Rubem Alves teria respondido, certa vez, como foi sua preparação para a vida. Apesar de ter chegado aonde chegou, quase todo o planejamento dele deu errado. Gosto dessa resposta. Assim, admite-se algo que costumamos esconder quando contamos a nossa história: nem sempre soubemos o que estávamos fazendo. Houve acidentes de percurso, decisões tomadas por necessidade, mudanças que teríamos evitado se elas dependessem apenas de nós.
Meu avô, quatro vezes prefeito de Trajano de Moraes, também não escolheu de pronto a política. Tinha outros planos. Algumas rupturas o afastaram do destino que imaginava e o conduziram à vida pública. Foi nesse caminho, que não havia sido sua primeira escolha, que fez história.
Quando penso no meu percurso, reconheço algo semelhante. Muito do que hoje faz parte da minha vida nasceu de acontecimentos que, na hora, só me trouxeram contrariedade. Não os recebi com sabedoria. Chorei, resisti, quis fazer alguma coisa que impedisse a mudança. Em muitos momentos, voltamos à infância, acreditando que, se chorar o suficiente, alguém poderá nos dar o que precisamos.
Choramos por pessoas que queríamos perto. Mais adiante, conhecemos outras que não teríamos encontrado se tudo tivesse permanecido como desejávamos. É somente quando os planos se desfazem que ocupamos as possibilidades às quais antes não prestávamos atenção. Algumas deram certo. Outras também fracassaram. E, assim, a vida vai-se fazendo, mesmo sem entendimento ou racionalidade.
Muitos dos nossos impasses nascem dessa fixação. Alguém nos disse que, se mantivéssemos o hiperfoco em algo, conseguiríamos. Às vezes conseguimos. Em outras, a insistência nos custa anos que não voltam. Aos poucos, restringimos o mundo a uma única possibilidade: uma pessoa, um trabalho, um caminho. Tudo o que poderia nos interessar passa despercebido, porque estamos ocupados demais, tentando fazer aquela escolha “dar certo”. E já nem nos perguntamos mais se ainda a desejamos tanto ou se apenas não suportamos a ideia de que “deu errado”.
A lição está em reconhecer que um plano, por mais desejado que seja, não pode responder pela existência inteira. Nós o fizemos com o que sabíamos. Depois conhecemos outras coisas. Dias, meses ou anos à frente, virá o aprendizado. Ele é certo, desde que se disponha a isso. Afinal de contas, a sabedoria está em olhar para trás, reconhecer eventuais erros e aperfeiçoar-se constante.
Lembro a conversa entre Alice e o Gato de Cheshire. Ao perguntar que caminho deveria tomar, ela ouve que isso depende de aonde quer chegar. Como não tem um destino definido, o gato observa que pouco importa o caminho. A passagem me faz pensar no desconforto de andar, sem saber exatamente aonde se vai. Algumas decisões, porém, precisam ser tomadas com a pouca clareza de que dispomos.
Do certo que deu errado, do errado que deu certo, o mundo só acontece quando caminhamos. Não é isso que o gato de Cheshire disse à Alice? “Se não sabes para onde ir, qualquer caminho serve.”
É por isso que penso na flexibilidade. Na capacidade, tão difícil, de rever uma escolha sem tratar a mudança como uma humilhação. Deixar de insistir onde só há desgaste. Aceitar um convite que não estava nos planos. Dar à vida tempo necessário para que possamos conhecê-la.
Meu avô não sabia, ao ver seus primeiros planos interrompidos, que seria quatro vezes prefeito de uma histórica cidade. Penso nisso quando me aflijo por não conseguir enxergar muito adiante. Ele também não podia. Precisou viver os anos que, agora, eu conto nestas linhas.
Que pessoa, da sua consideração, é seu estímulo biográfico para ser mais esperançoso e otimista, apesar dos planos?