Desde agosto passado, por ocasião do Dia do Patrimônio Histórico (17/8), o assunto voltou ao centro das atenções, sobretudo a partir das mídias e redes sociais. Desativado desde 2004, o pequeno meio de hospedagem, erguido provisoriamente na metade da década de 1940 – por encomenda do engenheiro César Guinle – ao renomado arquiteto Lúcio Costa, funcionou por 60 anos e se transformou num ícone da arquitetura modernista brasileira.
Desativado há 22 anos, o Park Hotel, no bairro Parque São Clemente, na área central de Nova Friburgo (região Serrana do Rio de Janeiro), ainda preocupa e mobiliza pessoas e entidades que se interessam pelo tema do patrimônio histórico. Para tanto, estão se mobilizando no movimento de resgate do antigo imóvel, na tentativa de lhe dar um novo destino.
Conselheiro do IPHAN
Inicialmente, o movimento vai ativar o grupo ‘Amigos do Park Hotel’, cujo objetivo é debater alternativas de resgate daquele bem, a partir do projeto de restauro incentivado por recursos de isenção fiscal, cuja captação está sob a responsabilidade do Instituto Traço. Uma importante adesão recente ao ‘SOS PH’ é a do urbanista, arquiteto e professor Ciro Pirondi, fundador da Escola da Cidade, faculdade de arquitetura de cunho social de São Paulo. Formado em 1980 pela Universidade Braz Cubas, de Mogi das Cruzes (SP), diretor do escritório Ciro Pirondi Arquitetos Associados, desde 1983, é Doutor pela Universidad Politécnica de Barcelona, Espanha (1980-1982) e, entre outras funções, foi Presidente nacional do IAB – Instituto de Arquitetos do Brasil, em 1996. Foi ainda Diretor Executivo da Fundação Oscar Niemeyer, em 2016, e é Conselheiro do IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional desde o ano passado e atuou ainda como Diretor Executivo da Casa Lúcio Costa, que cuida do acervo e legado daquele renomado urbanista. Pirondi ainda detém o Global Award for Sustainable Architecture (UNESCO – 2024) e o Premio a la Trayectoria de la XIII Bienal Iberoamericana de Arquitectura y Urbanismo, do Governo da Espanha (também em 2024).
Novos usos contemporâneos
O Professor Ciro também concorda que a função do imóvel não seria mais abrigar um hotel, como no passado: “Devemos adequá-lo a novos usos contemporâneos, sem perder sua tipologia e características únicas. As novas gerações exigem adequações para novos hábitos e costumes. Exemplos desse tipo de intervenção temos no Brasil e no mundo, como o Castelvecchio, em Verona, ou o Sesc Pompéia / São Paulo”. – lembra ele.
Com a autoridade de quem conviveu com o próprio Lúcio Costa e até hoje mantém relações com a família, desde a filha recém falecida, também arquiteta e urbanista Maria Elisa Costa (1934-2026) e ainda a neta, designer Julieta Sobral, que cuida do legado do avô, o professor Pirondi conta que Lúcio sempre, inclusive por razões pessoais de sua família, teve um carinho muito especial pelo Park Hotel. “Acredito que ele sabia, mais do que nós, a importância daquele projeto em um momento em que a genialidade de Oscar Niemeyer, no mesmo período, havia desenhado um outro percurso possível para a arquitetura brasileira com o complexo da Pampulha” [na capital mineira, Belo Horizonte], disse Pirondi acentuando: “Parque Hotel e Pampulha são dois dos possíveis caminhos da arquitetura brasileira, da arquitetura que produziremos nas décadas futuras até hoje”.
Segundo ainda o Professor, “o Parque Hotel nasce clássico em um momento sublime da arquitetura brasileira: as décadas de 40, 50 e 60, pelas mãos de Lúcio Costa, o arquiteto que mais contribuiu para a instalação do pensamento moderno no Brasil. Por isso, desde o início, já “nasce” com uma importância fundamental e se mantém em qualquer estudo ou pesquisa que se faça sobre as origens do moderno no País”.
Vontade política sincera e envolvimento da população
Para o Professor Ciro, “Três elementos são fundamentais para a ação de revitalização do PH: vontade política sincera; competência técnica e o envolvimento da população. Se esses fatores estiverem bem harmonizados, os recursos econômicos aparecerão e, por certo, surgirão alternativas consistentes para atividades seguras e duradouras”. No entanto, ele contrapõe: “com relação à saída desses itens, por certo surgirão alternativas consistentes para o PH”. Ele ressalta que para obter sucesso na captação de recursos, públicos ou privados, “precisamos de um projeto arquitetônico bem definido e aprovado em todos os órgãos competentes”. Um projeto desenvolvido de maneira multidisciplinar, plano econômico-financeiro com valor real do projeto de recuperação do edifício e seu entorno e um plano de gestão futura. Com esses três itens, a captação se fará de maneira segura”.
Como ação prática e efetiva de sua participação na atual tentativa de retomada do PH, o professor Ciro diz que a Escola da Cidade pode liderar um processo de envolvimento de outras escolas de arquitetura, em conjunto com demais organismos, como o IPHAN, o CAU – Conselho de Arquitetura e Urbanismo, o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) e outras associações, na busca de objetivos urgentes de recuperação do Park Hotel.
Sobre este assunto, o proprietário do imóvel, Luiz Guinle já havia se referido inclusive a um termo de convênio de cooperação mútua, para parceria e intercâmbio cultural, assinado em dezembro de 2006, pelo Instituto Cesar Guinle, a Associação Casa de Lúcio Costa e a própria Associação de Ensino de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo (AEAUsp), considerando “o objetivo de preservação da memória e da obra de Lúcio Costa, e buscando o desejo de restaurar o prédio e seus móveis, desenvolvendo meios que o torne auto-sustentável no futuro, assegurando sua preservação às próximas gerações nos moldes em que foi concebido”. No mesmo documento, as entidades parceiras já haviam escolhido a AEAUsp como responsável pela divulgação junto às faculdades de arquitetura nacionais, promovendo a presença contínua de professores e alunos de arquitetura no Park Hotel para estudos sobre a obra de Lúcio Costa.