{"id":887,"date":"2011-11-24T12:32:39","date_gmt":"2011-11-24T14:32:39","guid":{"rendered":"http:\/\/playartedesign.com\/jornaldaregiao\/2011\/11\/24\/euclides-da-cunha-um-patriota\/"},"modified":"2011-11-24T12:32:39","modified_gmt":"2011-11-24T14:32:39","slug":"euclides-da-cunha-um-patriota","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornaldaregiao.com\/ajustes\/euclides-da-cunha-um-patriota\/","title":{"rendered":"Euclides da Cunha: um patriota"},"content":{"rendered":"<p><p>Desde o Quinhentismo, com seus textos de car\u00e1ter hist\u00f3rico e informativo, a literatura brasileira passou por uma s\u00e9rie de transforma\u00e7\u00f5es ao longo de sua exist\u00eancia. Fazendo uma retrospectiva, passamos pelo Barroco e seus paradoxos, o Arcadismo, com sua \u201csimplicidade\u201d, o Romantismo, junto \u00e0 subjetividade, \u00a0o Realismo e o Naturalismo, tentando (e apenas tentando) \u201ctranscrever a realidade\u201d. Depois, vieram o Parnasianismo e o Simbolismo, com a valoriza\u00e7\u00e3o da forma. Mas praticamente nunca, em nenhuma dessas correntes, houve um escritor que se dedicasse totalmente \u00e0 realidade do brasileiro esquecido, abandonado. Tirando alguns gloriosos antecessores como Castro Alves e Alu\u00edsio de Azevedo, o \u00fanico homem que teve a aud\u00e1cia de mostrar ao mundo o pa\u00eds em que ele realmente vivia foi o c\u00e9lebre cantagalense Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha.<\/p>\n<p>Encarregado pelo jornal O Estado de S\u00e3o Paulo para acompanhar, de perto, o movimento de Canudos, Euclides se dirigiu para a Bahia no ano de 1897, onde se confrontou, como ele mesmo diz, com um crime: \u201cCanudos foi um crime, denunciemo-lo\u201d.<\/p>\n<p>Pode-se e deve-se dizer que \u201cOs Sert\u00f5es\u201d foi o \u00fanico livro, at\u00e9 ent\u00e3o, voltado diretamente para a den\u00fancia das atrocidades cometidas contra um povo colocado \u00e0 margem da hist\u00f3ria. Em seu texto, Euclides consegue reavivar a imagem do sertanejo, antes esquecido, e mostr\u00e1-lo exatamente como \u00e9, \u201c&#8230;antes de tudo um forte\u201d. A rep\u00fablica, \u00e0 \u00e9poca, centrava-se no eixo Sul-Sudeste. O governo n\u00e3o se preocupava com a situa\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria e extremo desespero do sert\u00e3o, at\u00e9 que ele, a seu ver, tornou-se uma amea\u00e7a.<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o dos estados sulistas era iludida constantemente pelos jornais do pa\u00eds, que n\u00e3o faziam nem mesmo um \u00fanico coment\u00e1rio a respeito dos companheiros do Norte. Nessa situa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o houve ningu\u00e9m que ousasse gritar aos sete ventos a dura realidade do nosso pa\u00eds. Euclides o fez, mesmo pertencendo \u201c\u00e0 \u00e1rea mais desenvolvida da na\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Sua indigna\u00e7\u00e3o traduzida em letras concedeu a Euclides, al\u00e9m do t\u00edtulo de um dos maiores escritores da na\u00e7\u00e3o, a inimizade de v\u00e1rios integrantes da rep\u00fablica, do Ex\u00e9rcito e mesmo de civis. Por\u00e9m, o cantagalense manteve-se firme em sua miss\u00e3o de denunciar aquela bestialidade, assumindo um verdadeiro compromisso com a humanidade.<\/p>\n<p>A primeira edi\u00e7\u00e3o de \u2018Os Sert\u00f5es\u2019, antes encarada como uma tolice, chega \u00e0s livrarias em 1902, sendo recebido com aplausos e cr\u00edticas. Havia quem achasse uma afronta, e quem considerasse um \u201cmal necess\u00e1rio\u201d \u00e0 hist\u00f3ria do homem. Achego-me \u00e0 segunda opini\u00e3o. Sem \u2018Os Sert\u00f5es\u2019, quem saberia do verdadeiro assalto \u00e0 liberdade de express\u00e3o que foi a Guerra de Canudos? Quem iria contestar a imagem de Canudos passada pelo governo: um bando de fan\u00e1ticos seguindo um doido de pedra? Quem?