{"id":23115,"date":"2021-01-08T10:01:44","date_gmt":"2021-01-08T13:01:44","guid":{"rendered":"https:\/\/jornaldaregiao.com\/ajustes\/?p=23115"},"modified":"2021-01-25T12:31:24","modified_gmt":"2021-01-25T15:31:24","slug":"artigo-pioneiro-por-dr-julio-carvalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornaldaregiao.com\/ajustes\/artigo-pioneiro-por-dr-julio-carvalho\/","title":{"rendered":"Artigo \u2013 Pioneiro por Dr J\u00falio Carvalho"},"content":{"rendered":"<p>Na minha juventude, em nossa regi\u00e3o, as cidades do porte de Cantagalo tinham um ou dois m\u00e9dicos, n\u00e3o havendo laborat\u00f3rios de an\u00e1lises cl\u00ednicas, nem servi\u00e7os de raios-x. Os m\u00e9dicos possu\u00edam conhecimentos apurad\u00edssimos de semiologia e faziam brilhantes e acertados diagn\u00f3sticos, embora os recursos terap\u00eauticos fossem muito limitados.<\/p>\n<p>Os m\u00e9dicos eram venerados pelas popula\u00e7\u00f5es dos seus munic\u00edpios, atuando, tamb\u00e9m, como conselheiros nas horas mais dif\u00edceis das fam\u00edlias, estando presentes desde o nascimento at\u00e9 a \u00faltima despedida. Eram m\u00e9dicos da fam\u00edlia que a medicina, hoje, procura imitar, sem conseguir igualar. Tinham o hist\u00f3rico familiar e pessoal de cada paciente guardados na mente e praticavam a arte de formular medicamentos que, com a industrializa\u00e7\u00e3o farmac\u00eautica, desapareceu.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 50, um jovem m\u00e9dico, de origem su\u00ed\u00e7o-alem\u00e3, retornou para sua terra natal e conseguiu organizar uma equipe hospitalar com mais dois primos e um propriet\u00e1rio de laborat\u00f3rio de an\u00e1lises clinicas, esse de origem su\u00ed\u00e7o-francesa. Era a primeira cidade do nosso interior a ter um hospital com uma equipe m\u00e9dica. A partir dessa \u00e9poca, os casos que necessitavam interna\u00e7\u00e3o hospitalar passaram a ser enviados para aquela cidade pelos m\u00e9dicos de seis munic\u00edpios da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Inicialmente, a Santa Casa era bem simples e localizada defronte ao cemit\u00e9rio municipal, sendo separados pelo leito da ferrovia. Diziam os cr\u00edticos que a localiza\u00e7\u00e3o estava certa, \u201c<em>pois morriam tantos pacientes que, para sepult\u00e1-los, bastava atravessar a ferrovia<\/em>\u201d. As Vicentinas se empenhavam de corpo e alma para manter tudo em ordem e da melhor forma poss\u00edvel.<\/p>\n<p>O jovem m\u00e9dico liderou um movimento para constru\u00e7\u00e3o de um novo hospital, o que foi realizado no centro da cidade com inteligente projeto arquitet\u00f4nico aproveitando o aclive da via p\u00fablica.<\/p>\n<p>No in\u00edcio, esse m\u00e9dico era respons\u00e1vel pela cirurgia, obstetr\u00edcia e traumatologia, mas, com o tempo e sentindo a car\u00eancia de um otorrinolaringologista na regi\u00e3o, foi a S\u00e3o Paulo, onde fez um curso nessa especialidade passando a realizar cirurgias de nariz e garganta, as de menores portes.<\/p>\n<p>Em 1963, quando estava como assistente da 2\u00aa Cl. Cir\u00fargica do H.U. Pedro Ernesto, encontrei-me com esse colega num dos corredores do 4\u00ba andar e ele me disse: \u201c<em>estou fazendo um est\u00e1gio de cirurgia vascular com o Prof. Medina<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Em 1966, quando eu j\u00e1 havia retornado para Cantagalo, uma noite, ele ligou me convidando-me para fazer um curso de radiologia na cidade do Rio de Janeiro, tr\u00eas vezes por semana. Agradeci e n\u00e3o aceitei o desafio. Ele, mais velho do que eu, frequentou o curso, recebendo o t\u00edtulo de radiologista, exercendo essa especialidade at\u00e9 o final da sua vida.<\/p>\n<p>Foi Membro Titular da Academia Fluminense de Medicina, mas nunca me revelou esse aspecto, s\u00f3 fui saber em uma reuni\u00e3o em Nova Friburgo, em agosto de 2007. N\u00e3o gostava de autopromo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Devem estar pensando: um m\u00e9dico com tanta atividade deve ter ficado milion\u00e1rio. Puro engano, levou uma vida simples, trabalhando muito, torcendo pelo Fluminense F.C. e praticando equita\u00e7\u00e3o, pois admirava cavalos manga largas. Foi um est\u00f3ico!<\/p>\n<p>Quando soube que ele estava muito mal, solicitei \u00e0 fam\u00edlia licen\u00e7a para visit\u00e1-lo. Fui pensando o que falaria com ele pois, mais velho e com mais conhecimentos m\u00e9dicos do que eu, n\u00e3o conseguiria engan\u00e1-lo com falsas palavras.<\/p>\n<p>Ao entrar no seu quarto, ele sorriu discretamente e disse para mim: \u201c<em>J\u00falio, n\u00f3s nascemos, crescemos e desaparecemos, eu estou na terceira fase da vida<\/em>\u201d. Concordei e ficamos em sil\u00eancio. Eu pensando, quanto coisa de extraordin\u00e1rio aquele colega havia realizado para a popula\u00e7\u00e3o de nossa regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Pouco depois disse-lhe: \u201c<em>vou embora, pois n\u00e3o quero cans\u00e1-lo<\/em>\u201d. Ele voltou a sorrir e disse \u00e0 esposa: \u201c<em>ele \u00e9 igual ao pai<\/em>\u201d. Foi o nosso \u00faltimo encontro.<\/p>\n<p>No dia 22 de janeiro de 2015, encontrava-me no final da estrada de S\u00e3o Martinho, quando fui avisado do seu falecimento. Meu esp\u00edrito entristeceu, mas tive a certeza de que sua alma ouviu aquela voz suave e doce: \u201c<em>Vinde, bendito de meu Pai, tomai posse do Reino que est\u00e1 preparado desde a cria\u00e7\u00e3o do mundo, porque quando estava doente me visitastes<\/em>\u201d (Mt 25, 34-36).<\/p>\n<p>Esse colega era conhecido como Dr. Celso Erthal, paradigma a ser seguido por todos os profissionais da \u00e1rea da sa\u00fade. Minha homenagem no sexto ano do seu falecimento.<\/p>\n<p><em>J\u00falio Marcos Carvalho \u00e9 m\u00e9dico e j\u00e1 foi vereador do munic\u00edpio de Cantagalo.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na minha juventude, em nossa regi\u00e3o, as cidades do porte de Cantagalo tinham um ou dois m\u00e9dicos, n\u00e3o havendo laborat\u00f3rios de an\u00e1lises cl\u00ednicas, nem servi\u00e7os de raios-x. Os m\u00e9dicos possu\u00edam conhecimentos apurad\u00edssimos de semiologia e faziam brilhantes e acertados diagn\u00f3sticos, embora os recursos terap\u00eauticos fossem muito limitados. 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