{"id":4545,"date":"2014-06-18T17:44:35","date_gmt":"2014-06-18T20:44:35","guid":{"rendered":"http:\/\/playartedesign.com\/jornaldaregiao\/2014\/06\/18\/passeio-publico\/"},"modified":"2014-06-18T17:44:35","modified_gmt":"2014-06-18T20:44:35","slug":"passeio-publico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornaldaregiao.com\/ajustes\/passeio-publico\/","title":{"rendered":"Passeio p\u00fablico"},"content":{"rendered":"<p>No centro das minhas aten\u00e7\u00f5es, sempre est\u00e1 o Centro de Cantagalo. Caminho por ele e, em meio aos acenos e cumprimentos verbais \u2013 um dos prazeres da vida no interior \u2013, observo os detalhes, a movimenta\u00e7\u00e3o geral e as mudan\u00e7as. Mais uma faixa de pedestres aqui, outra cal\u00e7ada revestida com as ondas da praia de Copacabana ali, menos uma casa antiga acol\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>Quando constatei o milagre da multiplica\u00e7\u00e3o das faixas de pedestres, lembrei-me da instala\u00e7\u00e3o delas em Bras\u00edlia. Na \u00e9poca, o governo do Distrito Federal contratou artistas de rua para oferecer flores aos motoristas que as respeitassem, realizando um necess\u00e1rio trabalho pedag\u00f3gico. Sem isso, o efeito das faixas \u00e9, muita das vezes, ornamental. Acho, tamb\u00e9m, que alguns condutores n\u00e3o as respeitam temendo que motoristas desavisados colidam nas traseiras dos seus ve\u00edculos.<\/p>\n<p>Coloco-me na extremidade de uma delas e nada acontece, o tr\u00e2nsito flui \u201cnormalmente\u201d. Espero a minha vez de atravessar a Avenida Bar\u00e3o de Cantagalo, quando o fluxo de autom\u00f3veis cessa. Cruzando a Pra\u00e7a da Matriz, recentemente modificada, o que me prende a aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o os \u201ccoqueiros\u201d acondicionados em avantajados vasos, e sim o enorme painel que retrata a fachada do finado Solar dos Ventura. Lembro-me que quando o im\u00f3vel hist\u00f3rico estava para ruir, reunimos, sob a lideran\u00e7a do ent\u00e3o vereador Henrique Bon, centenas de assinaturas, em v\u00e3o, pela n\u00e3o derrubada. Bel\u00edssimo painel! Agora, o desafio \u00e9 que a prometida reconstru\u00e7\u00e3o da fachada fique \u00e0 altura da qualidade da reprodu\u00e7\u00e3o em outdoor.<\/p>\n<p>\u201cVolto ao jardim, com a certeza que devo chorar\u201d&#8230; Ao adentrar o nosso \u201cmais belo cart\u00e3o postal\u201d, atravessando o p\u00f3rtico que ladeia o F\u00f3rum, n\u00e3o h\u00e1 tema musical mais apropriado; e passo a cantarolar o cl\u00e1ssico de Cartola.<\/p>\n<p>Aproximo-me, sem pressa, da \u201ccasinha de Papai Noel\u201d, onde, em pleno m\u00eas de junho, por sobre a porta envidra\u00e7ada, descansa, meio t\u00edmida, pois deslocada no tempo, uma guirlanda saudosa do Natal. Ano ap\u00f3s ano, esta pequena habita\u00e7\u00e3o fica a figurar destoante \u00e0 espera do inquilino que s\u00f3 chega para sua curta temporada de dezembro.<\/p>\n<p>Sempre gosto de atualizar as minhas retinas em rela\u00e7\u00e3o ao coreto, n\u00e3o me canso de admir\u00e1-lo, mesmo na fase de pen\u00faria em que se encontra. Desde o fundo da inf\u00e2ncia, ele sempre teve em mim um companheiro, na alegria e na tristeza. Deslizando olhar nos seus detalhes, contraponho-os \u00e0s imagens de fotos antigas que tenho gravadas na mem\u00f3ria, e constato, n\u00e3o sem uma pontada de pesar, o empobrecimento de suas caracter\u00edsticas originais. Por conta de restaura\u00e7\u00f5es pouco criteriosas, a antiga sofistica\u00e7\u00e3o da cobertura de zinco, dos vitrais e do candelabro desapareceram. A imita\u00e7\u00e3o de galhos retorcidos da sua estrutura encontra-se avariada; os pequenos animais retratados nela, por conta de pintura descuidada, transformaram-se em caricaturas do que antes eram; e o piso hidr\u00e1ulico se apresenta como tendo sofrido abalos s\u00edsmicos.