{"id":6215,"date":"2015-07-19T23:16:07","date_gmt":"2015-07-20T02:16:07","guid":{"rendered":"http:\/\/playartedesign.com\/jornaldaregiao\/2015\/07\/19\/o-mal-de-cantagalo\/"},"modified":"2015-07-19T23:16:07","modified_gmt":"2015-07-20T02:16:07","slug":"o-mal-de-cantagalo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornaldaregiao.com\/ajustes\/o-mal-de-cantagalo\/","title":{"rendered":"O \u2018Mal de Cantagalo\u2019"},"content":{"rendered":"<p>Nos idos da segunda metade do s\u00e9culo XIX, quando do \u00e1pice da produ\u00e7\u00e3o cafeeira em Cantagalo, uma grave amea\u00e7a abateu-se sobre as grandes propriedades do munic\u00edpio: a \u201cmol\u00e9stia do cafeeiro\u201d. Emergiu, primeiramente, nas proximidades de S\u00e3o Fid\u00e9lis, em 1869, avan\u00e7ou para sudoeste e, seguindo o curso do Rio Dois Rios, com voracidade incontrol\u00e1vel, dizimou os cafezais em suas margens. Posteriormente, em 1875, galgou os cursos dos rios Negro e Grande, deixando para tr\u00e1s inexor\u00e1vel rastro de destrui\u00e7\u00e3o. Ao distanciar-se das imedia\u00e7\u00f5es dos cursos d\u2019\u00e1gua, a partir de 1879, alastrou-se amplamente pela regi\u00e3o, destruindo lavouras em grandes propor\u00e7\u00f5es, causando incont\u00e1veis (e antes impens\u00e1veis) preju\u00edzos aos produtores. A \u201cpraga do caf\u00e9\u201d, provocada por um \u201cnematoide\u201d (verme que se aloja nas ra\u00edzes das plantas, dificultando a absor\u00e7\u00e3o de nutrientes), \u00e0 \u00e9poca, ficou popularmente conhecida como o \u201cMal de Cantagalo\u201d.<\/p>\n<p>Se somarmos a esse flagelo a intensa degrada\u00e7\u00e3o das terras (causada pelas t\u00e9cnicas de cultivo ent\u00e3o praticadas), e, nesse contexto, acrescentarmos tamb\u00e9m a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura, teremos o cen\u00e1rio hist\u00f3rico que, em um curto intervalo de tempo, reduziu a p\u00f3 parcela consider\u00e1vel das riquezas dos, at\u00e9 ent\u00e3o, poderosos cafeicultores cantagalenses, e lan\u00e7ou o munic\u00edpio, antes um dos principais sustent\u00e1culos econ\u00f4micos do Imp\u00e9rio Brasileiro, na mais grave crise econ\u00f4mica vivenciada em toda a sua jornada pelo tempo.<\/p>\n<p>Quem se mostra atento ao que a hist\u00f3ria ensina e mant\u00e9m-se disposto a aprender com as suas, por vezes, dolorosas li\u00e7\u00f5es, \u00e9 levado a concluir, em se considerando a situa\u00e7\u00e3o exposta acima que, no passado, a extrema depend\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o a uma \u00fanica fonte de renda levou \u00e0 ru\u00edna, numa vertiginosa sucess\u00e3o de acontecimentos, as portentosas fortunas dos bar\u00f5es do caf\u00e9, causando, neste segmento do Vale do Para\u00edba Fluminense, uma ruptura no tecido social ainda n\u00e3o devidamente avaliada e mensurada pelos historiadores. Em face disso, outro arranjo social e econ\u00f4mico teve que ser, a duras penas, estabelecido, como fonte de trabalho e renda para o munic\u00edpio, arranjo esse assentado na pecu\u00e1ria e na retomada, em maiores propor\u00e7\u00f5es, da lavoura de subsist\u00eancia.<\/p>\n<p>Promovendo um salto hist\u00f3rico de mais de meio s\u00e9culo, na d\u00e9cada de 1970, inaugura-se, em terras cantagalenses, outra expressiva atividade produtiva. O \u201cprogresso\u201d e as oportunidades de alavancagem econ\u00f4mica do munic\u00edpio nos seriam legados, agora, na vis\u00e3o de muitos, pela industrializa\u00e7\u00e3o do calc\u00e1rio. Tr\u00eas f\u00e1bricas de cimento, pertencentes aos maiores grupos empresariais deste ramo no Brasil e no mundo, passaram a operar, onde, no s\u00e9culo XIX, imperava o caf\u00e9. A ent\u00e3o p\u00edfia arrecada\u00e7\u00e3o da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica municipal saltou exponencialmente e, a partir deste momento, os gestores que se sucederam, passavam a contar, atrav\u00e9s dos recursos advindos do ICMS (Imposto sobre a Circula\u00e7\u00e3o de Mercadorias e Servi\u00e7os), com importante f\u00f4lego financeiro, capaz de engendrar uma nova era de desenvolvimento no munic\u00edpio.