Imagine um artesão que está esculpindo uma peça de madeira. Ele tem uma ideia clara do que deseja criar e começa a trabalhar com cuidado. Mas, a cada pessoa que passa por sua oficina, interrompe o trabalho para perguntar o que ela acha. Um sugere mudar o formato, outro critica uma curva, outro prefere uma peça mais simples. O artesão, querendo agradar a todos, modifica continuamente sua criação. Depois de tantas mudanças, já não sabe se aquela peça representa o que imaginou inicialmente ou apenas a soma das expectativas de quem passou por ali.
Às vezes, fazemos algo semelhante com nossas próprias escolhas. Começamos uma decisão com alguma convicção, mas, diante da primeira crítica ou manifestação de desaprovação, passamos a questionar se estamos no caminho certo. Procuramos opiniões, buscamos confirmações e, muitas vezes, só conseguimos seguir adiante quando alguém demonstra concordância. O problema começa quando deixamos de considerar a opinião dos outros e passamos a depender dela para confiar em nós mesmos.
Quando a opinião dos outros começa a definir nossas escolhas
Ouvir opiniões é importante. Outras pessoas podem enxergar aspectos que não percebemos, identificar riscos e apresentar alternativas que ampliam nossa compreensão. A dificuldade aparece quando a opinião alheia deixa de ser uma contribuição para se transformar em uma condição para decidir.
Nesse momento, começamos a avaliar nossas escolhas menos pelo que pensamos, sentimos ou consideramos adequado e mais pela reação que elas poderão provocar. Uma decisão profissional, uma mudança de carreira, uma maneira de se posicionar ou até uma escolha pessoal passam a ser acompanhadas pela mesma pergunta: o que vão pensar de mim?
O MEDO DE DESAGRADAR
Por trás da necessidade de aprovação, frequentemente existe o receio de decepcionar, ser criticado, rejeitado ou perder o reconhecimento de alguém importante. Para algumas pessoas, discordar parece colocar em risco uma relação. Para outras, ser questionado provoca uma sensação de insegurança tão intensa que preferem abrir mão do próprio posicionamento.
Esse comportamento pode ter diferentes origens. Experiências anteriores, ambientes muito críticos e relações nas quais o reconhecimento dependia de corresponder às expectativas podem contribuir para que a pessoa associe aceitação à necessidade de agradar.
O problema é que evitar a desaprovação a qualquer custo não elimina os conflitos. Apenas transfere parte deles para dentro de nós. Por fora, parece que tudo está bem. Por dentro, acumulamos frustração e a sensação de não estarmos sendo verdadeiros com aquilo que pensamos.
O preço de tentar agradar a todos
A tentativa de corresponder às expectativas de todos é uma tarefa impossível, porque as pessoas têm valores, interesses e percepções diferentes. O que agrada a uma pode desagradar a outra. O que uma considera coragem, outra pode interpretar como imprudência. O que alguém entende como firmeza pode ser visto por outro como falta de flexibilidade.
Quando tentamos eliminar todas as possibilidades de desaprovação, ficamos presos a uma busca que não tem ponto de chegada. Adaptamos opiniões, modificamos comportamentos e, às vezes, adiamos decisões importantes para evitar reações negativas.
No ambiente profissional, isso pode aparecer no gestor que evita conversas difíceis para não desagradar à equipe, no profissional que não apresenta uma ideia por receio de ser criticado ou naquele que concorda com decisões das quais discorda apenas para preservar sua imagem.
Ouvir não significa entregar ao outro a decisão
Desenvolver autonomia não significa ignorar opiniões ou acreditar que estamos sempre certos. Pelo contrário, exige abertura para reconhecer erros, rever convicções e aprender com perspectivas diferentes. A questão está em compreender que ouvir alguém não nos obriga a concordar com essa pessoa.
Uma crítica pode conter uma informação importante, mas também pode refletir expectativas, experiências e interesses que não são nossos. Por isso, antes de aceitar uma opinião como referência, vale perguntar: existe algo que preciso considerar? Essa observação faz sentido diante da situação? Estou mudando de ideia porque encontrei bons argumentos ou apenas porque tenho medo de desapontar alguém?
Confiar nas próprias escolhas é aceitar que nem todos concordarão
A confiança nas próprias escolhas não nasce da certeza de que nunca erraremos. Ela se desenvolve quando aprendemos a avaliar situações, reconhecer nossos limites, considerar informações e assumir a responsabilidade pelas decisões que tomamos.
Isso também significa aceitar que algumas pessoas podem não concordar conosco. Nem toda discordância representa rejeição, assim como nem toda desaprovação significa que fizemos algo errado. Em determinadas situações, escolher o que consideramos adequado pode exigir suportar o desconforto de não receber o reconhecimento que gostaríamos.
O artesão da nossa história talvez nunca consiga produzir uma peça que agrade a todos. Mas, se continuar modificando seu trabalho a cada opinião que recebe, corre o risco de perder justamente aquilo que o levou a começar: sua própria ideia.
Na vida, também precisamos aprender a ouvir sem nos anular, considerar sem nos submeter e mudar de opinião quando encontramos razões consistentes para isso. Afinal, amadurecer não é deixar de valorizar o que os outros pensam. É deixar de depender dessa aprovação para reconhecer o valor das próprias escolhas.