Dois artesãos foram encarregados de construir uma ponte sobre um pequeno riacho. O primeiro defendia uma estrutura de madeira, que considerava mais simples e econômica. O segundo insistia que uma ponte de pedra seria mais resistente e duradoura. Durante dias, apresentaram argumentos, apontaram falhas nas propostas um do outro e tentaram provar qual solução era a melhor. Quanto mais discutiam, mais convictos ficavam de suas próprias ideias. Até que um viajante, observando o terreno, perguntou por que pretendiam construir a ponte exatamente naquele ponto. Os dois se entreolharam. Estavam tão concentrados em defender suas soluções que nenhum deles havia considerado a possibilidade de escolher outro lugar.
Talvez façamos algo parecido em nossas conversas, em nossos relacionamentos e no trabalho. Em algumas situações, ficamos tão ocupados defendendo aquilo em que acreditamos que deixamos de considerar o que o outro poderia nos ajudar a compreender.
Quando discordar se transforma em disputa
Discordar faz parte das relações humanas. Pessoas têm experiências, conhecimentos, valores e maneiras diferentes de interpretar as situações. O problema não está na divergência, mas naquilo que fazemos quando ela aparece. Em vez de examinar os argumentos apresentados, começamos a procurar falhas na fala do outro. Em vez de tentar compreender sua perspectiva, preparamos mentalmente a resposta que demonstra porque estamos certos. A conversa deixa de ser uma oportunidade de ampliar a compreensão e se transforma em uma disputa por reconhecimento. Quando isso acontece, a qualidade da conversa diminui. Podemos continuar falando, apresentando argumentos e respondendo a cada objeção, mas já não estamos necessariamente escutando. Estamos esperando a oportunidade de voltar a falar.
Por que é tão difícil admitir que podemos estar errados?
Reconhecer um erro nem sempre é simples, porque nossas opiniões não estão relacionadas apenas às informações que possuímos. Muitas vezes, elas também se conectam à imagem que construímos de nós mesmos. Se nos consideramos competentes, experientes ou bons profissionais, admitir que não percebemos algo importante pode provocar desconforto. Em determinadas situações, mudar de opinião parece significar perder autoridade, demonstrar fragilidade ou colocar em dúvida tudo aquilo que defendemos anteriormente. Por isso, podemos insistir em uma posição mesmo quando surgem informações que mereceriam uma nova análise. Quando proteger nossa imagem se torna mais importante do que compreender a realidade, deixamos de aprender.
Escutar não significa concordar
Existe uma confusão entre escutar alguém e concordar com o que essa pessoa diz, como se ouvir significasse renunciar às próprias convicções. Mas compreender um argumento não obriga ninguém a aceitá-lo; significa examiná-lo antes de rejeitá-lo. Podemos reconhecer aspectos pertinentes em uma crítica, compreender uma decisão e até rever parte de nossa posição sem abandonar nossas convicções. Quando separamos a necessidade de compreender da necessidade de concordar, a conversa deixa de ser uma ameaça e se torna uma oportunidade de descobrir perspectivas que talvez não considerássemos sozinhos.
O custo de precisar ter razão
No ambiente profissional e nos relacionamentos, a necessidade de ter razão pode comprometer a colaboração e enfraquecer o diálogo. Líderes que não admitem questionamentos inibem novas ideias, enquanto pessoas que interpretam divergências como ataques pessoais dificultam a construção de soluções. As relações dependem não apenas de bons argumentos, mas também de respeito e abertura para ouvir. Quando discordar se torna arriscado, muitos preferem o silêncio, que pode parecer concordância, mas representar apenas a desistência de serem compreendidos. Afinal, encerrar uma discussão não significa resolver o problema; às vezes, significa apenas fazer o outro parar de argumentar.
A maturidade de rever uma posição
Ter experiência e conhecimento não nos torna imunes a erros. Quanto mais experiência acumulamos, maior pode ser a tentação de acreditar que já conhecemos suficientemente bem determinadas situações, esquecendo que sempre podemos aprender e rever nossas convicções. A maturidade não está em abandonar nossas opiniões a cada discordância, mas em examiná-las sem tratar questionamentos como ameaças. É saber distinguir quando temos bons motivos para sustentar uma posição e quando apenas resistimos a mudá-la. Afinal, rever uma ideia diante de novos argumentos não diminui necessariamente nossa credibilidade. Durante uma discussão, talvez a pergunta mais produtiva não seja “Como posso demonstrar que estou certo?”, mas “O que talvez eu ainda não tenha considerado?”. Essa mudança nos ajuda a enxergar aspectos que a necessidade de vencer poderia deixar de lado.
O que você pode estar deixando de compreender?
Os dois artesãos queriam construir uma boa ponte, mas ficaram presos à disputa sobre qual material utilizar. Cada um defendia sua solução, sem considerar o problema por inteiro.
Talvez façamos o mesmo quando confundimos defender nossas ideias com defender nossa capacidade de pensar. Podemos ter bons argumentos e ainda deixar de considerar aspectos importantes. Isso não significa concordar com todos, mas reconhecer que uma ideia também se fortalece quando estamos dispostos a examiná-la. Uma conversa não precisa ter um vencedor para produzir algo valioso. Às vezes, uma boa pergunta nos ajuda a enxergar o que os argumentos, sozinhos, não conseguiram revelar. Quantas vezes você deixou de compreender algo importante porque estava ocupado demais tentando provar que tinha razão?