução getulista assumiu o Poder. E o liberal “Tribuna de Cantagalo” até 1935, quando seu proprietário (Acácio Dias) deixou de ser prefeito e partiu para Niterói.

Há 31 anos, surgiu O JORNAL DA REGIÃO, ocupando com vantagem o espaço deixado pelos referidos hebdomanários. Sem dúvida, ele suplantou todos os jornais que o precederam; notadamente quanto ao aspecto formal, à área coberta e à densidade informativa. De fato, em vez de mero tablete, ele tem a forma e tamanho de jornal; é bastante informativo, não se preocupando em captar simpatizantes partidários, sendo – nesse particular – totalmente independente e, por fim, faz jus ao nome que ostenta, pois cobre toda a região do antigo “Sertão do Macacu” e não simplesmente o Município de Cantagalo, como as anteriores folhas.

Célio Figueiredo, seu fundador, já tem o nome inscrito na história como um dos grandes jornalistas da terra de Euclides da Cunha. Quando o JORNAL DA REGIÃO deixar de circular (porque, afinal, nenhum jornal é eterno), o povo cantagalense há de se orgulhar por ter sua cidade, um dia, editado um jornal tão importante.

Parabéns toda equipe, formulando votos de que o JORNAL DA REGIÃO continue circulando por muitos anos, com o mesmo sucesso de sempre.

*Clélio Erthal é desembargador federal aposentado, historiador e autor de livros sobre a história regional

Dia das mães – 8 orientações para economizar no presente

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O Dia das Mães, celebrado em 14 de maio, é considerado a segunda melhor data para o comércio, depois do Natal. Para quem vai presentear, as principais orientações são saber o que ela realmente deseja e não gastar mais do que as finanças permitem.

“Qual filho não tem o desejo de presentear a mãe com o que há de melhor? Isso é muito bom, contudo, se não houve planejamento e poupança antecipada, evite colocar a sua saúde financeira em risco. Se este for o seu caso, procute comprar algo mais acessível, de valor afetivo, e comece a poupar para realizar um dos sonhos dela no próximo ano", orienta o presidente da Associação Brasileira de Educadores Financeiros (Abefin), Reinaldo Domingos.

Confira 8 orientações para economizar nas compras de Dia das Mães:

 1- Conheça os sonhos dela

De que adianta gastar dinheiro com algo que a mãe não queira ou não esteja ao menos precisando? O ideal é conversar com ela e procurar saber além de seus desejos de consumo, quais são os sonhos que deseja conquistar. Assim, você poderá presenteá-la com algo que ela realmente valorize.

2- Dê o primeiro passo

Caso não possa presentear a mãe com aquilo que ela mais deseja, porque não juntar uma quantia para que ela complete com o valor necessário e realize no futuro? Essa atitude pode reavivar a sua esperança em viajar, comprar um carro ou uma casa - especialmente por ter sido uma iniciativa de seus filhos.

3- Conheça o seu orçamento

Olhe para a sua situação financeira. Caso tenha se planejado com antecedência e poupado dinheiro, o valorize ao comprar e negociar preços. Caso não tenha poupado, a orientação é investir em um presente simbólico, com valor emocional, que remeta ao sonho, e começar a poupar para o próximo Dia das Mães.

4- Una os irmãos

Se não é filho único, que tal reunir os irmãos? Somando recursos vocês podem comprar algo mais significativo – quem sabe até realizar um dos sonhos dela – sem gastar tanto individualmente. A mãe pode ficar mais feliz dessa forma do que se receber dois ou mais presentes sem muito significado.

5- Pesquise preços

Escolhido o presente, não compre na primeira oportunidade. Valorize o seu dinheiro, faça pesquisas em pelo menos três lojas diferentes, tanto físicas quanto online. Os preços variam muito e o valor que você economizar pode poupar para a realização do sonho seguinte, seu ou de sua mãe.

6- Negocie o pagamento

Na hora de pagar, muitas pessoas têm vergonha de negociar, acham que estão “pedindo”. Contudo, saiba que na grande maioria dos preços praticados no mercado há “gordura”, ou seja, valor que pode ser eliminado ao conceder descontos aos consumidores. Essa é uma prática comum de mercado e que pode te ajudar – e muito – a economizar.

7- Evite parcelar

Compras parceladas são dívidas feitas hoje para serem pagas no futuro. Neste Dia das Mães, evite contrair uma nova dívida. Caso precise parcelar, analise qual valor caberá confortavelmente em seu orçamento nos próximos meses, evitando o risco de não conseguir pagar e entrar na inadimplencia.

