Professora cobra providências sobre Casa Euclides da Cunha

  • PDF

Mais de um século depois de sua morte, o escritor fluminense, finalmente ganha o reconhecimento da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, que lhe outorgou a Medalha Tiradentes, a mesma que já foi entregue a personalidades como Paulo Freire e Bento XVI.

"Euclides há muito merecia estar dentre os contemplados da mais alta comenda do Estado do Rio, dedicada a pessoas que contribuíram com seu trabalho para a causa pública em domínios fluminenses. Por provocação nossa, do projeto "100 Anos Sem Euclides" (Anélia Pietrani, Luiz Fernando Conde Sangenis e Anabelle Loivos), o professor Waldeck Carneiro sugeriu o acolhimento do processo na Assembleia em 2016, e João Bôsco Cardoso topou agendar a entrega na Câmara de Vereadores de Cantagalo, durante as comemorações dos 160 anos do município", informou a professora Anabelle Loivos.

O mais importante fruto do evento, que contou com a participação da família de Euclides da Cunha, foi a pauta lançada pela professora Anabelle Loivos para a estruturação de políticas públicas de cultura e educação patrimonial na cidade, que teve o imediato acolhimento de dois deputados estaduais presentes - Waldeck Carneiro e Wanderson Nogueira. 

Eis as palavras ditas pela professora Anabelle Loivos Considera durante a solenidade na Câmara Municipal: "Quando as grandes secas de 1879-1880, 1889-1890, 1900-1901 flamejavam sobre os sertões adustos, e as cidades do litoral se enchiam em poucas semanas de uma população adventícia de famintos assombrosos, devorados das febres e das bexigas – a preocupação exclusiva dos poderes públicos consistia no libertá-las quanto antes daquelas invasões de bárbaros moribundos que infestavam o Brasil. Abarrotavam-se, às carreiras, os vapores, com aqueles fardos agitantes consignados à morte. Mandavam-nos para a Amazônia – vastíssima, despovoada, quase ignota – o que equivalia a expatriá-los dentro da própria pátria. A multidão martirizada, perdidos todos os direitos, rotos os laços da família, que se fracionava no tumulto dos embarques acelerados, partia para aquelas bandas levando uma carta de prego para o desconhecido; e ia, com os seus famintos, os seus febrentos e os seus variolosos, em condições de malignar e corromper as localidades mais salubres do mundo. Mas feita a tarefa expurgatória, não se curava mais dela. Cessava a intervenção governamental. Nunca, até aos nossos dias, a acompanhou um só agente oficial, ou um médico. Os banidos levavam a missão dolorosíssima e única de desaparecerem...


E não desapareceram." ("Um clima caluniado", in: À margem da história. cf. CUNHA, 2009, v. 1, p. 159)

Quando acabarem as secas que vieram crestar de imbecilidade e retrocesso o chão do nosso país, da nossa cidade, esperamos encontrar crianças leitoras de Euclides para dizer não a tudo isso. Mas que leitores de Euclides e da poesia que sobrevém às secas estamos preparando, nessa terra de galos, luvas, cafés e concreto?

É tempo de escutar o canto de outros galos. Galos que antes, que com seus cantos de galo fizeram romper a manhã.

Que Euclides deixe de ser busto e cresça arbusto. Que deixe de ser sombra e vire alumbramento. Que permaneça incômodo e palavreiro, fazendo cismar, abrindo caminhos. E que esse Sertão das Novas Minas de Macacu olhe pro seu filho não de soslaio, mas com máximo respeito e apreço.

Pela reabertura imediata da Casa de Euclides da Cunha; pelo tombamento da Casa de Amélia Tomás; pelo acolhimento do Ponto de Cultura "Os serões do seu Euclides" pelas políticas públicas de cultura; pela continuação das obras do Centro de Cultura Amélia Tomás; pela reestruturação da biblioteca Acácio Ferreira Dias e do sistema de bibliotecas públicas nos distritos; pela instituição do Museu do Trem em Euclidelândia. Pela reativação do Pró-memória de Cantagalo.

Euclides vive, apesar dos soterramentos cotidianos de sua memória, na terra mesma que o embalou, rebento doce e eterno. Euclides vive. Está nas páginas escritas a bico de pena e assinadas (sem temer) por esse caboclo, misto de celta, tapuia e grego. Viva Euclides!"



Adicione essa página em sua rede social
Artigos Relacionados:

blog comments powered by Disqus

Área exclusiva - Login

Notícias completas e versão digital exclusivas para assinantes

Informativo JR

Cadastre-se e fique bem informado