Jornal da Região

“Quando a exigência de ser melhor começa a atrapalhar você”, por Jalme Pereira

Um escultor trabalhava havia meses em uma pequena peça de madeira. Todos os dias encontrava algum detalhe que poderia melhorar. Uma curva que poderia ser mais precisa, uma superfície que poderia ficar mais lisa, uma pequena imperfeição que precisava ser corrigida. Ele retirava uma lasca aqui, ajustava outra ali e voltava ao trabalho no dia seguinte. A escultura já estava bonita. Mas ele não conseguia enxergar isso. Conseguia apenas perceber aquilo que ainda não estava como gostaria.

Certa manhã, ao tentar corrigir um pequeno detalhe, retirou madeira demais. Tentou compensar de um lado, depois de outro, mas a peça havia perdido sua forma. O escultor ficou alguns minutos em silêncio, olhando para o que tinha feito. Durante meses, tentando tornar sua obra cada vez melhor, ele não percebeu quando ela já estava pronta. Talvez façamos algo parecido conosco.

QUANDO MELHORAR DEIXA DE SER DESENVOLVIMENTO

Existe uma diferença entre querer melhorar e acreditar que nunca está bom o suficiente. A primeira nos impulsiona; a segunda pode nos aprisionar. Buscar desenvolvimento é reconhecer que podemos aprender, corrigir e fazer melhor. Mas, quando passamos a avaliar tudo pelo que faltou, deixamos de perceber o que já construímos. O problema não está em querer crescer, mas em nunca conseguir reconhecer o quanto já crescemos.

A COBRANÇA QUE NUNCA TERMINA

A autocobrança pode parecer, à primeira vista, uma característica positiva. Afinal, pessoas exigentes consigo mesmas costumam ser associadas a comprometimento, responsabilidade e busca por excelência. Mas existe um limite que nem sempre percebemos. Quando a cobrança deixa de orientar o comportamento e passa a determinar o valor que atribuímos a nós mesmos, qualquer resultado pode parecer insuficiente. A pessoa não pensa mais apenas: “Posso fazer melhor?”. Começa a pensar: “Por que eu não fui capaz de fazer melhor?”. E essa pequena mudança transforma uma avaliação sobre o comportamento em um julgamento sobre a própria pessoa.

EXCELÊNCIA NÃO É PERFEIÇÃO

A excelência admite ajustes. A perfeição exige que eles quase não sejam necessários. A primeira entende que erros fazem parte do processo. A segunda tende a tratá-los como evidências de incompetência. Quem busca excelência pergunta: “O que posso aprender com isso?”. Quem está preso à perfeição muitas vezes pergunta: “Como pude errar dessa maneira?”. Uma pergunta abre espaço para desenvolvimento. A outra pode alimentar vergonha, medo e paralisia. Isso não significa baixar o padrão ou aceitar qualquer resultado. Significa compreender que qualidade também envolve saber avaliar quando algo está suficientemente bom para seguir adiante. Até porque existe um momento em que continuar corrigindo já não melhora o resultado. Apenas aumenta o risco de estragá-lo.

QUANDO O MEDO DE ERRAR SE DISFARÇA DE QUALIDADE

Nem sempre a demora para entregar, decidir ou se posicionar significa cuidado. Às vezes, significa medo. A pessoa revisa novamente porque ainda não se sente segura. Adia uma apresentação porque acredita que poderia prepará-la melhor. Evita expor uma ideia porque imagina todas as maneiras pelas quais ela poderia ser criticada. Por fora, parece zelo. Por dentro, pode existir uma tentativa de evitar a possibilidade de falhar. É uma armadilha silenciosa porque costuma receber nomes socialmente valorizados: perfeccionismo, responsabilidade, comprometimento, busca pela excelência. Mas nem toda exigência produz qualidade. Algumas produzem apenas tensão.

O PROBLEMA NÃO É TER PADRÕES ALTOS

Ter padrões altos pode ser uma força. O problema começa quando esses padrões não deixam espaço para a realidade. A realidade inclui limites, imprevistos, erros, diferenças de contexto e dias em que não conseguimos entregar o nosso melhor. Talvez maturidade também seja aprender a diferenciar aquilo que realmente precisa ser melhorado daquilo que simplesmente não ficou exatamente como imaginávamos. Essa diferença parece pequena, mas muda a maneira como lidamos com o trabalho, com os relacionamentos e, principalmente, conosco.

APRENDER A RECONHECER O QUE JÁ FOI CONSTRUÍDO

Olhar para trás e reconhecer o caminho percorrido não significa acomodação. Significa perceber que já não estamos no mesmo lugar. Talvez fosse isso que o escultor não conseguia fazer: estava tão concentrado no que ainda poderia retirar da madeira que deixou de enxergar a obra que já havia construído. Nós também podemos fazer isso. Podemos passar tanto tempo corrigindo o que consideramos inadequado que deixamos de reconhecer competências desenvolvidas, dificuldades superadas e resultados que um dia pareciam impossíveis.

QUANDO É HORA DE PARAR DE CORRIGIR

Há trabalhos que precisam de revisão, decisões que exigem reflexão e comportamentos que precisam mudar. Mas continuar procurando defeitos também pode ser uma maneira sofisticada de não reconhecer o próprio valor. Talvez crescer não seja transformar cada detalhe de nós mesmos em um problema a ser corrigido, mas reconhecer o que precisa mudar, preservar o que funciona e perceber o quanto já avançamos. Afinal, nenhuma pessoa precisa estar permanentemente em processo de correção. A pergunta talvez não seja apenas: “Como posso ser melhor?”. Mas também: “Será que, na tentativa de ser melhor, estou conseguindo reconhecer quem já me tornei?”

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