8- Saiba presentear

Nem sempre o que a mãe deseja é um presente “comprado”. É possível que ela queira ter mais tempo com os filhos, fazer um passeio ou ser convidada para uma refeição preparada com carinho. Não tenha medo de sair do convencional e demonstrar seus sentimentos por meio de atitudes.

 Reinaldo Domingos é doutor em educação financeira, presidente da Associação Brasileira de Educadores Financeiros (Abefin) e da DSOP Educação Financeira e autor do best-seller Terapia Financeira, do lançamento Diário dos Sonhos e da primeira Coleção Didática de Educação Financeira do Brasil.

2016, um ano para ser esquecido?

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Eliomar de Lima*


O ano de 2016 finda e, certamente, não deixará muitas saudades entre os brasileiros. Que acabe logo. Difícil esquecer o rol de perdas em meio a tanta desordem, tramoias e desmoralização. A pátria humilhada envergonha-se do festival de corrupção e achincalhe que atingiu nossas instituições mais caras. Fragilidade no comando, descontrole, desrespeito, golpe. A memória esmaecida pelo tempo se reaviva e traz à lembrança fragmentos poéticos de Cecília Meireles e Chico Buarque no tema de ‘Os Inconfidentes’, com seus versos singelos e fortes, plenos de verdades acumuladas, explicativas de nossa história autoritária. Difícil ficar indiferente frente à força das palavras que dizem: “toda vez que um justo grita, um carrasco vem calar. Quem não presta fica vivo, quem é bom, mandam matar”. Matam e matam rápido. São mortes metafóricas, no plano da política e da mídia. Silenciam e amordaçam líderes reconhecidos, revestemos numa capa de opacidade e retiram-nos de forma soturna da cena política. O ano de 2016 ficará conhecido pela farsa dos falsos líderes, salvadores da pátria às avessas. Julgadores que deveriam ser julgados. A hipocrisia reina e o povo padece. Reformas são propaladas, o trabalhador perde seu emprego, compromete sua diminuta renda familiar, desestrutura sua vida. As cidades ficaram piores, perigosas, violentas. Tudo é longe – trabalho, escola, posto de saúde, hospital. No Brasil, a gestão pública assumiu que lugar do pobre deve ser pobre, seja na paisagem, na infraestrutura instalada, nos equipamentos disponíveis. O uso do automóvel dita as políticas públicas e surgem mais viadutos, mais túneis, novas avenidas. Na periferia distante, o povo apartado, sem jeito, desesperançado, sonha com metrô e VLT que funcionem. Que ano perverso! O pior é saber que o novo que se aproxima não parece nem um pouco promissor. Pobre povo brasileiro! Cheio de sonhos, acreditou que a Copa das Confederações, a Copa do Mundo e as Olimpíadas trariam dias melhores. Fim das festas e o duro choque de realidade. Legado, que legado! Contas e mais contas a pagar. Adeus, primeiras viagens de avião; adeus, primeiro carro comprado em intermináveis prestações. Que saudade do acesso à casa própria, mesmo sabendo que o programa era minha casa, minha dívida. E as políticas de transferência de renda, o que farão com ela? Neste fim de ano, a corda mais uma vez arrebenta no lado maior, o dos mais fracos, ainda não conscientes de sua força. Meu texto é pessimista e não poderia deixar de ser. Sou professor de universidade pública. Nos últimos anos, vibrei com a posição da UFC no ranking das melhores universidades brasileiras. E agora, diante das várias ameaças, temo reviver um novo período de perdas. Tivemos épocas nos anos de chumbo em que a evasão de excelentes professores prejudicou sobremaneira as universidades públicas. Foram muitos os que migraram para o Exterior em busca de melhores condições de trabalho e de pesquisa. Nesse quadro turbulento de 2016, pressinto com angústia o ano seguinte, quando poderemos perder conquistas  obtidas com muito suor e luta.

Eliomar de Lima é jornalista, radialista, professor e escritor de histórias infantis, mas, acima de tudo, um viciado em informação. Email: Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. / Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

