“É muita alegria”, por Julio Carvalho

Aquele menino do interior, com nove para dez anos de idade, viajou para o Rio de Janeiro pela primeira vez, em companhia dos pais e do irmão mais novo, depois de vários preparativos: roupas e sapatos novos, além de inúmeras recomendações por parte da mãe. Depois de dez horas de viagem no trem da E.F. Leopoldina, tracionado por uma velha maria fumaça desembarcaram na estação de Barão de Mauá, onde era grande o movimento de pessoas, uns chegando e outros partindo nas composições noturnas com destinos para o interior do Rio de Janeiro e de Minas Gerais.

Tudo no Rio era novidade para o menino do interior; quando o taxi passou pela Praça da Bandeira, ele viu, no alto de um edifício, um leão vermelho iluminado, propaganda do Mate Leão, “aquele que já vem queimado”.  Cerca de 15 anos depois, já na faculdade, o jovem passou a ser chamado pelos colegas de mate leão, de tanto que ele protestava contra medidas que julgava injustas contra ele e os seus colegas de turma.

O Brasil estava envolvido na 2ª Guerra Mundial, com nossos patrícios lutando na Itália contra os nazistas; à noite, no Rio de Janeiro, bem como nas grandes cidades do país, havia o blackout, como um treinamento em caso de ameaça aérea por parte da aviação alemã. O que dificilmente poderia acontecer.

 No Rio de Janeiro ficaram hospedados na casa de seus padrinhos de batismo, que eram primos de sua mãe, todos da família Pinheiro. Foram realizados diversos passeios; a Petrópolis, onde visitamos o Museu Imperial, o menino daquela época guarda a imagem do túmulo de D. Pedro II e de Thereza Cristina, bem como das coroas imperiais, que foram símbolos do governo brasileiro durante meio século.

Conhecemos a praia de Copacabana, bem diferente da atual, com menor frequência de banhistas, número reduzido de veículos e ausência de biquinis, que surgiram muitos anos depois; todavia, o que mais impressionou o menino da época foi o número grande de pessoas com camisas com listas horizontais em vermelho e preto, sendo informado pelo padrinho de que eram torcedores do C.R. Flamengo, que havia conquistado o tricampeonato carioca.

O menino gostou da notícia e voltando ao interior procurou conhecer melhor aquela história. Apurou que a vitória decisiva fora contra o C.R. Vasco da Gama, 1 X 0, gol de Valido, reclamado, até hoje pelos adversários. Equipe campeã: Jurandir, Newton e Quirino; Biguá, Bria e Jayme; Valido, Zizinho, Pirilo, Tião e Vevé.

Muitos anos depois, já casado e morando na rua Pereira da Silva, em Niterói, conheci pessoalmente Zizinho, que viera residir em um apartamento defronte ao que eu residia. Cerca de 1,70 m. de altura, cabelos grisalhos, conversa mansa daqueles que se encontram realizados na vida. Era um bom bate papo.

Alguns anos depois, o encontro em Cantagalo, no Bar São Jorge, peregrinando pelo interior do estado do Rio de Janeiro, vendendo um livro sobre sua vida. Fiz questão de comprar um exemplar, que guardo com carinho até hoje.

Nove décadas depois, o menino de 1945, continua acompanhando a trajetória vitoriosa de seu clube de coração, o C.R. Flamengo. E quantas alegrias! Vez por outra uma pequena decepção. Seis vezes tricampeão carioca: 1942-43-44; 1953-54-55 (nesse tive a oportunidade de assistir quase todos os jogos, em companhia de meu colega e amigo judeu José Miguel Nigri, só não estive presente em duas partidas; 1978-79-79 (79 duas vezes não é erro. Nesse ano fizeram dois campeonatos cariocas, o Flamengo venceu ambos); 1999-2000-2001; 2007-08-09; e 2019-20-21. Creio que outros tricampeonatos acontecerão. O C.R.Flamengo é a agremiação mais vitoriosa no estado do Rio de Janeiro, 39 vezes campeão.

O Flamengo é o grande vencedor do Maracanã; além dos títulos de campeão carioca, conquistou 25 vezes a Taça Guanabara e 10 vezes a Taça Rio, além de treze títulos de menor expressão.

No exterior, por onde passou, o rubro-negro carioca deixou gravado o seu nome com novas vitórias em 25 torneios internacionais realizados em todos os continentes; enquanto em diversos estados brasileiros conquistou mais 10 torneios.

Na América do Sul, o Flamengo é o clube brasileiro que possui maior número de conquistas da Taça Libertadores, quatro vezes campeão: 1981, 2019, 2022 e 2025. O ano de 1981 o Flamengo conquistou, também, o campeonato mundial interclubes ao vencer, no Japão, o Liverpool, campeão inglês e europeu, por 3 X 0, no dia 13 de dezembro, com 2 gols de Nunes e 1 de Adílio. O Flamengo tinha um grande time: Raul, Leandro, Marinho, Mozer e Junior; Andrade e Adílio; Tita, Nunes, Zico e Lico. Apenas Raul e Lico foram contratados de fora, um mineiro e um catarinense, os outros nove preparados na Gávea. Criou-se a frase; “Craque o Flamengo faz em casa”. Técnico da equipe, Paulo Cesar Carpegiani.

A casa do Flamengo é o Maracanã, onde é comum um público de mais de 60 mil torcedores; enquanto a nação rubro-negra é estimada em 40 milhões de torcedores.

Feliz o momento, em 1945, em que o menino do interior achou bonita a camisa vermelha e preta, escolhendo o Flamengo como seu clube, foram oito décadas de muita alegria, com o Urubu voando cada vez mais alto.

                Júlio Carvalho. 

Júlio Marcos de Souza Carvalho é médico, ex-vereador e ex-provedor do Hospital de Cantagalo e atualmente é auditor da Unimed de Nova Friburgo
Júlio Marcos de Souza Carvalho é médico, ex-vereador e ex-provedor do Hospital de Cantagalo. Atualmente é auditor da Unimed de Nova Friburgo e vice-prefeito de Cantagalo.

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