"Hoje, em Cordeiro, infelizmente, não temos regras inteligentes, atualizadas e específicas para esse controle organizado de crescimento urbano".

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O empresário Vinício Salles Monnerat, que é formado em arquitetura e urbanismo e é proprietário da Marvin Arquitetura e Engenharia, concedeu, com exclusividade, uma entrevista ao JORNAL DA REGIÃO analisando a situação do urbanismo na cidade de Cordeiro. Ele defende várias ações do Poder Público para estabelecer um novo plano diretor para o município. Vinício esteve recentemente um encontro com as autoridades municipais discutindo o assunto.

JORNAL DA REGIÃO (JR) – Um pequeno perfil seu: formação, idade, onde nasceu e estudou.
Vinício Monnerat (VM) – Me formei em arquitetura e urbanismo há 25 anos, tempo que coincide com a idade da Marvin Arquitetura e Engenharia. Atuamos na área de arquitetura residencial, comercial e industrial, planejamento de interiores, consultoria de negócios imobiliários, gerenciamento de obras e planejamentos urbanos.
 
JR – Quando surgiu a empresa Marvin e quais foram os primeiros trabalhos? Atualmente, a Marvin Arquitetura e Engenharia atua em outros municípios? Quais?
VM – Eu e meu então sócio, engenheiro Márcio Balbo Monnerat, iniciamos as atividades informalmente no segundo semestre do ano de 1992. No ano seguinte, formalizamos a empresa.  Atuávamos de forma restrita com elaboração de projetos para obras de pequenos portes, planejamento de interiores e acompanhamento de obras apenas nas cidades de Cordeiro e vizinhas mais próximas. Hoje, além de expandir nossas atividades, atuamos também em várias cidades, inclusive de outros estados.
 
JR – A crise que vem passando o país não tem prejudicado o setor habitacional?
VM – De uma maneira geral, a grande maioria dos setores de produção de bens e serviços está sendo abalada neste momento econômico que o país vive,  e não está sendo diferente na construção civil. Mas é uma ocasião em que os profissionais do setor devem se adaptar à nova realidade, atuando ainda com mais dedicação e criatividade. No caso da construção civil, muitas coisas estão sendo reavaliadas. Os projetos deverão acompanhar as novidades e tendências que não são exclusivamente ditadas pela crise econômica, mas, também, pela harmonização com o meio ambiente e as profissionalizações setoriais. Acredito que sairemos dessa “tempestade” fortalecidos, o que vai favorecer diretamente os clientes, empreendedores e os trabalhadores da construção civil.   
 
JR – Nos últimos anos, temos percebido a construção de muitos prédios nas cidades do interior, principalmente em Cordeiro. Qual sua avaliação sobre isso? 
VM – A preferência por morar em condomínios acontece por motivos de segurança, conforto, praticidade e baixo custo de manutenção em relação a se morar em casa. E, além disso, o fato de estar localizado no Centro “perto de tudo”, perto das lojas, mercados, bancos e padarias. Não precisar de carro, pois as vagas são cada vez mais disputadas, gera uma preferência do morador, tanto da pequena, média como da terceira idade. Acho, contudo, que o empreendedor deve investir em qualidade de vida para o consumidor direto dessas unidades, como também no bem público que vai ser condicionado à população. O planejamento de automatização reflete em baixo custo das taxas de condomínio, segurança e praticidade aos condôminos. E, por fim, alguns critérios como a harmonização com o entorno, acessibilidade e sustentabilidade devem ser considerados na elaboração do projeto com prioridades.

JR – O mercado não ficará saturado, já que a população não tem aumentado muito nos últimos 20 anos? Os futuros proprietários não correm o risco de ficar com imóveis fechados?
VM – A demanda está sendo saturada provisoriamente com as unidades que estão entrando no mercado, mas a opção de pessoas de outras cidades a vir morar e/ou construir empresas em Cordeiro tem sido crescente e, assim, a procura por residências e pontos comerciais tenderá a alimentar a cadeia local da construção civil. E, hoje, em Cordeiro, temos ofertas de unidades residenciais que vem atendendo a população nos diferentes níveis socioeconômicos.
 
JR – De acordo com essa preferência da população, citada acima, por unidades no Centro da cidade, o controle de gabarito e ocupação de terreno estaria de acordo e seria o ideal para o crescimento organizado do município?
VM – Essa é uma questão importantíssima. Hoje, em Cordeiro, infelizmente, não temos regras inteligentes, atualizadas e específicas para esse controle organizado de crescimento urbano. O plano diretor existente não foi elaborado democraticamente e conforme deveria ser, contando com as participações dos três poderes municipais, instituições, entidades organizadas da sociedade e membros das associações de moradores, então não contribui como parâmetro para organizar o crescimento urbano. 
Precisamos de uma revisão na lei de uso e ocupação do solo com urgência, pois o que acontece na nossa cidade é que muitas obras estão sendo construídas de forma clandestina por falta de fiscalização ao projeto aprovado e muitas até mesmo sem o projeto aprovado. Além disso, o limite de gabarito deve ser diminuído e especificado por setor. O mais racional seria a criação de zoneamentos na malha urbana do município e tratar cada setor desses com particularidade, levando em considerações condições geográficas, larguras de vias, tendências de uso (comerciais, residenciais, mistas, industriais corporativas), por exemplo. Assim seria possível planejar o desenvolvimento socioeconômicos da cidade, distinguindo cada região e considerando os gabaritos, taxas de ocupação, separadamente.
 
