{"id":4704,"date":"2014-07-30T17:32:29","date_gmt":"2014-07-30T20:32:29","guid":{"rendered":"http:\/\/playartedesign.com\/jornaldaregiao\/2014\/07\/30\/obsessoes-religioes-e-jardins\/"},"modified":"2014-07-30T17:32:29","modified_gmt":"2014-07-30T20:32:29","slug":"obsessoes-religioes-e-jardins","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornaldaregiao.com\/ajustes\/obsessoes-religioes-e-jardins\/","title":{"rendered":"Obsess\u00f5es, religi\u00f5es e jardins"},"content":{"rendered":"<p>Devo admitir, publicamente, que sou portador de algumas incur\u00e1veis obsess\u00f5es. Uma delas j\u00e1 atravessa quatro d\u00e9cadas da minha exist\u00eancia, portanto cultivo-a desde que me entendo por gente: os jardins e, em especial, o Jardim de Cantagalo.<\/p>\n<p>Os portadores de obsess\u00f5es s\u00e3o sempre compelidos a alegarem algo que justifique tais estados psicol\u00f3gicos. Aqui n\u00e3o vai ser diferente. Em minha defesa, posso arguir o fato inquestion\u00e1vel dos jardins serem entidades m\u00edticas primordiais, arqu\u00e9tipos onipresentes no caminhar da humanidade pelo tempo. Algumas das maiores religi\u00f5es monote\u00edstas, como o Juda\u00edsmo e o Catolicismo, os traduzem como a vis\u00e3o do Para\u00edso, ou a paisagem primeira que foi presenteada por Deus ao ser humano para que este a cuidasse e a cultivasse. Vem da\u00ed uma ideia que acalento no fundo da minha alma, tamb\u00e9m obsessivamente: o mundo deve ser \u201cjardinizado\u201d e todos os jardins rigorosamente preservados, para o deleite das gera\u00e7\u00f5es presentes e futuras.<\/p>\n<p>Esses buc\u00f3licos espa\u00e7os de conviv\u00eancia sempre chamam os homens e mulheres de boa vontade, que se disp\u00f5em a aquietar-se em suas sombras, \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o e, por que n\u00e3o dizer, \u00e0 medita\u00e7\u00e3o. Uma importante tradi\u00e7\u00e3o religiosa oriental nos conta que Sidharta Gautama, o Buda, atingiu a ilumina\u00e7\u00e3o meditando sob uma \u00e1rvore sagrada. J\u00e1 a filosofia religiosa Zen assinala que, ao encontrarmos a beleza no mundo natural, a encontraremos tamb\u00e9m em n\u00f3s mesmos. Portanto, os jardins s\u00e3o, ou deveriam ser, ambientes nos quais a natureza reorganizada pelas m\u00e3os humanas serve \u00e0 frui\u00e7\u00e3o serena, contemplativa e meditativa do belo, para que, a partir dessa experi\u00eancia est\u00e9tica, possamos aquietar a alma e at\u00e9 mesmo, por que n\u00e3o dizer, al\u00e7ar patamares mais elevados da exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Os jardins s\u00e3o altamente terap\u00eauticos. Neles, o bater do cora\u00e7\u00e3o segue a suave cad\u00eancia do rodopio das folhas, ao bailarem no ar, ao sabor da brisa. A conviv\u00eancia se acalma e se entrega \u00e0quilo que, na pressa do dia a dia, n\u00e3o habita nossas retinas, nem det\u00e9m nossa aten\u00e7\u00e3o: o operoso trabalho das formigas, o delicado deslizar de peixinhos no espelho d\u2019\u00e1gua, o majestoso voo dos sabi\u00e1s, o sopro do vento embalando a folhagem&#8230;<\/p>\n<p>Locais libertos da insistente presen\u00e7a dessas clausuras ambulantes de metal e vidro \u2013 os autom\u00f3veis; os trajetos dos jardins s\u00e3o projetados n\u00e3o para o tr\u00e2nsito desenfreado e cada vez mais intenso e ca\u00f3tico desses objetos luzidios emissores de g\u00e1s carb\u00f4nico, mas para o andar a p\u00e9 e o calmo vislumbre de \u00e1rvores, lagos e p\u00e1ssaros. Locais onde as faixas de pedestres, que mant\u00e9m frequente presen\u00e7a no passeio p\u00fablico, mostram-se completamente dispens\u00e1veis, j\u00e1 que suas alamedas s\u00e3o de dom\u00ednio exclusivo dos caminhantes.<\/p>\n<p>No mundo atual em que a satisfa\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre atrelada ao consumo, em que a ordem \u00e9 trabalhar mais, para amealhar mais e consumir ainda mais, os jardins s\u00e3o revolucion\u00e1rios, pois proclamam o nada fazer, o lazer e proveito gratuitos; conclamando a todos, prolet\u00e1rios e patr\u00f5es, \u00e0 comunh\u00e3o em torno de uma proposta libert\u00e1ria de conviv\u00eancia harmoniosa e descompromissada, na qual tempo n\u00e3o \u00e9 dinheiro e sim algo que se deixa escorrer pelas m\u00e3os, pregui\u00e7osamente e sem culpa.<\/p>\n<p>Um jardim \u00e9, sobretudo, o reino das crian\u00e7as. Local onde os pequenos conquistam finalmente a liberdade do correr sem rumo, do brindar com terra, do sujar a roupa de lama, sem o olhar quase sempre desabonador das zelosas autoridades materna e paterna.&nbsp;<\/p>\n<p>Por fim, no meu caso particular, um jardim \u00e9 um convite a voltar a ser crian\u00e7a, pois todos os signos da inf\u00e2ncia h\u00e1 muito vivida, mas nunca esquecida, est\u00e3o l\u00e1: as \u00e1rvores e os frutos, os insetos e os p\u00e1ssaros, os brinquedos, as brincadeiras, a ing\u00eanua alegria transbordante&#8230; Sentado no banco ao lado do coreto, embalado pelo cont\u00ednuo gotejar da \u00e1gua que escorre languidamente do \u201ctoco\u201d, no momento em que uma r\u00e9stia de sol ofusca a vis\u00e3o, num lampejo, \u00e0s vezes \u201cvejo\u201d uma charretinha puxada a bode cruzando as alamedas do Jardim de Cantagalo. Dentro dela h\u00e1 um menino de quatro anos, pleno de satisfa\u00e7\u00e3o, sob o olhar cuidadoso do seu av\u00f4 Ant\u00f4nio. \u00c0s vezes.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><i><b><u>*Jo\u00e3o B\u00f4sco de Paula Bon Cardoso<\/u><\/b> \u00e9 professor de sociologia e geografia, coordenador de Patrim\u00f4nio Cultural do Projeto Fazenda S\u00e3o Clemente e um dos coordenadores do Centro de Mem\u00f3ria, Pesquisa e Documenta\u00e7\u00e3o de Cantagalo.<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Devo admitir, publicamente, que sou portador de algumas incur\u00e1veis obsess\u00f5es. Uma delas j\u00e1 atravessa quatro d\u00e9cadas da minha exist\u00eancia, portanto cultivo-a desde que me entendo por gente: os jardins e, em especial, o Jardim de Cantagalo. Os portadores de obsess\u00f5es s\u00e3o sempre compelidos a alegarem algo que justifique tais estados psicol\u00f3gicos. 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