O pão nosso que sobrou de ontem, nos vendei hoje ou amanhã, se for possível

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Eromilto Chermout*

Nos tempos atuais, com tanta preocupação que o homem tem com o futuro, principalmente, não é a toa que, por vezes, ouvimos o bordão “que mundo deixaremos para os nossos filhos?” E é realmente muito preocupante. A humanidade está muito preocupada em desenvolver tecnologias para comunicação, fontes de energias limpas, meios de transporte mais velozes e, ao mesmo tempo, mais seguros e menos poluentes, construção de moradias mais compactas para conseguir acomodar cada vez mais pessoas em um mesmo espaço, e outras preocupações que, sinceramente, considero um tanto descabidas, como, por exemplo, pesquisar a possibilidade de vida em marte, a possibilidade de vida fora do planeta Terra. O fato é que já se fala em fazer uma turnê pelo espaço e, sinceramente, não vejo propósito para tanto. Gastar, esbanjar ou sei lá que nome eu daria para a atividade. Só não me digam que é investimento, pois está completando um ano que foram gastos 2,5 bilhões de dólares, o equivalente a 5,8 bilhões de reais, com esta aventura, e já se projeta uma possível viagem tripulada, não por mim, é claro, ao planeta Marte, que a Nasa estima para o ano de 2030. Com tantas preocupações assim, eu acredito que a humanidade está se esquecendo de que a população está aumentando. Tudo bem que estão aumentando o número de médicos, de engenheiros, de físicos, de químicos, matemáticos, enfim, em todas as carreiras profissionais, mas estão aumentando também o número de pessoas sem ocupação, e, o que é pior, está diminuindo o número de pessoas que produzem alimentos. A população aumenta nos grandes centros e diminui na área rural. Estamos à beira de um colapso no abastecimento das cidades, pois a cada dia que passa é menor a relação entre o número de produtores para o de consumidores, e não se vê uma preocupação aparente, por parte dos governantes, com as pessoas envolvidas com a produção primária. Não sei se este fato se dá apenas aqui, no estado do Rio de Janeiro, pois, afinal de contas, o nosso estado, graças ao petróleo, é um dos mais ricos do país, ou era, antes da crise do petróleo, pois, hoje, é um dos mais quebrados do país. Continuamos a ser o segundo maior centro consumidor de alimentos do país, mas, como só fomos incentivados a produzir petróleo, na hora de produzir alimentos os produtores rurais, heróis solitários e desassistidos, não conseguem acompanhar a demanda. Temos uma produção por vezes medíocre diante do nosso potencial. A nossa produção, com isso, se torna cara e o preço de venda, que é definido pelo mercado, com a forte pressão de quem produz em maior quantidade, deixa sem fôlego aqueles que ainda tentam resistir. Diante dessa difícil equação, o que será que estaremos comendo daqui a 30 anos? Ou será que tentarão produzir alimentos em Marte para comercializar aqui? É bem sabido que, até lá, a população já terá aumentado bastante e que o número de produtores de alimentos, se nada for feito por eles, terá diminuído consideravelmente.

*Eromilto Chermout, técnico em laticínios e agricultor

A VERGONHA NACIONAL DOS POLÍTICOS GOSPEL

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Eduardo Baldaci*

Com propriedade, eu só posso falar de dois estados do Brasil: Rio de Janeiro e Mato Grosso, lugares onde morei e onde fui pastor. Consequentemente, conheço os políticos destes dois estados e suas relações com os evangélicos. No Rio, Anthony Garotinho, político há muito tempo envolvido com diversos escândalos e é apoiado por muitos pastores, inclusive por pastores com interesses eleitorais. Shows gospel aqui e acolá e uma igreja apática e comprometida que vê essas programações como “bênçãos”.

No Mato Grosso, Silval Barbosa, aquele mesmo que só aceitava promover cultos em seu gabinete com pastores de “grandes igrejas” (leia-se Grande Templo e Comec) e dizia não estar quando o pastor não liderava um “grande número de ovelhas”. Certa vez, pedi a um desembargador e a um deputado estadual para avisar Silval que tal descriminação não era boa aos olhos do Senhor.

Mas de quem será a culpa quando vemos políticos evangélicos atrás das grades? Quem tem a responsabilidade de discipular esses homens? A quem são dirigidas essas palavras bíblicas: “Eu te dei por atalaia sobre a casa de Israel; e tu da minha boca ouvirás a palavra e os avisarás da minha parte” (Ezequiel 3:17)????

Ter um governador como amigo, como membro de minha igreja, pode parecer algo muito interessante desde o ponto de vista do status social. Porém, é espiritualmente perigoso!

Eu convivi com muitos poderosos “gospel”. Suas festas não tinham nada de diferente de uma festa mundana. A mesma cerveja, a mesma caipirinha, o mesmo whisky... E a igreja e o pastor? Vamos disciplina-los? Não, afinal quem, em sã consciência, iria se arriscar a perder uma personalidade destas como membro de sua igreja?

Conclusão: aqui estão dois personagens “convencidos” do mundo gospel que estão ajudando a promover o maior escândalo de todos os tempos no Brasil. Unam-se a estes outros nomes, como Eduardo Cunha, Francisco Silva... Ufa, a lista é enorme!