JR – Percebemos muitas obras de reparos das redes de águas pluviais e esgotos com certa frequência em Cordeiro. A estrutura existente de saneamento na cidade comporta essas novas construções?
VM – Essas obras de reparos pontuais sinalizam um problema grave na redes subterrâneas de águas pluviais e esgoto.
A partir do momento em que a Prefeitura aprova o projeto de uma edificação, ela dá autorização para a construção e lançamento de esgotos sanitários e águas pluviais na sua rede, desta forma se comprometendo com os cuidados desses resíduos a partir do recebimento nessas tubulações. Contudo, essas tubulações não estão mais suportando a demanda e, assim, devemos temer que a cidade entre num colapso num curto espaço de tempo se as redes de águas pluviais e esgoto sanitário não forem reformadas e redimensionadas. Estamos de frente com um risco iminente de saturação dessas instalações atuais, que já apresentam problemas pontuais e ficarão obsoletas se e o ritmo das construções na área concentrada no bairro do Centro da cidade, como é a tendência, continuar.
 
JR – Recentemente, você participou de uma reunião na Prefeitura, com o prefeito Luciano Batatinha e a vice-prefeita Maria Helena, para discutir a questão do desenvolvimento da cidade. Qual sua avaliação sobre o encontro, e o que ficou definido?
VM – Nós, como cidadãos, conhecedores do município, atuantes na economia como geradores de empregos e, principalmente, profissionais especialistas, deveríamos ter a oportunidade de contribuir com ideias para as prefeituras de nossas cidades. Seria uma forma de promover grandes valores para o município. Defendo que essa participação deva existir de forma multidisciplinar e apartidária. No caso de Cordeiro, temos muitos profissionais capacitados que poderiam contribuir em suas áreas de expertises.
 Então, aproveitando esse convite, fui conversar com o prefeito e a vice-prefeita sobre planejamento urbano. Sugeri que na sua gestão ele dê atenção ao combate às ocupações irregulares, coíba as obras irregulares, intensifique as fiscalizações neste sentido, além de priorizar o planejamento, pois o nosso município carece de uma administração que priorize obras a partir de um planejamento. 
O que temos presenciado nas últimas gestões são as ações acontecendo sem amadurecimento. É como se construir uma casa, o ideal é estudar o terreno, os anseios da família, fazer um estudo planejado do projeto através de desenhos e, depois disso, é que se iniciam as obras. Mas muitas pessoas constroem sem planejamento, sem projeto e o que acontece, na maioria das vezes, é que a obra fica mais cara, acontecem demolições que geram desperdícios, adaptações improvisadas na implantação ao terreno, equívocos estéticos.
Enfim, se houvesse um planejamento dentro das normas, a obra ficaria mais barata, mais bonita, mais segura e, assim, atenderia às necessidades pretendidas. Na administração pública municipal, é assim também, porém em maior grandeza. Então, chamei a atenção de Luciano e de Maria Helena para terem esse cuidado de modo que não errem como os seus antecessores nesse sentido e proporcionem um verdadeiro progresso com qualidade.

JR – Você poderia explicar o que são ocupações irregulares e como poderiam ser combatidas?
VM – Em Cordeiro, como outros municípios do interior, acontecem casos graves de ocupação indevida da área pública para o bem privado, como a apropriação das calçadas e até mesmo ruas, impedindo o livre acesso de pedestres normais ou deficientes físicos através de colocação de mesas, cadeiras, expositores, placas de propaganda, toldos com altura mínima superior a dois metros (que é considerada uma invasão do espaço público aéreo). 
Muito curioso o caso de alguns estabelecimentos comerciais construídos e/ou instalados em áreas públicas. Caso explícito de omissão do órgão público competente. É evidente a falta de respeito com a acessibilidade, mesmo no Centro da cidade, que impede o trânsito seguro para os deficientes físicos. Essas infrações devem ser combatidas com obras de adaptação dentro das normas da construção civil e uma fiscalização rigorosa e até mesmo punitiva.
 
JR – Poderia citar uma questão que deveria ter grande relevância nas revisões dos planos diretores e leis de uso e ocupação do solo?
VM – Revitalização urbana. O problema de Cordeiro começa pelo Centro da cidade, que está ficando saturado por instalações obsoletas de esgotamento sanitário e pluviais, pelas ofertas de vagas de automóveis desproporcionais em relação às edificações residenciais e comerciais. Desta forma, alguns prédios públicos deveriam ser remanejados para outros bairros, menos populosos, afim de arejar essa área.  
Nesses espaços, deveriam ser estimuladas as ocupações por edificações com funções atraentes culturalmente (por exemplo) trazendo novidades e adaptando-se a legislação nacional de acessibilidade, gerando vagas de carros comuns e especiais e áreas verdes com propriedades de promover o convívio entre as pessoas de forma harmônica, confortável e sustentável.
Em bairros que possuem certa baixa estima, falta de identidade e muitas vezes são preteridos ou também em regiões com baixa densidade demográfica e potencial geográfico favorável ao crescimento da malha urbana, poderiam receber esses prédios que funcionariam como equipamento urbano, instrumentos de valorização do entorno e criador de uma identidade para o bairro, que, certamente, reagiria de forma positiva socioeconomicamente. Porém, deve haver um planejamento criterioso antes dessas intervenções, obedecendo a uma legislação urbana municipal a ser criada.

JR – Como seria, de fato, a contribuição da Prefeitura nessas ‘reformas urbanas’?
VM – Primeiramente, o crédito deve partir do prefeito em acreditar num investimento desse porte, sem precedentes do nosso município, em política urbana.  E o desenvolvimento socioeconômico com sucesso será obtido com a participação inclusive das secretarias de Educação, Cultura, Esportes, Turismo, Planejamento, Meio Ambiente, Agricultura e Obras. Elas devem estar envolvidas na criação da legislação municipal, juntamente com membros da sociedade organizada, objetivando captar e atender os anseios da comunidade. Somente após esse plano concluído seriam executadas as ações de intervenções urbanas.







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