{"id":4344,"date":"2014-05-08T20:33:25","date_gmt":"2014-05-08T23:33:25","guid":{"rendered":"http:\/\/playartedesign.com\/jornaldaregiao\/2014\/05\/08\/muito-alem-de-um-jardim\/"},"modified":"2014-05-08T20:33:25","modified_gmt":"2014-05-08T23:33:25","slug":"muito-alem-de-um-jardim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornaldaregiao.com\/ajustes\/muito-alem-de-um-jardim\/","title":{"rendered":"Muito al\u00e9m de um jardim"},"content":{"rendered":"<p>O valoroso patrim\u00f4nio arquitet\u00f4nico do nosso munic\u00edpio, composto por in\u00fameras edifica\u00e7\u00f5es consagradas pela sua ineg\u00e1vel import\u00e2ncia hist\u00f3rica, possibilita a quem os usufrui, observa e estuda, uma experi\u00eancia concreta de evoca\u00e7\u00e3o ao passado. Sendo, portanto, da maior import\u00e2ncia preserv\u00e1-lo, para que cumpra a fun\u00e7\u00e3o de transmitir \u00e0s gera\u00e7\u00f5es presentes e futuras a mem\u00f3ria das suas respectivas \u00e9pocas, conectando os mun\u00edcipes \u00e0 forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de Cantagalo e regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, nas \u00faltimas d\u00e9cadas da nossa j\u00e1 bicenten\u00e1ria hist\u00f3ria, constata-se, por vezes, o \u00edmpeto com o qual as gest\u00f5es municipais dedicaram-se, imbu\u00eddas de uma f\u00e9 reformadora e ansiosas em deixarem suas marcas indel\u00e9veis nos destinos da coletividade, \u00e0 malfadada agenda de descaracteriza\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio cultural do povo cantagalense. Justificadas por argumentos \u201cmodernizantes\u201d, as a\u00e7\u00f5es p\u00fablicas se desdobram, gerando, quase sempre, um saldo de impactos negativos ao precioso legado dos nossos antepassados.<\/p>\n<p>No entanto, em se tratando de um bem patrimonial central (no sentido de sua localiza\u00e7\u00e3o f\u00edsica dentro da cidade e em termos simb\u00f3licos) como o jardim da Pra\u00e7a Jo\u00e3o XXIII, o nosso \u201cJardim do Bar\u00e3o\u201d (ver artigo publicado na edi\u00e7\u00e3o no 1.270 do JR), sabiamente o legislador municipal assentou em v\u00e1rios diplomas legais, s\u00f3lidos pilares normativos, com o objetivo de regular futuras interven\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A Lei Org\u00e2nica de Cantagalo, em sua inequ\u00edvoca e incisiva abordagem sobre a salvaguarda do patrim\u00f4nio cultural do munic\u00edpio, determina, no artigo 277, inciso X, que cabe ao Poder P\u00fablico a \u201cpreserva\u00e7\u00e3o, conserva\u00e7\u00e3o e recupera\u00e7\u00e3o de bens nas cidades e s\u00edtios considerados instrumentos hist\u00f3ricos e arquitet\u00f4nicos\u201d. Como tamb\u00e9m em seu artigo 279, par\u00e1grafo 2\u00ba, assinala que: \u201cOs danos e amea\u00e7as ao patrim\u00f4nio cultural ser\u00e3o punidos na forma da lei.\u201d<\/p>\n<p>J\u00e1 a Lei Complementar n\u00b0 01\/2006, que colocou em vigor o Plano Diretor de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel do Munic\u00edpio (diploma legal gerado a partir de relevante discuss\u00e3o democr\u00e1tica envolvendo in\u00fameros setores da sociedade cantagalense e os poderes Legislativo e Executivo), trata especificamente do logradouro em quest\u00e3o, e o elege \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de \u00e1rea central da \u201cZona de Preserva\u00e7\u00e3o Cultural e Hist\u00f3rica\u201d, por compor o n\u00facleo original da cidade de Cantagalo, como tamb\u00e9m por seu ineg\u00e1vel e inestim\u00e1vel valor hist\u00f3rico, cultural e ambiental; cabendo, ent\u00e3o, ao Executivo, assegurar a manuten\u00e7\u00e3o de suas caracter\u00edsticas urban\u00edsticas e arquitet\u00f4nicas.