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Jornal da Região

“Quando você começa a viver no automático”, por Jalme Pereira

Todos os dias, um homem fazia o mesmo caminho para o trabalho. Saía de casa no mesmo horário, virava nas mesmas ruas, parava no mesmo semáforo e chegava ao escritório quase sem perceber o percurso. Conhecia aquele caminho tão bem que, muitas vezes, chegava ao destino sem conseguir lembrar exatamente por onde havia passado.

Certa manhã, encontrou a rua bloqueada e precisou fazer um desvio. No começo, ficou incomodado. O trajeto ficou mais longo e ele precisou prestar atenção por onde passava. Foi então que percebeu uma pequena praça que nunca havia visto, uma livraria que provavelmente existia havia anos e um café onde algumas pessoas se encontravam. No dia seguinte, como a rua continuava bloqueada, ele fez novamente o desvio e começou a perceber outras coisas.

Quando a obra terminou, o caminho antigo voltou a ficar disponível. Ele poderia simplesmente retomar sua rotina. Mas, antes de virar a esquina, diminuiu a velocidade e, pela primeira vez em muitos anos, percebeu que conhecia perfeitamente o caminho, mas quase nada do que existia ao redor dele. Talvez seja assim que o automático comece.

Quando repetir parece escolher

O automático não é necessariamente um problema. Ele faz parte da maneira como funcionamos. Muitas tarefas que realizamos diariamente não precisam de atenção consciente. Escovar os dentes, dirigir por um caminho conhecido, organizar determinados objetos ou seguir uma rotina são exemplos de comportamentos que se tornam mais eficientes com a repetição.

O problema aparece quando o automático deixa de facilitar o que fazemos e começa a decidir por nós. Continuamos fazendo porque sempre fizemos, respondendo da mesma maneira porque aquela resposta já está disponível, mantendo determinados hábitos, relações, formas de trabalhar e maneiras de pensar sem parar para refletir se ainda fazem sentido. A repetição passa a ser tão confortável que começa a se parecer com uma escolha.

O conforto daquilo que já conhecemos

Existe uma razão para repetirmos comportamentos conhecidos. Eles exigem menos esforço. Já sabemos o que esperar, como agir e, muitas vezes, até como nos sentir. O conhecido pode não ser necessariamente bom, mas é previsível. Por isso, algumas pessoas permanecem durante anos em situações que já não lhes fazem mais sentido ou bem. Não porque tenham decidido conscientemente permanecer, mas porque mudar exigiria interromper um padrão conhecido. É mais fácil continuar fazendo aquilo que sabemos do que parar e perguntar o que poderia ser diferente. E, pouco a pouco, o que começou como uma escolha, transformar-se em hábito.

Quando o automático deixa de ser percebido

Talvez um dos maiores riscos de viver no automático seja a perda da percepção. A pessoa continua trabalhando, mas já não percebe como está trabalhando. Continua se relacionando, mas já não percebe como está se relacionando. Continua tomando decisões, mas nem sempre percebe quais critérios está utilizando. Ela reage antes de pensar, responde antes de compreender e repete antes de perguntar. Não significa que tenha perdido a capacidade de escolher. Significa que muitas respostas acontecem antes que ela perceba que poderia escolher outra. É possível passar muito tempo executando uma rotina e, ao mesmo tempo, afastar-se lentamente daquilo que realmente importa.

Nem toda rotina precisa ser mudada

Interromper o automático não significa abandonar a rotina. Ela organiza, protege tempo, reduz esforço e cria estabilidade. O problema não está em fazer as coisas de determinada maneira, mas em fazê-las sem perceber. Quando sabemos por que agimos de determinada forma, podemos escolher mantê-la. Quando percebemos que um comportamento já não produz o resultado que desejamos, podemos modificá-lo. A consciência não exige que mudemos tudo. Ela apenas devolve a possibilidade de escolher.

Quando foi a última vez que você questionou o seu jeito de fazer?

Às vezes, uma pequena interrupção é suficiente para revelar algo que a repetição havia escondido. Fazer um caminho diferente, escutar antes de responder, perguntar por que determinada tarefa continua sendo feita daquela maneira, rever uma rotina, perceber uma frase que sempre dizemos, uma preocupação que sempre aparece ou uma decisão que sempre adiamos. Pequenas perguntas podem interromper grandes automatismos: “Por que eu faço isso dessa maneira?”, “Isso ainda faz sentido?”, “Eu escolheria novamente esse comportamento se pudesse começar hoje?”. Não precisamos mudar tudo depois dessas perguntas. Talvez precisemos apenas começar a perceber.

A consciência devolve possibilidades

O homem do início da história não descobriu um novo caminho porque decidiu mudar de vida. Ele descobriu porque foi obrigado a sair, por alguns dias, do caminho que percorria diariamente. O desvio não mudou apenas o trajeto. Mudou aquilo que ele conseguia enxergar. Talvez a consciência faça algo parecido conosco. Ela interrompe, por alguns instantes, aquilo que fazemos sem pensar e nos permite observar o que antes passava despercebido. Talvez não seja necessário abandonar a estrada conhecida. Mas, de vez em quando, pode ser importante diminuir a velocidade e olhar ao redor. Porque viver no automático pode tornar o caminho mais fácil, mas também pode fazer com que cheguemos a lugares que nunca escolheriamos conscientemente.

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