“Cardápio que revela o povo”, por Amanda de Moraes

Do que se alimenta um povo? É uma pergunta que vai além da comida. Simples, porque diz respeito a algo do nosso cotidiano, mas, ao mesmo tempo, esquecida por muitos. À visão da maioria, desde que a própria vida esteja caminhando na zona de conforto, o conteúdo do alimento será quase nunca questionado. Aqui, o conceito de alimentar será ampliado.

Aquilo que o povo consome influencia diretamente o tipo de sociedade que se forma, disse Platão, em sua obra A República.  A formação de uma cidade começa pela base do espírito de quem a habita. Olhar para o conteúdo que fomenta a nossa alma, moldando a percepção do mundo e de si mesmo como indivíduo, é mais do que se meter no que o outro está assistindo. Diz respeito a todos.

O Instagram e o Tik Tok são bons medidores sobre o tema. Basta dar uma olhadinha na quantidade de seguidores que determinadas pessoas possuem e qual o conteúdo que elas geram.  Dia após dia, influencers, ainda que não tenham uma compreensão sobre isso, atuam politicamente na formação de um indivíduo.

Quem são as celebridades com maior número de seguidores? Ali está o foco de milhões de pessoas. Ali estão as referências (não tão silenciosas) que entram em nossas casas e persuadem para onde estamos caminhando.

Nas últimas semanas, a pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Tatiana Coelho de Sampaio, trouxe uma conquista que merece destaque. Longe dos holofotes e das mídias sociais, por mais de 25 anos, dedicou-se aos laboratórios universitários, pesquisando alternativas para que pacientes com lesões medulares pudessem voltar a andar ou recuperar algum grau de mobilidade. Embora ainda em fase de testes, a pesquisa, iniciada na década de 1990, já representa esperança concreta para muitas famílias.

Aí está um bom exemplo para nossas crianças: uma mulher, que, com consistência, perseverança e estudo, dedicou seu ofício àquilo que tivesse o poder de melhorar o mundo.

Doutora Tatiana exerce um trabalho longe das vaidades necessárias nos milhares de compartilhamentos.  Isso diz muito sobre tantas questões; diz sobre o valor do tempo em algo maior do que o aplauso imediato. Da importância de investirmos em pesquisas científicas e destinar o nosso precioso recurso público para essa finalidade. A importância das nossas universidades públicas, como centros de produção de conhecimento, formação de pesquisadores e desenvolvimento de soluções que impactam a sociedade.

Grande parte da ciência brasileira nasce nesses espaços, sustentada por investimento público e pela dedicação de profissionais. Isso demanda instrução, maturidade, tempo, disciplina, ou seja, a formação intelectual por meio da virtude.

Incentivar a admiração de conquistas como essa diz sobre o que queremos construir. Ao celebrarmos mais os cientistas, é certo que mais meninas e meninos cresçam, desejando investir o tempo em pesquisa acadêmica, inovação, descobertas e mais cientes do real valor de uma carreira.

Ao redefinirmos nossas referências, podemos encontrar respostas mais sólidas para o futuro que desejamos construir. Porque aquilo que escolhemos admirar revela, em última análise, o tipo de sociedade que estamos alimentando. E vai além da comida…

Amanda de Moraes Estefan é advogada, no Rio de Janeiro, e sócia do escritório Mirza & Malan Advogados. Ela é neta do ex-prefeito de Trajano de Moraes, João de Moraes
Amanda de Moraes Estefan é advogada, no Rio de Janeiro, e sócia do escritório Mirza & Malan Advogados. Ela é neta do ex-prefeito de Trajano de Moraes, João de Moraes

 

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