<\/p>\n<p>Distanciando-se um pouco da seara legal e colocando em evid\u00eancia a perspectiva dos memorialistas e pesquisadores que cultuam a hist\u00f3ria do munic\u00edpio, h\u00e1 fortes evid\u00eancias no sentido de que o espa\u00e7o p\u00fablico objeto deste artigo tenha sido projetado por Auguste Fran\u00e7ois Marie Glaziou, extraordin\u00e1rio paisagista do Segundo Imp\u00e9rio, respons\u00e1vel, entre outras realiza\u00e7\u00f5es, pelas reformas do Passeio P\u00fablico e do Campo de Santana, no Rio de Janeiro; pela cria\u00e7\u00e3o dos jardins da Quinta da Boa Vista, ainda na capital; dos jardins do Museu Imperial, em Petr\u00f3polis, e do Parque S\u00e3o Clemente, em Nova Friburgo.<\/p>\n<p>Na vis\u00e3o dos especialistas em patrim\u00f4nio hist\u00f3rico, o nosso jardim \u00e9 um bem arquitet\u00f4nico e paisag\u00edstico de aproximadamente 150 anos de exist\u00eancia, que assumiu a sua fei\u00e7\u00e3o primordial sob as ordens do 2\u00ba Bar\u00e3o de Cantagalo, e que possui uma unidade est\u00e9tica caracter\u00edstica, onde se destacam sinuosas alamedas, definidas por canteiros que conformam o per\u00edmetro de um quadril\u00e1tero no qual em dois dos seus lados assentam-se frondosas \u00e1rvores frut\u00edferas e nos outros h\u00e1 o dom\u00ednio das madeiras-de-lei, tendo a express\u00e3o de palmeiras imperiais ao centro; tratando-se, inequivocamente, de um jardim hist\u00f3rico nos moldes da escola paisag\u00edstica de Glaziou e, enquanto tal, \u00e0 luz da \u201cCarta de Juiz de Fora\u201d ou \u201cCarta dos Jardins Hist\u00f3ricos Brasileiros\u201d, firmada em 7 de outubro de 2010, deve ser entendido como \u201cmonumento\u201d.<\/p>\n<p>Cabe ressaltar, tamb\u00e9m, que o jardim da Pra\u00e7a Jo\u00e3o XXIII abriga o \u00fanico bem tombado pelo Inepac (Instituto Estadual do Patrim\u00f4nio Art\u00edstico e Cultural) no munic\u00edpio, qual seja: o harmonioso conjunto arquitet\u00f4nico composto pelo coreto e o pequeno lago ao seu redor, que os mun\u00edcipes denominam carinhosamente como \u201cRepuxo\u201d.<\/p>\n<p>Assim sendo, a partir do ponto de vista de in\u00fameros estudiosos, e \u00e0 luz da lei e do bom senso, \u00e9 de fundamental import\u00e2ncia que o jardim da Pra\u00e7a Jo\u00e3o XXIII seja preservado em sua integridade arquitet\u00f4nica e em seu projeto paisag\u00edstico original. As futuras gera\u00e7\u00f5es n\u00e3o nos perdoar\u00e3o se submetermos esse precioso logradouro a qualquer esp\u00e9cie de modifica\u00e7\u00e3o que se afaste do prop\u00f3sito de realizar uma restaura\u00e7\u00e3o criteriosa e necess\u00e1ria. Como afirmava o grande e saudoso soci\u00f3logo Herbert de Souza, o Betinho: \u201caquilo que recebemos dos nossos antepassados apenas tomamos de empr\u00e9stimos \u00e0s gera\u00e7\u00f5es futuras\u201d.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><i><b><u>*Jo\u00e3o B\u00f4sco de Paula Bon Cardoso <\/u>\u00e9 professor de sociologia e geografia, coordenador de Patrim\u00f4nio Cultural do Projeto Fazenda S\u00e3o Clemente e um dos coordenadores do Centro de Mem\u00f3ria, Pesquisa e Documenta\u00e7\u00e3o de Cantagalo.<\/b><\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O valoroso patrim\u00f4nio arquitet\u00f4nico do nosso munic\u00edpio, composto por in\u00fameras edifica\u00e7\u00f5es consagradas pela sua ineg\u00e1vel import\u00e2ncia hist\u00f3rica, possibilita a quem os usufrui, observa e estuda, uma experi\u00eancia concreta de evoca\u00e7\u00e3o ao passado. 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