{"id":5188,"date":"2014-11-06T16:15:24","date_gmt":"2014-11-06T18:15:24","guid":{"rendered":"http:\/\/playartedesign.com\/jornaldaregiao\/2014\/11\/06\/meu-caminho-e-de-pedra\/"},"modified":"2014-11-06T16:15:24","modified_gmt":"2014-11-06T18:15:24","slug":"meu-caminho-e-de-pedra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornaldaregiao.com\/ajustes\/meu-caminho-e-de-pedra\/","title":{"rendered":"\u201cMeu caminho \u00e9 de pedra\u201d"},"content":{"rendered":"<p>No segundo semestre do ano em que se comemora o bicenten\u00e1rio de emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-administrativa de Cantagalo, as m\u00e1quinas de pavimenta\u00e7\u00e3o voltaram ao Centro da cidade e, com o seu quente bafejar, despejaram, sobre os poucos paralelep\u00edpedos que ainda restam, mais metros c\u00fabicos do material que se tornou um dos principais s\u00edmbolos do \u201cprogresso\u201d: o asfalto. O futuro chegou, caros mun\u00edcipes, j\u00e1 o temos \u00e0 nossa porta!<\/p>\n<p>Como sofro de mania de hist\u00f3ria, vou puxar o fio do tempo para contextualizar a recente febre de asfalto em terras cantagalenses. Mas, antes, um par\u00eantese. Engana-se quem imagina que o estudo da hist\u00f3ria permita apenas que se lance o olhar em dire\u00e7\u00e3o ao passado, tendo o historiador que grudar as retinas, irremediavelmente, nos vest\u00edgios daquilo que, em sua plenitude, j\u00e1 se foi, ficando a revirar as sobras dos tempos idos. O profissional da \u00e1rea, ou mesmo um historiador domingueiro (diletante), como eu, n\u00e3o \u00e9 um balconista de antiqu\u00e1rio. A hist\u00f3ria ensina, sobretudo, a pensar em perspectiva, indo al\u00e9m do que \u00e9 observado de imediato, projetando as a\u00e7\u00f5es humanas no tempo. Ao avaliar como o passado chegou at\u00e9 o presente, o conhecimento hist\u00f3rico propicia uma necess\u00e1ria reflex\u00e3o sobre os rumos que as coisas tomaram, oportunizando, tamb\u00e9m, o imprescind\u00edvel (e muitas vezes negligenciado) trabalho de arquitetar o futuro.<\/p>\n<p>Pois bem, posto isso, vamos ao nosso intento.<\/p>\n<p>Promovendo um recuo \u00e0 pen\u00faltima d\u00e9cada do s\u00e9culo XVIII, vemos um pequeno arraial come\u00e7ando a expandir-se ao redor de uma edifica\u00e7\u00e3o central: a Igreja do Sant\u00edssimo Sacramento. A par\u00f3quia, institui\u00e7\u00e3o primal, passa a estabelecer par\u00e2metros societ\u00e1rios para os colonos que para c\u00e1 acorreram. Ao redor do templo cat\u00f3lico, poucas ruas de terra batida comp\u00f5em o cen\u00e1rio de uma incipiente malha urbana.<\/p>\n<p>Um pouco mais de meio s\u00e9culo se passou e, na d\u00e9cada de 1860, o bar\u00e3o su\u00ed\u00e7o Jo\u00e3o Tiago Tschudi, em visita a ent\u00e3o \u201ccidade\u201d de Cantagalo (j\u00e1 que, em 2 de outubro de 1857, a sede da antiga vila \u00e9 al\u00e7ada a essa condi\u00e7\u00e3o), assinala que a urbis contava, na \u00e9poca, com 1,5 mil habitantes e 120 casas. Um pequeno n\u00facleo urbano cercado por \u201cuma paisagem muito bem cultivada, com numerosos cafezais\u201d.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada seguinte, o auge da produ\u00e7\u00e3o cafeeira entroniza Cantagalo como um dos maiores centros produtores da rubi\u00e1cea do Brasil, a malha urbana se expande e, como nos informa o grande pesquisador Cl\u00e9lio Erthal, as duas principais vias da cidade recebem cal\u00e7amento: a Rua Sant\u2019Ana (hoje Avenida Bar\u00e3o de Cantagalo) e a Rua Direita (atual Chapot Pr\u00e9vost). Essas benfeitorias ocorreram por ocasi\u00e3o da gest\u00e3o do 2\u00ba Bar\u00e3o de Cantagalo, Augusto de Souza Brand\u00e3o, \u00e0 frente da C\u00e2mara Municipal, institui\u00e7\u00e3o essa que, ent\u00e3o, assumia, tamb\u00e9m, fun\u00e7\u00f5es executivas.<\/p>\n<p>Naqueles tempos, era frequente a utiliza\u00e7\u00e3o de pedras irregulares denominadas \u201cp\u00e9s de moleque\u201d na pavimenta\u00e7\u00e3o das ruas, por\u00e9m, pouco a pouco, estas foram sendo substitu\u00eddas por outro tipo de revestimento l\u00edtico. \u00c9 interessante observar que o cal\u00e7amento tipo \u201cp\u00e9 de moleque\u201d foi mantido em v\u00e1rios logradouros de cidades que, hoje, s\u00e3o reconhecidas como tendo grande valor hist\u00f3rico e patrimonial, tais como Paraty e Ouro Preto. Por\u00e9m, em Cantagalo, os caminhos de pedras irregulares, h\u00e1 d\u00e9cadas, cederam lugar aos paralelep\u00edpedos, que, por terem maior regularidade em suas formas, proporcionaram mais comodidade no tr\u00e1fego e maior efici\u00eancia no escoamento das \u00e1guas pluviais.