“Você está construindo sua vida ou apenas repetindo sua história?”, por Jalme Pereira
Conta-se que um escultor trabalhava havia muitos anos na mesma oficina. Todos os dias, pegava um bloco de mármore e começava a retirar pedaços da pedra até revelar a obra que imaginava existir ali dentro.
Certo dia, um jovem aprendiz o observava atentamente e perguntou: “Como o senhor sabe exatamente o que deve retirar da pedra?”
O escultor sorriu e respondeu: “Porque não estou criando a estátua. Estou retirando tudo aquilo que impede que ela apareça.”
O aprendiz ficou em silêncio.
Então o velho acrescentou: “A maioria das pessoas tenta acrescentar coisas à própria vida.
Poucas percebem que, muitas vezes, o verdadeiro trabalho é retirar aquilo que já não pertence mais a elas.”
Talvez seja exatamente isso que muitos de nós precisamos fazer.
A história que você conta para si mesmo
Todos nós construímos uma narrativa sobre quem somos. Algumas começam ainda na infância: “sou tímido”, “não levo jeito para isso”, “preciso agradar para ser aceito”, “não posso errar”, “preciso dar conta de tudo”.
No início, essas histórias podem ter surgido como uma forma de compreender o mundo ou de nos proteger. O problema é que, quando deixam de ser questionadas, passam a orientar nossas escolhas, nossos relacionamentos e até a forma como enxergamos nossas possibilidades.
Sem perceber, deixamos de viver a realidade e passamos a viver a história que contamos sobre ela.
Quando o passado continua decidindo o presente
Muitas pessoas acreditam que o passado determina quem elas são. Mas o passado não exerce influência apenas pelo que aconteceu. Ele influencia, principalmente, pelo significado que continuamos atribuindo ao que aconteceu.
Uma crítica recebida há muitos anos pode continuar impedindo alguém de se expor. Um fracasso antigo pode transformar qualquer novo desafio em ameaça. Uma rejeição pode fazer a pessoa acreditar que nunca será suficiente.
O fato passou. Mas a história continua sendo contada. E, enquanto ela permanecer a mesma, muitos comportamentos também permanecerão.
O maior risco é acreditar que essa história é definitiva
Existe um momento em que deixamos de dizer “isso aconteceu comigo” e começamos a dizer “eu sou assim”.
É aí que a experiência se transforma em identidade. A pessoa deixa de enxergar um comportamento como algo que pode ser modificado e passa a enxergá-lo como uma característica permanente.
Essa talvez seja uma das prisões mais silenciosas do comportamento humano. Porque ninguém muda aquilo que acredita fazer parte da própria essência.
Reescrever não significa negar
Mudar a própria história não significa fingir que o passado não existiu. Significa olhar para ele com novos significados. A maturidade não elimina as experiências vividas. Ela muda a forma como nos relacionamos com elas.
Quando uma pessoa deixa de perguntar “Por que isso aconteceu comigo?” e passa a perguntar “O que posso aprender com isso?”, algo começa a mudar.
Não porque os fatos mudaram. Mas porque mudou a maneira de interpretá-los.
Quem está escrevendo os próximos capítulos?
Talvez a pergunta mais importante não seja quem você foi. Nem mesmo o que aconteceu ao longo da sua vida.
A pergunta é outra:
Quem está escrevendo a história que você continuará vivendo daqui para frente? São as experiências passadas? As expectativas dos outros? Os medos que você acumulou? Ou as escolhas conscientes que decide fazer a partir de agora?
Um convite à autoria
Talvez você não precise se transformar em outra pessoa. Talvez precise apenas deixar de acreditar que a história construída até aqui precisa determinar tudo o que ainda está por vir.
Porque o passado explica muita coisa. Mas não deveria escrever sozinho os próximos capítulos da sua vida.
No fim, viver com consciência talvez seja isso: deixar de ser apenas personagem da própria história para assumir, finalmente, o papel de autor dela.