<\/p>\n<p>Al\u00e7o o patamar superior do coreto, galgando pausadamente a escada de m\u00e1rmore encardido. Meu campo de vis\u00e3o lentamente se amplia. Agora, tenho um olhar panor\u00e2mico de alguns canteiros onde impera a confus\u00e3o de arbustos e arvoredos, em competi\u00e7\u00e3o por uma r\u00e9stia de sol. Por d\u00e9cadas, o plantio desordenado ofusca o projeto paisag\u00edstico original. Mas me alivia notar que, apesar disso, as caracter\u00edsticas mais marcantes da escola do bom e velho Auguste Fran\u00e7ois Marie Glaziou continuam resistindo, j\u00e1 que, felizmente, at\u00e9 hoje, o tra\u00e7ado sinuoso dos canteiros e alamedas continua intacto, e a ideia primordial da disposi\u00e7\u00e3o das massas vegetais de maior porte ainda se pronuncia, apesar dos plantios aleat\u00f3rios, comemorativos e festivos de in\u00fameras esp\u00e9cies sem nada se considerar em termos de gest\u00e3o e, apesar tamb\u00e9m do recente corte da mangueira secular (talvez por justific\u00e1veis motivos de seguran\u00e7a dos transeuntes), reduzindo seu largo tronco a uma melanc\u00f3lica mesa, a servir nada a comensal algum. Como consequ\u00eancia desse ato, a pr\u00f3xima esp\u00e9cie a perecer por ali talvez seja a tradicional grama pelo de urso, que viceja adaptada ao sombreamento.<\/p>\n<p>Ao apoiar meu antebra\u00e7o no guarda-corpo lateral, mergulho o olhar nas \u00e1guas lodacentas do repuxo, onde nadam, meio claudicantes, alguns peixes acometidos por estranhas muta\u00e7\u00f5es; alivia-me notar que os mais afetados pelo mal, como um branquinho que desenvolveu uma corcova e assustava as crian\u00e7as na tentativa frustrada de equilibrar-se no nado, foram retirados.<\/p>\n<p>Despe\u00e7o-me momentaneamente do jardim, caminhando em dire\u00e7\u00e3o ao p\u00f3rtico em frente ao Banco do Brasil.&nbsp;<\/p>\n<p>A vis\u00e3o de outro tipo de banco, os de sentar, do Senadinho, na indecis\u00e3o de se reconhecerem como brancos ou alaranjados, fica impressa nas minhas retinas j\u00e1 fatigadas. Uma manilha de borda torta e torneira improvisada fazem \u00e0s vezes de tanque. A for\u00e7a das ra\u00edzes soergue, inclina e desalinha a mureta lateral. Apertando o passo, cruzo a Avenida Leontino Felippe Richa por sobre os paralelep\u00edpedos sepultados pelo asfalto. De s\u00fabito, toca na minha cabe\u00e7a o \u00faltimo trecho de \u2018As rosas n\u00e3o falam\u2019: \u201cDevias vir para ver os meus olhos tristonhos, e quem sabe sonhavas meus sonhos, por fim\u201d.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p><b><i>*Jo\u00e3o B\u00f4sco de Paula Bon Cardoso \u00e9 professor de sociologia e geografia, coordenador de Patrim\u00f4nio Cultural do Projeto Fazenda S\u00e3o Clemente e um dos coordenadores do Centro de Mem\u00f3ria, Pesquisa e Documenta\u00e7\u00e3o de Cantagalo.<\/i><\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No centro das minhas aten\u00e7\u00f5es, sempre est\u00e1 o Centro de Cantagalo. 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