A política democrática se constrói pelo debate de ideias. Isso exige reconhecer que pessoas com convicções diferentes têm o direito de participar das decisões sobre a vida em comum. Parece simples. Na prática, porém, temos dificuldade de aceitar que o país também pertence a quem pensa de uma maneira que nos desagrada.
Hannah Arendt compreendia a pluralidade como uma condição da vida política. Compartilhamos um mundo, mas o enxergamos de lugares distintos. Há algo nessa reflexão que precisamos recuperar: por mais seguros que estejamos das nossas opiniões, nossa perspectiva não dá conta de tudo. O outro pode perceber um problema que ignoramos, sofrer os efeitos de uma escolha que nos beneficia ou fazer uma pergunta para a qual ainda não temos resposta.
O ambiente político tem deixado pouco espaço para essa possibilidade. Muitas vezes, basta saber em quem alguém votou para decidir quanto vale o que essa pessoa diz. Antes de ouvir o argumento, já procuramos a intenção escondida, a incoerência, o motivo para descartá-lo. Podemos acompanhar todas as notícias e discutir política diariamente sem permitir que coisa alguma coloque nossas certezas em questão.
Por que uma crítica a um governante provoca tanta ofensa pessoal?
Talvez porque, em algum momento, o apoio político tenha passado a ocupar um lugar maior na nossa identidade. Admitir que o candidato escolhido errou parece colocar em dúvida nossa inteligência, nossos valores ou o grupo ao qual pertencemos. Então defendemos uma decisão que, se viesse do adversário, provavelmente condenaríamos.
Esse é um exercício incômodo, mas necessário: como reagiríamos ao mesmo fato se os nomes fossem outros?
Vale fazê-lo quando defendemos a liberdade de expressão, quando cobramos limites ao poder e quando discutimos o uso do dinheiro público. Nossos critérios precisam continuar reconhecíveis depois que muda o autor da conduta. Caso contrário, fica difícil saber o que estamos defendendo além de uma preferência.
Há um conforto em acompanhar um grupo. Não precisamos examinar tudo de novo; as respostas chegam prontas, assim como os culpados. Discordar dá mais trabalho. Às vezes, significa suportar a desconfiança de pessoas próximas, explicar o que deveria ser evidente ou ouvir que uma crítica “só ajuda o outro lado”. E assim vamos deixando certas perguntas para depois, até perder o hábito de fazê-las.
A raiva ajuda a manter esse ambiente. Diante de problemas difíceis, oferece um culpado e uma direção para a frustração. Também cria vínculos. Pessoas que discordariam sobre muitos assuntos encontram uma afinidade no desejo de derrotar o mesmo adversário.
Isso não torna toda indignação injusta, nem permite concluir que todos os campos políticos têm a mesma responsabilidade. Há diferenças de conduta e de gravidade que precisam ser levadas a sério. Violência e ataques às regras democráticas exigem respostas.
O voto por rejeição, em muitos momentos, é necessário. Há circunstâncias em que o eleitor procura evitar aquilo que entende como mais prejudicial. O problema aparece quando a existência de uma alternativa pior passa a justificar qualquer coisa feita por quem venceu.
É assim que a rejeição pode se tornar um recurso inesgotável de poder. Já não é necessário demonstrar a qualidade das próprias decisões; basta manter vivo o medo da alternativa. O eleitor permanece mobilizado, mas sua capacidade de exigir diminui.
Enquanto isso, o país continua existindo para além das nossas fidelidades. Quem votou de forma diferente também precisa de atendimento médico, trabalho, segurança e perspectivas. A vitória eleitoral não diminui os direitos de quem perdeu. Governar exige responsabilidade inclusive com aqueles que nunca apoiarão o governo.
Nenhuma eleição vai eliminar nossas diferenças. Teremos de continuar dividindo cidades, instituições e decisões com pessoas das quais discordamos. Podemos tornar essa convivência cada vez mais hostil. Mas é preciso perguntar o que esperamos construir assim.
Talvez a maturidade democrática comece quando aceitamos que nossas convicções também precisam ser interrogadas. Isso exige disposição para reconhecer o erro de quem apoiamos, ouvir uma crítica sem procurar imediatamente um inimigo e admitir que o grupo ao qual pertencemos não pode pensar por nós. Quando a lealdade exige o silêncio da consciência, o pertencimento cobra um preço alto demais. E nenhum projeto de país deveria nos custar a liberdade de julgá-lo.