<\/p>\n<p>Consagrando-se com \u2018Os Sert\u00f5es\u2019, Euclides n\u00e3o parou. Sua determina\u00e7\u00e3o em dar voz aos calados avan\u00e7ou pelo Norte, abrangendo a regi\u00e3o dos seringais, onde, mais uma vez, Euclides pintou o Brasil como ele realmente era: um mar de pura explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na viagem de reconhecimento do Alto Purus, da qual Euclides fez parte, ele escreve ao amigo Jos\u00e9 Ver\u00edssimo que sua proposi\u00e7\u00e3o era \u201cum meio admir\u00e1vel de ampliar a vida, o de torn\u00e1-la \u00fatil e talvez brilhant\u00edssima. (&#8230;) Que melhor servi\u00e7o poderei prestar \u00e0 nossa terra? Al\u00e9m disso, n\u00e3o desejo a Europa, o boulevard, os brilhos de uma posi\u00e7\u00e3o, desejo o sert\u00e3o, a picada malgradada, a vida afanosa e triste de pioneiro.\u201d Nesse trecho, percebe-se bem quem era Euclides: um homem dedicado a ajudar seu pa\u00eds a vencer preconceitos, a burlar a segrega\u00e7\u00e3o, caminhando, assim, para o desenvolvimento.<\/p>\n<p>Nos textos publicados sobre a Amaz\u00f4nia, Euclides traduz a realidade do seringueiro, que parte do Nordeste em busca de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida e encontra, num triste destino, a explora\u00e7\u00e3o, a pris\u00e3o econ\u00f4mica. Em Judas Ashverus, uma de suas passagens mais brilhantes, Euclides analisa a malha\u00e7\u00e3o do Judas no s\u00e1bado de aleluia e coloca o seringueiro na forma do boneco castigado por aquela vida med\u00edocre de escravid\u00e3o cont\u00ednua.<\/p>\n<p>No \u00e2mbito mundial, Euclides alerta a popula\u00e7\u00e3o sobre as cat\u00e1strofes clim\u00e1ticas e ambientais que estavam produzindo e que, mais tarde, cairia sobre seus filhos e netos. Em \u201cFazedores de Desertos\u201d, Euclides diz: \u201cPorque o homem, a quem o rom\u00e2ntico historiador negou um lugar no meio de tantas grandezas, n\u00e3o as corrige, nem as domina nobremente, nem as encadeia num esfor\u00e7o consciente e s\u00e9rio. Extingue-as.\u201d Aqui, Euclides mostra o que, h\u00e1 aproximadamente um s\u00e9culo atr\u00e1s, j\u00e1 suscitava: o in\u00edcio de um processo que, hoje, se abate sobre n\u00f3s na forma do aquecimento global, da polui\u00e7\u00e3o, da extin\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies, etc.<\/p>\n<p>Assim, Euclides inaugurou um novo per\u00edodo da nossa literatura, voltando-se para os exclu\u00eddos, os abandonados. Ele mostrou o Brasil como \u00e9, sem maquiar suas rugas e imperfei\u00e7\u00f5es. Encarou com seriedade sua na\u00e7\u00e3o, sendo um homem da p\u00e1tria e pela p\u00e1tria! Euclides, patriota, eterno vingador!<\/p>\n<p>Depois de tudo isso, \u00e9 poss\u00edvel tra\u00e7ar o verdadeiro perfil de Euclides da Cunha: poeta, escritor, engenheiro, militar, mas, acima de tudo, humano e consciente. Euclides lutou para que progred\u00edssemos. Humano, ele nos ensinou a necessidade de olhar o outro como um igual, para, assim, caminharmos para a plenitude do desenvolvimento. Em uma de suas mais c\u00e9lebres frases, o mestre nos convida a evoluir, a crescer, e deixa seu recado para as futuras gera\u00e7\u00f5es: \u201cEstamos condenados \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o. Ou progredimos ou desaparecemos.\u201d<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>*Igor Ferreira dos Santos &#8211; 3\u00ba ano do ensino m\u00e9dio do Col\u00e9gio Euclides da Cunha, em Cantagalo.<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde o Quinhentismo, com seus textos de car\u00e1ter hist\u00f3rico e informativo, a literatura brasileira passou por uma s\u00e9rie de transforma\u00e7\u00f5es ao longo de sua exist\u00eancia. 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