<\/p>\n<p>Mas, nas \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, a princ\u00edpio de forma t\u00edmida e vacilante, um outro tipo de pavimenta\u00e7\u00e3o foi avan\u00e7ando sobre os tradicionais paralelep\u00edpedos, tendo, nos \u00faltimos anos, al\u00e7ado \u00edmpeto e f\u00f4lego, tornando-se uma febre \u2013 a febre do asfalto. O revestimento asf\u00e1ltico, ao sepultar as ruas de pedras, n\u00e3o somente apagou uma das caracter\u00edsticas hist\u00f3ricas mais marcantes da cidade, como tem protagonizado in\u00fameros problemas&#8230; alguns est\u00e3o sendo vivenciados de imediato pela popula\u00e7\u00e3o, outros aguardam um futuro pr\u00f3ximo, quando mostrar\u00e3o sua face nefasta.<\/p>\n<p>A cobertura asf\u00e1ltica, por ser mais c\u00f4moda para a rodagem dos autom\u00f3veis e motocicletas, faz com que a velocidade dos ve\u00edculos aumente consideravelmente, necessitando de mais quebra-molas para cont\u00ea-la. Tal comodidade cobra, tamb\u00e9m, alto pre\u00e7o em termos de aquecimento dos ambientes, pois as superf\u00edcies revestidas com asfalto absorvem 98% da radia\u00e7\u00e3o solar que recebem, intensificando um fen\u00f4meno, antes t\u00edpico das grandes cidades, que, agora, estamos a desfrutar nas ruas do Centro: a \u201cilha de calor\u201d.<\/p>\n<p>A cada problema na rede pluvial (que, diga-se de passagem, n\u00e3o foi redimensionada para receber tal tipo de pavimenta\u00e7\u00e3o), na rede de esgoto (que em determinadas ruas \u00e9 centen\u00e1ria), ou mesmo no sistema de abastecimento de \u00e1gua, remendos s\u00e3o produzidos no asfalto. Com a sucess\u00e3o desses necess\u00e1rios procedimentos de manuten\u00e7\u00e3o, seremos brindados, para o desfrute dos mun\u00edcipes e visitantes, com um piso repleto de recortes, que mais parecer\u00e1 uma colcha de retalhos.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio ressaltar tamb\u00e9m que a eleva\u00e7\u00e3o das ruas, em fun\u00e7\u00e3o da deposi\u00e7\u00e3o da camada asf\u00e1ltica, gera rebaixos, j\u00e1 que as tampas met\u00e1licas e os bueiros n\u00e3o s\u00e3o soerguidos em tempo h\u00e1bil, e transformam-se em perigosas armadilhas aos pedestres, ciclistas e motociclistas desavisados. Sem contar que a eleva\u00e7\u00e3o do piso, acrescida \u00e0 impermeabilidade caracter\u00edstica do material origin\u00e1rio do petr\u00f3leo, faz com que o risco de enchentes torne-se maior, exatamente numa \u00e9poca em que os fen\u00f4menos clim\u00e1ticos est\u00e3o se intensificando, tornando as chuvas mais devastadoras.<\/p>\n<p>Caros leitores, o arrazoado dos \u00faltimos par\u00e1grafos contempla apenas as consequ\u00eancias mais imediatas dessa, digamos, op\u00e7\u00e3o infeliz. Pois quando o presente chegar at\u00e9 o futuro pr\u00f3ximo, o que assistiremos \u00e9 o inexor\u00e1vel envelhecimento do asfalto e, em sua senilidade, legaremos \u00e0s pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es ruas com piso desgastado, corro\u00eddo e remendado, necessitando, portanto, tragicamente, de mais asfalto na porta, para o recapeamento.&nbsp;<\/p>\n<p>Quem viver, ver\u00e1!<\/p>\n<p><\/p>\n<p><i>*Jo\u00e3o B\u00f4sco de Paula Bon Cardoso \u00e9 professor de sociologia e geografia, coordenador de Patrim\u00f4nio Cultural do Projeto Fazenda S\u00e3o Clemente e um dos coordenadores do Centro de Mem\u00f3ria, Pesquisa e Documenta\u00e7\u00e3o de Cantagalo.<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No segundo semestre do ano em que se comemora o bicenten\u00e1rio de emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-administrativa de Cantagalo, as m\u00e1quinas de pavimenta\u00e7\u00e3o voltaram ao Centro da cidade e, com o seu quente bafejar, despejaram, sobre os poucos paralelep\u00edpedos que ainda restam, mais metros c\u00fabicos do material que se tornou um dos principais s\u00edmbolos do \u201cprogresso\u201d: o asfalto. 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