“Cantagalo no carnaval carioca”, por Julio Carvalho

Sempre considerei Cantagalo, cidade em que nasci, um município abençoado por Deus, capaz de se destacar mesmo nos momentos em que sofria perseguições de ordem política, como aconteceu na aurora da república brasileira, quando Cantagalo começou a ser desmembrado por ser monarquista.

No Império Nacional e durante anos da república destacou-se como o maior produtor nacional de café, durante mais de um século foi a terra do Guzerat-JA, conquistando prêmios nas exposições nacionais e internacionais de animais; exportando esses zebuínos para o Peru, Colômbia, e outros países da América Latina e África. 

Atualmente, com três fábricas de cimento, que duas vezes tentaram nos tomar, coloca-se como um dos maiores produtores nacionais desse importante material para a construção civil. 

Na realização da Jornada Mundial da Juventude (JMJ), no Rio de Janeiro, quando o saudoso Papa Francisco visitou o Brasil, o autor da logomarca era um cantagalense, Gustavo Huguenin; enquanto que o oficial da aeronáutica encarregado de pilotar o helicóptero que conduzia sua Santidade, era outro filho de Cantagalo, o Tenente-Coronel Luiz Cláudio Cunha Ottero. Ambos nascidos no centenário Hospital de Cantagalo, em minhas mãos.

Em 2025, creio que no mês de agosto, um grupo de pessoas da Escola de Samba do Estácio, esteve na Prefeitura Municipal com o objetivo de conhecer Cantagalo, berço de Tata Tancredo, que seria homenageado em 2026, no desfile de Carnaval no sambódromo. O grupo visitou a cidade e fez diversas fotos.

Esse ano, para nossa surpresa, o carro que abria o desfile da E. S. Estácio de Sá, era uma réplica do belíssimo coreto que ornamenta o centro da Praça João XXIII, autêntico cartão postal de Cantagalo. O coreto foi construído na administração do Prefeito Joaquim Gonçalves, projetado pelo senhor Leopoldo Ferreira Goulart, cidadão polivalente: dentista prático, teatrólogo, carnavalesco, desenhista, político e tabelião.

O autor teve a inspiração para projetar o coreto com motivos ecológicos: a base imita troncos de árvores, com vários animais da fauna brasileira: sapos, cobras e jacarés, de cujas bocas se projeta água, mantendo o nível do lago que circunda o coreto. Da base se elevam colunas semelhantes a hastes vegetais que sustentam a cobertura.

O autor do projeto e o prefeito executante do mesmo nasceram na terra de Euclides da Cunha, portanto, dois cantagalenses da gema.

A razão da réplica do coreto abrir o desfile da Estácio de Sá estava na figura do homenageado Tata Tancredo (Tancredo da Silva Pinto), cantagalense, descendente de escravos, provavelmente neto, nascido em Cantagalo, no ano de 1904, no dia 10 de agosto, filho de Belmiro da Silva e Edwirgens Miranda Pinto.

Muito jovem, Tata Tancredo passou a morar na cidade do Rio de Janeiro, na época Capital Federal, residindo no bairro do Estácio, provavelmente no morro de São Carlos, região do samba e da umbanda e outros ritos africanos. Descendente direto de escravos africanos, Tata Tancredo era profundo conhecedor da Umbanda, num momento em que os cultos africanos eram reprimidos dela polícia da cidade do Rio de Janeiro e proibidos no território brasileiro.

Tata Tancredo organizou associações e federações em defesa dos cultos de origem africana, defendo juridicamente sua legalidade não só junto ao governo carioca, mas também em outros estados como Minas Gerais, São Paulo, Espírito Santo, Pernambuco e Rio Grande do Sul, tornando-se figura conhecida nacionalmente. Seu conhecimento religioso e sua influência em várias unidades federativas do Brasil foi tão marcante que ele passou a ser considerado o Papa da Umbanda Omologô.

Além da sua luta pelo reconhecimento das religiões africanas, Tata Tancredo mantinha uma coluna semanal no Jornal O Dia; foi autor de cerca de dez obras sobre Umbanda, algumas em associação com outros autores.

Se não bastasse a intensa atividade religiosa, Tata Tancredo, também, foi autor de músicas carnavalescas e sambista, o que explica a justa homenagem recebida da Escola de Samba Estácio de Sá, no Carnaval deste ano. Este cantagalense faleceu na cidade do Rio de Janeiro, em 1979.

Enquanto um cantagalense era homenageado pela Estácio, outro conterrâneo, Tarcísio Zanon, obtinha vitória no grupo especial, como carnavalesco da E. S. Unidos do Viradouro, da cidade de Niterói, com o enredo “Pra cima, Ciça”; em homenagem ao chefe de bateria Ciça. A Viradouro foi vitoriosa com nota máxima em todos os quesitos.

Tarcísio Zanon é natural de Santa Rita da Floresta, 2º distrito de Cantagalo, filho de Guilherme Antônio Zanon de Souza e Aparecida Cruz Souza. Fez seus estudos iniciais no local do seu nascimento, posteriormente, fez o curso de desenho gráfico na Escola Técnica Federal, na cidade de Campos, sendo pós-graduado em Carnaval e Figurino pela Universidade Veiga de Almeida (RJ). 

Tarcísio iniciou no Carnaval do Rio de Janeiro em 2014, na Estácio de Sá; no ano seguinte foi campeão, na mesma escola, com o enredo “De braços abertos, de Janeiro a janeiro, Sorrio, Sou Rio, Sou Estácio de Sá”. Em 2019, repetiu o feito vitorioso, ainda na Estácio de Sá, com o enredo “A Fé que Emerge das Águas”. Estes dois títulos pela Série A.

Em 2020, já na Unidos do Viradouro, na série especial, conquistou o 1º lugar, com o enredo “Viradouro de Alma Lavada”; em 2024, repetiu o feito, tendo como enredo “Arroboboi, Dangbé”, e agora, em 2026, nova vitória, com “Pra Cima, Ciça!”. Como se pode observar, em onze anos como carnavalesco, o cantagalense Tarcísio Zanon obteve duas vitórias na Série A e três na Série Especial, o que é um grande feito.

A partir de agora, Cantagalo, a Capital do Calcáreo, cujos filhos já se destacaram em múltiplas áreas da atividade humana, também se destaca na festa mais popular do Brasil, o Carnaval carioca.

Avante Tarcísio!

Júlio Carvalho.

Júlio Marcos de Souza Carvalho é médico, ex-vereador e ex-provedor do Hospital de Cantagalo e atualmente é auditor da Unimed de Nova Friburgo
Júlio Marcos de Souza Carvalho é médico, ex-vereador e ex-provedor do Hospital de Cantagalo. Atualmente é auditor da Unimed de Nova Friburgo e vice-prefeito de Cantagalo.

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