Entre os dois, além de usarem o nome cristão de forma indevida, está a mesma característica: ambos acabaram com a ouvidoria em seus estados. No Rio, Garotinho extinguiu de vez. Em Mato Grosso, Silval a colocou dentro da Corregedoria Geral, a qual é ligada ao governador e “abafa” aquilo que não é de seu interesse.

Enfim, se o Brasil vai mudar, isso vai passar também pelos nossos púlpitos e sermões, com escala em nossa antiga eclesiologia, que promovia o desligamento de membros que apenas iam a um boteco comprar um guaraná engarrafado em um vidro similar ao de uma cerveja.


*Eduardo Baldaci é pastor e já comandou a Igreja Batista de Cantagalo. Foi articulista do JORNAL DA REGIÃO e, atualmente, mora nos Estados Unidos.

Profissão: político

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Luiz Carlos Borges da Silveira*

É consenso nacional que a política brasileira tem baixo conceito e quase nenhuma credibilidade junto à sociedade. Não precisa ser cientista político para perceber, basta ser um cidadão atento e razoavelmente informado. A questão é: por que isso é assim há tanto tempo e não muda? Acredito que, em parte, se deve à legislação (por isso a reforma política é pauta permanente) e também pela deterioração do sistema e do caráter da maioria que entra na vida pública. Política, no Brasil, é sinônimo de carreirismo, de profissão. Disso decorre boa parte dos problemas que afetam a própria política e ricochetam no país, na população.

A grande maioria dos políticos é formada de carreiristas de pouco espírito público e muito de interesse pessoal. Quem entra prova o gosto do poder e das regalias e não sai mais. E, para permanecer, faz todos os esforços possíveis, até alguns nada decentes, como temos visto. Assim se formam os caciques, donos de partidos, influentes em qualquer governo. 

Parlamentares que acumulam há décadas mandatos e montam esquemas tão duradouros e poderosos que, se alguma liderança nova quiser enfrentá-los, desiste. A força é desigual, os políticos profissionais sempre têm grandes recursos para gastar em uma eleição, mesmo que tal investimento nunca seja coberto com os subsídios recebidos durante o mandato, o que é, no mínimo, suspeito. Então, essa situação prejudica e até impede a renovação.

Portanto, política aqui é profissão, meio de vida, forma de enriquecer, construir grandes patrimônios. Não deveria ser assim, deveria ser forma de servir ao país e ao povo, cumprir uma missão e depois voltar à profissão de origem, cuidar de seus negócios anteriores. 

Todavia, na maioria das vezes, os políticos brasileiros permanecem vitaliciamente na atividade e se saírem não saberão exercer a antiga profissão por estarem desatualizados e também não saberão gerir um negócio próprio na iniciativa privada. E, como geralmente saem milionários da política, nem precisam se preocupar.

Gostei muito do que disse Eric Cantor na revista Veja: “Nos EUA, uma pessoa não entra na carreira pública para ficar rica. Se fizer isso, vai para a cadeia. Você tem de sair da vida pública para ganhar dinheiro. Deveria ser assim também no Brasil”. 

Cantor foi líder da maioria republicana na Câmara dos Estados Unidos entre 2011 e 2014 e, quando deixou o parlamento, foi trabalhar como advogado de um grande banco de investimentos. Na entrevista, ele fez outra observação: na Câmara Legislativa do estado da Virgínia, os deputados recebem cerca de 17 mil dólares por ano. “Ou seja, você precisa trabalhar, o Legislativo não basta. Todos têm um emprego.”

Voltando ao Brasil, a pergunta é: por que os políticos se perpetuam nos governos ou nos legislativos? A resposta mais simples, e correta, é: 1) Nos governos, pela sedução que o poder exerce, altos salários, mordomias e o exercício da influência em proveito pessoal. Sempre que alguém é convidado para cargo executivo, acaba transformando esse cargo em profissão, dificilmente o deixará; se muda o governo, muda junto; se não puder continuar no federal, vai para uma estatal ou para um governo estadual. Isso, se não usar o cargo público como trampolim para se eleger deputado ou senador; 2) No Legislativo (municipal, estadual e federal), há uma prerrogativa legal, o estatuto da reeleição. O parlamentar pode se reeleger quantas vezes quiser. Aí, caberia ao eleitor ter discernimento e capacidade de avaliar os candidatos, mas exigir isso seria exigir demais.

*Luiz Carlos Borges da Silveira é empresário, médico e professor. Foi ministro da Saúde e deputado federal.

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