“É agosto, mas sempre dá tempo”, por Amanda de Moraes

De repente, julho chegou ao fim. Logo, entraremos em agosto. Já é mais da  metade do ano. Metade do tempo para cumprir promessas, satisfazer expectativas e chegar a objetivos.

Aos ansiosos, a passagem do tempo traz um alerta. Parafraseando o poeta, aqueles que se deixam levar pela fluidez da vida, que o mistério faça o seu trabalho.  Aos que tiveram boas conquistas, surge alívio por terem cruzado alguma linha de chegada.

O tempo voa, não descansa, não dorme. Por muito, passa despercebido, atropelando dias e noites, vida e sonhos. E diante de sua insistência, cabe a pergunta: estamos realmente presentes no dia a dia?

O tempo continua o mesmo, mas a sociedade mudou bastante. Não precisamos prestar tanta atenção aos ciclos da natureza, que marcam o ritmo da vida. Em seu lugar, um relógio no pulso ou um celular na mão. Trocamos a cadência orgânica pelo compasso artificial. Não há mais necessidade de observamos os detalhes do mundo para seguir o nosso dia. Trocamos a interação com o mundo por telas de led.

O tempo de uso nas mídias sociais causa espanto: “5 horas no Instagram? Não é possível!” Pois é, o feed de notícias é interminável.  Sem perceber, lá se foi uma hora com vídeos curtos, fake news e fotos de pessoas ultrafelizes. Receitas rápidas para o café da manhã, trends inúteis, em uma cultura do vazio interminável.

Enquanto isso, lá fora, no mundo real, o calendário escorre, como se a vida fosse inesgotável.  Em meio aos bombardeios de informações, deparamo-nos com notícias trágicas – pessoas que perderam a vida de forma inesperada.  Apesar dos instantes de comoção, logo retornamos ao fluxo de distrações, como se o fim fosse um assunto sempre do outro ou um tabu nunca a ser falado: “Toque três vezes na madeira. Não diga isso para não atrair.”

Viver lembrando constantemente que não somos eternos, que o tempo passa, e que, em breve, uma geração inteira deixará de existir não é sinônimo de tranquilidade. No entanto, com serenidade, se a finitude da vida estiver presente em nosso espectro, poderemos entender melhor o que vale realmente a pena: um colo, um sorriso, um café ou um banho quente?

Podemos encontrar conforto em pequenos atos do dia a dia, que, se não forem realizados no automático, tornam a vida mais agradável. E, se forem feitos com presença, fazem o tempo na lentidão do “para sempre”.

A vida possui o significado que damos a ela. Para Cristo, o sentido estava em ajudar o próximo. Para muitos, está em cuidar de animais, como missão profissional. Para outros, em ficar com a família, em modo off-line.

A vida, curta para tanta coisa, exige prioridade. Demanda escolhas. Impõe que sobrevivamos a eterna angústia da renúncia. Entre momentos de felicidade e de tristeza, continuemos para o lugar que, apesar de tudo, faz com que nos sintamos vivos. A sombra da finitude pode ser uma boa companheira, a que aconselha para o sentido maior de tudo. É agosto, mas sempre dá tempo.

Amanda de Moraes Estefan é advogada, no Rio de Janeiro, e sócia do escritório Mirza & Malan Advogados. Ela é neta do ex-prefeito de Trajano de Moraes, João de Moraes
Amanda de Moraes Estefan é advogada, no Rio de Janeiro, e sócia do escritório Mirza & Malan Advogados. Ela é neta do ex-prefeito de Trajano de Moraes, João de Moraes

Ver anterior

A importância do Programa Limpa Rio em Nova Friburgo

Ver próximo

Nenhuma cidade do RJ está entre as 20 mais perigosas do país

Comente

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mais Populares

error: Conteúdo protegido !!