18 de outubro, dia do médico, a primeira coisa que me lembro é a figura de meu pai; médico em Cantagalo durante 45 anos, sempre de terno e gravata, fizesse calor ou frio. Depois de muito tempo passou a usar um jaleco, mas sempre com camisa de mangas compridas e gravata.
Seu consultório foi sempre na sua residência, atendendo a qualquer momento, consultas, acidentados e pessoas que iam buscar conselhos dos mais diversos tipos. Foi médico dos ferroviários da E.F. Leopoldina durante 38 anos, quando eu lhe dizia que deveria se aposentar ele me respondia: “0 homem deve trabalhar enquanto pode. Eu não me aposento porque gosto muito dos ferroviários”. Realmente só se aposentou três meses antes de falecer, quando já se encontrava doente.
Atendia os ferroviários de Rio Grandina até Portela, um trecho com cerca de 130 Km. Tendo como meio de transporte apenas os trens da empresa. Após sua aposentadoria o setor passou a ser atendido por cinco médicos
Nunca insinuou que caminho eu deveria seguir, todavia seu trabalho diuturno e sua dedicação à profissão como algo sagrado, iluminaram minha trajetória; jamais fez da profissão um meio de enriquecimento, ao falecer aos quase 69 anos de idade, deixou como herança uma residência construída com muito sacrifício, uma propriedade rural herdada do pai, uma pensão para a esposa e um nome honrado, que até hoje, meio século depois de sua morte, continuo a ouvir com emoção e alegria.
Creio que a boa semente lançada por meu pai germinou na família, pois hoje, tenho um filho, uma nora, uma neta e duas sobrinhas netas que seguiram o mesmo caminho, enquanto a outra neta completará o curso médico em 2026. Serão, portanto, sete médicos nascidos do mesmo tronco lutando pela saúde e pela vida dos seus semelhantes. Como certa vez declarou o Papa Francisco: “A tradição é a raiz fundamental para que a árvore produza bons frutos”. Obrigado meu Deus por tanta coisa boa em nossa família!
Certa vez um médico homenageado pelo Conselho Nacional de Medicina, por seu trabalho no interior do estado do Pará, disse: “A Medicina é uma profissão como qualquer outra. A única diferença é que o médico cuida da vida humana, algo sagrado, um dom de Deus”.
Aposentado há cerca de 10 anos, dia 18 recebi diversas mensagens de felicitações, de Cantagalo, de cidades vizinhas, de Nova Friburgo, Itaperuna, do Rio de Janeiro, Rio das Ostras e até de Portugal, foram antigos clientes, colegas, amigos e dois padres que passaram por Cantagalo e se tornaram grandes amigos. Meu ego sorriu e ficou felicíssimo!
No calendário litúrgico da Igreja Católica o dia 18 de 0utubro é dedicado a São Lucas, nosso patrono porque também foi médico, como afirma São Paulo na carta aos Colossenses, no capítulo 4, versículo 14, quando afirma: “Saúdam-vos, enfim, Lucas, o querido médico, e Demas”.
Lucas era médico de boa cultura, foi companheiro de São Paulo em algumas de suas missões expandindo o cristianismo pelo mundo antigo. É denominado amado médico porque ao mesmo tempo que ajudava São Paulo na sua missão evangelizadora curava os doentes que encontrava na sua trajetória missionária.
Lucas não conheceu Jesus Cristo pessoalmente, todavia deixou escrito em grego clássico dois trabalhos fundamentais para o cristianismo: um Evangelho e os Atos dos Apóstolos. Inicialmente formavam um só trabalho que, posteriormente, foi dividido em duas partes.
O Evangelho de Lucas, considerado o terceiro Evangelho, foi dedicado aos povos da Europa (gregos e romanos); procura mostrar a misericórdia de Jesus, sempre pronto a perdoar os que erram. Foi escrito com esse espírito porque aqueles povos eram politeístas, tinham diversos deuses; ora estavam no cristianismo, ora voltavam para as antigas religiões, desse modo Lucas procurou demonstrar que Jesus perdoava essas fraquezas graça a sua misericórdia.
Consta que Lucas entrevistou Maria, mãe de Jesus, daí o seu Evangelho narrar passagens da vida de nossa corredentora e da infância do Salvador, que não existem em outros evangelhos.
O Evangelho de Lucas possui capítulos belíssimos que deveriam ser lidos até por aqueles que não professam nenhuma religião, como a passagem do Filho Pródigo (Lc 15, 11-32) e aquele do Bom Samaritano (Lc 10, 25-37).
Outra obra importante de Lucas é o livro Atos dos Apóstolos, que registra a expansão do cristianismo após a ressureição de Jesus; esses dois livros bíblicos formam cerca de 23% do Novo Testamento, o que assinala a importância de Lucas na evangelização.
Hipócrates, grego considerado o pai da medicina, em 400 a.C. disse:” Onde houver amor pela arte da medicina, também haverá amor pela humanidade”.
Rogo a Deus que São Lucas ilumine o caminho de todos os colegas para que com trabalho, inteligência e muito amor possam recuperar a saúde de seus pacientes.
