Podemos dizer que os seres humanos são moldadores. Moldadores da realidade. Líderes mundiais ditam o rumo de uma sociedade inteira. A todo momento, permitimos que algumas pessoas entrem em nossas vidas. Decidimos caminhos profissionais, quando as circunstâncias permitem. Participamos ativamente da construção do presente que vivemos. Ainda assim, não é raro sentir que a vida parece estar distante daquilo que imaginamos como ideal. E quando isso acontece, resistimos. Não aceitamos com facilidade que muitas das coisas que, em nossa percepção, nos trariam felicidade não aconteçam, ou seja, se percam pelo caminho. Entramos em conflito com a instabilidade da vida, querendo, a todo custo, o refúgio do que é seguro, previsível e confortável.
Aí está uma das grandes causas do sofrimento humano: a dificuldade de aceitar aquilo sobre o qual não temos ingerência. Nesse ponto, os estoicos oferecem uma lição que atravessa séculos. No início de um novo ano, há quem esteja empolgado com as novas oportunidades. Outros, rezando por coragem para aceitarem o que não faz mais parte de sua própria vida. Alguns querem apenas usufruir do que já conquistaram. Seja a pessoa a carregar uma listinha, seja a pessoa que chora escondida no banho, a vida pode ter um tom diferente se aceitarmos que ela nos tira, nos dá, nos faz sorrir e nos faz chorar, como uma montanha-russa.
Epicteto, filósofo estoico e mestre do imperador romano Marco Aurélio, dedicou seus ensinamentos a ajudar as pessoas a lidar com esses desafios inerentes à condição humana. Seu princípio era simples e, ao mesmo tempo, profundo: distinguir o que está sob nosso controle daquilo que não está. Para ele, a liberdade e a felicidade começam exatamente nesse entendimento.
Na obra A Arte de Viver, uma adaptação de seus ensinamentos e palestras, explica-se que estão sob nosso controle nossas opiniões, decisões, desejos e atitudes, tudo aquilo que pode ser transformado pela ação consciente. Fora desse campo estão fatores como a família em que nascemos, as características físicas, as escolhas dos outros, a forma como somos vistos pelo mundo, entre outros.
Sempre que tentarmos controlar o que está fora do nosso controle, sentiremos angústia e frustração, porque não está à nossa disposição: “Aceita, que dói menos!” São questões do outro. Ocupar-se disso é como tentar segurar a água com a mão.
Se uma pessoa deseja ir embora de sua vida, deixe. Se algumas pessoas não gostam de você, deixe. Se não querem você ao lado, deixe. A dor de tentar segurar algo é maior do que a dor de deixar ir.
É claro que entre o que deve ser feito e o que realmente conseguimos fazer há, em alguns casos, um espaço considerável. No entanto, somos moldados pela nossa prática. Um novo hábito, no início, nunca é fácil e confortável. Com o tempo, as coisas se assentam. Dessa forma, igualmente, é a forma com que enxergamos o mundo. Aplicar conceitos filosóficos na própria vida é requer disciplina, observação e prática. Em outras palavras, o otimista condicionou-se a observar mais um lado da história.
E, quando tudo parecer pesado demais, talvez valha tirar um tempinho para ouvir Let It Be, dos Beatles, para permitir doses de sabedoria: deixe estar. E, se as dificuldades aparecerem, deixe estar… com a esperança necessária a qualquer luta. Com a alegria de viver o encantamento pela vida. Neste novo ano, um lembrete de Epicteto – a felicidade real só pode ser encontrada dentro de nós.
