“O que você está adiando enquanto espera o momento certo?”, por Jalme Pereira

Conta-se que um homem desejava atravessar um grande rio para chegar ao outro lado, onde, segundo diziam, havia terras férteis e novas oportunidades. Todos os dias ele caminhava até a margem, observava a correnteza e voltava para casa.

“Hoje ainda não”, dizia para si mesmo. “A água está forte demais. Amanhã talvez seja o momento certo.”

Os dias passaram. Depois vieram os meses. Mais tarde, os anos.

Certa manhã, um velho pescador que acompanhava aquela cena havia muito tempo aproximou-se e perguntou: “O que você está esperando?”

O homem respondeu: “Estou esperando o rio ficar completamente calmo para atravessar.”

O pescador sorriu e disse: “Então talvez você passe a vida inteira deste lado. Porque rios não foram feitos para parar de correr.”

Muitas pessoas vivem exatamente assim.

Esperar também é uma escolha

Gostamos de acreditar que estamos apenas aguardando o momento certo. Mas, na prática, esperar também é uma decisão. Toda vez que adiamos uma conversa importante, um projeto, uma mudança ou um sonho, estamos escolhendo permanecer onde estamos, ainda que não percebamos.

O problema é que essa escolha costuma ser silenciosa. Ela não provoca grandes acontecimentos. Apenas faz com que os dias se repitam. E, quando olhamos para trás, percebemos que não foi apenas o tempo que passou. Foram oportunidades, experiências e possibilidades que deixamos seguir sem nós.

O mito do momento perfeito

Existe uma ideia muito comum de que, em algum momento, tudo estará alinhado. Teremos mais tempo, mais dinheiro, mais segurança, mais experiência e menos medo. Então, finalmente, estaremos prontos para agir. Mas a vida raramente funciona assim. Os grandes passos quase nunca são dados quando tudo está resolvido. São dados quando existe coragem suficiente para caminhar apesar das incertezas.

Esperar que todas as condições sejam favoráveis pode parecer prudência. Muitas vezes, porém, é apenas uma forma elegante de adiar aquilo que já sabemos que precisa ser feito.

Quando o medo se disfarça de prudência

Nem sempre percebemos isso. O medo costuma vestir roupas muito convincentes. Em vez de dizer “estou com medo”, ele diz: “Ainda não é a hora.” Em vez de admitir “não quero correr riscos”, prefere afirmar: “Preciso me preparar melhor.”

É claro que existem decisões que exigem planejamento. Agir por impulso dificilmente produz bons resultados. Mas existe uma diferença importante entre preparar-se e esconder-se indefinidamente atrás da preparação. Em algum momento, a busca por segurança deixa de proteger e passa a aprisionar.

A vida continua enquanto você espera

Existe um detalhe que raramente levamos em consideração: enquanto esperamos o momento perfeito, a vida continua acontecendo. Os filhos crescem. As oportunidades mudam. As pessoas seguem seus caminhos. O mercado se transforma. O tempo passa. E nós também mudamos. O que hoje parece uma decisão adiada pode, amanhã, transformar-se em um arrependimento difícil de recuperar. Porque o tempo não fica esperando que estejamos prontos.

O primeiro passo muda mais do que o caminho

Existe uma crença de que o primeiro passo serve para alcançar um objetivo. Muitas vezes, ele serve para algo ainda mais importante: transformar quem o dá. Quando começamos, descobrimos capacidades que ainda não conhecíamos. Aprendemos durante o percurso. Corrigimos a rota. Desenvolvemos confiança. Percebemos que a segurança que esperávamos encontrar antes da caminhada, na verdade, nasce ao longo dela.

É por isso que tantas pessoas só descobrem do que são capazes depois que decidem agir.

Um convite à coragem consciente

Talvez exista algo importante que você vem adiando há muito tempo. Uma conversa, uma decisão, um projeto, um recomeço ou simplesmente uma mudança de atitude.

Antes de esperar mais um pouco, faça a si mesmo uma pergunta sincera: estou realmente me preparando ou apenas esperando que o medo desapareça?  Porque rios continuam correndo. A vida continua acontecendo. E o momento perfeito talvez nunca chegue. Mas existe uma boa notícia: você não precisa que o rio pare para começar a atravessar. Precisa apenas decidir dar o primeiro passo.

Talvez a coragem não seja esperar o dia em que tudo estará sob controle. Talvez coragem seja compreender que algumas das melhores decisões da vida acontecem justamente quando aceitamos caminhar, mesmo sem enxergar toda a margem do outro lado.

Jalme Pereira é músico, palestrante, desenhista e trabalha na Universidade Veiga de Almeida (UVA)
Jalme Pereira é músico, palestrante, desenhista e trabalha na Universidade Veiga de Almeida (UVA)

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