<\/p>\n<p>Mas, ironicamente, n\u00e3o foi isso o que ocorreu. A, ent\u00e3o, vultosa receita n\u00e3o foi aplicada com a perspic\u00e1cia e a pertin\u00eancia devidas e passou a nutrir, muita das vezes, malfadadas pr\u00e1ticas, que, desde sempre, infestam a pol\u00edtica brasileira, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s quais, Cantagalo n\u00e3o se mostrou imune. Obras p\u00fablicas houve, temos de reconhecer, n\u00e3o somente com recursos pr\u00f3prios, como tamb\u00e9m com o aporte de verbas estaduais e federais, mas o que n\u00e3o houve foi exatamente o mais importante: uma vis\u00e3o de futuro, na qual os recursos oriundos da industrializa\u00e7\u00e3o do calc\u00e1rio deveriam potencializar o desenvolvimento de novas \u00e1reas da economia do munic\u00edpio, gerando a necess\u00e1ria diversifica\u00e7\u00e3o das atividades produtivas.<\/p>\n<p>O discurso de que as jazidas calc\u00e1rias tinham potencial quase infinito, garantindo ao \u201cTerceiro Maior Polo Cimenteiro do Brasil\u201d, incont\u00e1veis d\u00e9cadas de fabulosa arrecada\u00e7\u00e3o, eclipsou qualquer vis\u00e3o estrat\u00e9gica de m\u00e9dio e longo prazos. Desavisadas sobre as duras li\u00e7\u00f5es do passado, as sucessivas administra\u00e7\u00f5es municipais desenvolveram uma esp\u00e9cie de \u201cdepend\u00eancia qu\u00edmica\u201d em rela\u00e7\u00e3o ao ICMS do cimento, impedindo que outras tantas potencialidades econ\u00f4micas das terras cantagalenses \u2013 como o turismo cultural e hist\u00f3rico, por exemplo \u2013 fossem consideradas seriamente em s\u00f3lidos planos estrat\u00e9gicos, j\u00e1 que estes \u00faltimos, por vezes, n\u00e3o passaram de ret\u00f3rica pirot\u00e9cnica de palanque eleitoral, ou mesmo de elemento decorativo dos programas de governo, que se dissipavam (e ainda se dissipam!) como fuma\u00e7a, no dia a dia das administra\u00e7\u00f5es rec\u00e9m-empossadas.<\/p>\n<p>O drama reeditado da disputa pelas f\u00e1bricas de cimento faz com que me venha \u00e0 mente, caro leitor, a ep\u00edgrafe do livro \u2018As veias abertas da Am\u00e9rica Latina\u2019, de Eduardo Galeano, grande escritor uruguaio falecido recentemente. Antes de apresentar a contund\u00eancia do seu amplo e revelador diagn\u00f3stico sobre os flagelos que assolaram o nosso subcontinente, ele nos ensina: \u201ca hist\u00f3ria \u00e9 um profeta com o olhar voltado para tr\u00e1s: pelo que foi, e contra o que foi, anuncia o que ser\u00e1\u201d. &nbsp;<\/p>\n<p>Que o futuro possa trazer ao povo cantagalense novas perspectivas e possibilidades de desenvolvimento, sem que necessitemos continuar convivendo e padecendo com o eterno retorno dos males do passado.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><i>*<u><b>Jo\u00e3o B\u00f4sco de Paula Bon Cardoso<\/b><\/u> \u00e9 professor de sociologia e geografia, coordenador de Patrim\u00f4nio Cultural do Projeto Fazenda S\u00e3o Clemente e um dos coordenadores do Centro de Mem\u00f3ria, Pesquisa e Documenta\u00e7\u00e3o de Cantagalo.<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos idos da segunda metade do s\u00e9culo XIX, quando do \u00e1pice da produ\u00e7\u00e3o cafeeira em Cantagalo, uma grave amea\u00e7a abateu-se sobre as grandes propriedades do munic\u00edpio: a \u201cmol\u00e9stia do cafeeiro\u201d. 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