Ao atravessar o rio Paraíba a fim de explorar ouro nos rios Grande, Negro e seus afluentes, estabelecendo-se com seus companheiros na junção dos córregos das Lavrinhas e de São Pedro, no local, hoje, denominado Triângulo dos Ferroviários, o mineiro Mão de Luva ( Manoel Henriques) nascido em Rio Branco (MG), jamais poderia imaginar que estaria dando origem ao mais velho e tradicional município fluminense no Sertão dos Índios Bravos, pois nesse ponto nasceria Cantagallo, conforme a grafia antiga. Alguns discordam que o fundador de Cantagalo tenha sido esse garimpeiro das Minas Gerais, considerando que nosso município só tenha sido fundado quando o desembargador Manoel Pinto da Cunha e Souza, em 02 de junho de 1787, foi nomeado pelo vice-rei D. Luiz de Vasconcellos para chefiar uma comissão destinada a construir uma cidade rica em ouro, como Vila Rica em Minas Gerais. A comissão era formada por um superintendente, um guarda-mor, um examinador das lavras, um escrivão, um tesoureiro, vários soldados, carpinteiros, pedreiros e um sacerdote.
Essa comissão construiu a Casa do Registro do Ouro, o quartel, as residências e uma simples capela, dando origem ao núcleo habitacional, que foi o embrião de Cantagalo, sendo em 09 de março de 1814 elevada à categoria de vila, emancipada de Santo Antônio de Sá, na baixada fluminense; região de Itaboraí. Conforme consta de artigo do meu caríssimo amigo e conterrâneo Dr. Clélio Erthal, desembargador Federal, em artigo publicado na edição nº. 1.245 do Jornal da Região, de 10.10.2013. Seria esse Manoel Pinto da Cunha e Souza o verdadeiro fundador de Cantagalo.
Bem cedo ficou constatado que a riqueza aurífera de Cantagalo era falsa, partindo seus novos habitantes para a agricultura, transformando Cantagalo no maior produtor de café da província fluminense e do Brasil, numa época em que Cantagalo possuía uma área de 7.000 Km². Riqueza vegetal construída graças ao trabalho dos escravos trazidos da África, cujos descendentes, nossos patrícios, contribuem ativamente nas artes e na cultura brasileira, aparecendo no teatro, na televisão, no cinema, na música, na literatura e, principalmente, nas diversas modalidades esportivas, apesar das discriminações que ainda sofrem.
À medida que o solo foi sendo enfraquecido para a cultura do café, surgiram os grandes rebanhos bovinos; Cantagalo com famosos criadores das raças zebuínas, como as famílias Lengruber, Monnerat, Lutterbach e Abreu; esta selecionando a raça Guzerat durante três gerações, obteve inúmeros prêmios em exposições nacionais e internacionais, tornando mais conhecido o nome de Cantagalo.
Ainda hoje o rebanho bovino de Cantagalo é calculado em 70.000 animais; possuindo nosso município a maior bacia leiteira da região, sendo o leite enviado, em grande parte para a bem organizada e dinâmica Cooperativa de Macuco; enquanto o nosso frigorífico no bairro do Cantelmo, tem capacidade para abastecer vastíssima região fluminense.
No final de 1969 Cantagalo penetrou no setor da indústria do cimento, hoje, Cantagalo tem em seu solo três fábricas de cimento, ocupando a posição de maior produtor de cimento do estado do Rio de Janeiro e terceiro do Brasil, todavia os cantagalenses não abandonaram os campos. Hoje, Cantagalo tem três grandes riquezas: cimento, carne e leite, orgulhos de nossa terra; sem citar nossa riqueza cultural com filhos ilustres em todos os ramos da atividade humana, no passado e no presente, como recentemente se destacaram Dr. Edmo Rodrigues Lutterbach e Dr. Geraldo Arruda Figueredo, ambos da procuradoria do Estado do Rio de Janeiro, e meus colegas no extinto Colégio Euclides da Cunha. Guardo profunda saudade de ambos!
Durante sua gloriosa história de 211 anos Cantagalo sofreu diversas amputações territoriais, a saber:
01 – 1820 – Em 03 de janeiro, criação do município de Nova Friburgo, levando parte dos municípios de Bom Jardim e Sumidouro.
02 – 1824 – Desmembramento de Aldeia da Pedra (hoje, Itaocara), com parte de São Fidelis, que passou para Campos.
03 – 1865 – Emancipação de Santa Maria Madalena, levando juntos São Sebastião do Alto e São Francisco de Paula (atual Trajano de Moraes).
04 – 1881 – Foi a vez do Carmo.
05 – 1890 – Sendo Cantagalo monarquista, com cerca de 20 títulos nobiliárquicos distribuídos entre sua elite, ao ser proclamada a república o governador Portela resolveu punir nosso município emancipando São Sebastião do Paraíba, Cordeiro e Macuco, como meio de enfraquecer nossa terra, todavia, um ano depois, o governador Porciúncula, sentindo que essas três localidades não eram autossuficientes economicamente as retornou ao município de Cantagalo.
06 – 1891 – Duas Barras.
07 – 1892 – Bom Jardim, juntando territórios de Cantagalo e Nova Friburgo.
08 – 1943 – Cordeiro, juntamente com Macuco que permaneceu como 2º distrito até ser emancipado em 1997. Desse modo, esses dois municípios só possuem o distrito sede.
Além dos municípios acima relacionados, com anos das emancipações, as terras de Cantagalo atingiam parte dos municípios de Teresópolis (próximo a Nova Friburgo), Sapucaia e Três Rios.
Na av. Rodolfo Tardin, no local denominado Praça das Bandeiras, Cantagalo mantem hasteadas as bandeiras de todos os municípios que aqui nasceram, é uma demonstração de amizade, carinho e respeito por seus filhos, embora alguns, levados por ambições, tentaram e tentam obter algumas de nossas riquezas, todavia Cantagalo, como o pai na passagem do Filho Pródigo (Lc. 15.11-32) os perdoa.
Júlio Carvalho.
