“Finados”, por Julio Carvalho

Herdamos do povo judeu o culto e o respeito à memória dos falecidos, ficando estabelecido o dia 2 de novembro como Finados, precedido pelo Dia de Todos os Santos; data em que são comemorados todos aqueles desconhecidos que foram santificados por Deus por seus méritos durante a vida humana. É infinito o número de santificados, como podemos ver na leitura bíblica: “Depois disso, vi uma multidão imensa, que ninguém podia contar, gente de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam de pé diante do trono e do Cordeiro; vestiam túnicas brancas e traziam palmas na mão. Todos proclamavam com voz forte: ‘A salvação pertence ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro’ (Ap. 7,9-10). Por esta leitura observa-se que o número de santos desconhecidos supera o daqueles que foram canonizados pela Igreja. É um mistério insondável!

             Voltando ao Dia de Finados, anualmente nesta data, visito o cemitério municipal, onde realizo verdadeira romaria, procurando orar pelos mortos e, ao mesmo tempo, realizando reflexões sobre a vida dos que já partiram e hoje tem apenas o nome gravado em uma lápide e a lembrança do que realizaram na breve vida dos humanos.

             Começo pelo túmulo de meus pais e irmãos, vejo os retratos que lá se encontram e relembro com profunda saudade a época em que habitávamos no nosso lar; dos ótimos exemplos deixados por nossos pais, de amor, sabedoria, trabalho e dignidade. Da minha irmã, seis anos mais velha do que eu, ensinando-me português e latim quando cheguei ao ginasial. Acompanhando-me ao dentista, quando era necessário. Criatura maravilhosa!

             Meu irmão Maurício, cidadão desprovido de ambições, advogado que só atuava em defesa de humildes e pobres, na época em que não havia a Defensoria Pública. Certa época ingressou na política, sendo eleito vereador por três mandatos, chegou à Presidência da Câmara Municipal, combatendo sempre a improbidade administrativa do executivo. Depois, repentinamente, afastou-se de toda atividade política. Creio que ficou descrente! Cuidou da nossa mãe até o final da sua vida com carinho e com total dedicação.

               Visito, com Letícia e com Márcio, o túmulo da família Ventura, onde estão recolhidos os restos mortais de meus sogros e de inúmeros membros da família, a começar pelo casal Venceslau e Ermelinda Ventura, italianos que vieram para o Brasil, passaram por inúmeras vicissitudes e triunfaram na vida depois de muito trabalho e sacrifícios. Amavam tanto o Brasil que de Venturi passaram a Ventura!

               Vou ao túmulo de Maria Coimbra Vieira, vovó Mariquinha, minha bisavó materna; que criou minha mãe, órfã de mãe aos sete meses de existência. Passo pela última morada de minha única sobrinha, Débora, falecida aos 58 anos de idade, serenamente em seu quanto, junto de mim e da fiel Benedita. Quadro triste que jamais saiu de minha memória.

              Depois de visitar os túmulos dos parentes mais  próximos faço uma peregrinação pelo campo santo, sozinho, visitando parentes mais distantes, alguns que eu nem conheci, mas que acompanhava minha saudosa mãe que não deixava de fazê-lo anualmente, enquanto suas pernas permitiram. Passo pelo túmulo da mulher que me amamentou quando o leite materno desapareceu, rezo um pouco e deixo algumas rosas. Vou ao sepulcro de minha querida madrinha de batismo, prima irmã de minha mãe. Pessoa que durante dez anos de acolheu em sua casa, na Tijuca; junto com seu marido não foram padrinhos que possui, foram meus segundos pais, deram-me todo apoio e carinho durante minha vida de estudante no Rio de Janeiro. A eles minha eterna gratidão e saudade.

              Sigo até o túmulo de meus avós Souza Carvalho, sepulcro que era revestido de azulejos brancos, todavia quando eles ficaram profundamente danificados pela ação do tempo, resolvi substitui-los por pedras decorativas, simbolizando a dureza, a persistência e a resistência dos imigrantes portugueses que chegando ao Brasil no meado do século XIX, com muita coragem, sacrifício, dedicação e intenso trabalho venceram, conquistando novo padrão de vida. Sinto enorme orgulho de minha origem lusitana!

             Vou ao piso superior, onde estão sepultados diversos membros das famílias Pinheiro e Vieira de Carvalho, ancestrais de minha mãe. Pioneiros na colonização do primitivo e vastíssimo município de Cantagalo; que se espalharam pelos atuais municípios de Duas Barras, Carmo, Sumidouro, Cordeiro e Bom Jardim, onde, até hoje, vivem seus descendentes, meus parentes distantes.

                   Nessa caminhada faço algumas reflexões enquanto observo alguns fatos. Vejo o túmulo de um nobre do Brasil imperial, completamente esquecido. Narra a história, que foi um dos homens mais ricos do império, possuidor de mais de duas dezenas de propriedades rurais, de inúmeros imóveis em nossa região e no Rio de Janeiro. Para que serviu toda a sua riqueza? Lembrei-me da frase inteligente do querido e saudoso Papa Francisco: “Nunca vi uma carreta de dinheiro acompanhando uma urna funerária”.

                  Passo por túmulos de homens influentes, líderes políticos que projetaram o nome de Cantagalo, vejo muita poeira e nenhuma flor. Penso de que vale o poder? É fugaz e transitório; logo esquecido pelo povo.

                 O mesmo quadro de abandono e de esquecimento familiar e popular observo na última morada de médicos e outros benfeitores da nossa população,

túmulos sujos, com poeira, jarras quebradas, crucifixos abandonados sobre os mesmos. Quanta indiferença e ingratidão dos que foram beneficiados!

                No piso mais alto passo por um homem, um patrício afro-brasileiro, agachado, compenetrado e orando, enquanto lutava contra o vento que tentava apagar a única e magrinha vela que acendera na cova rasa. Era um exemplo de amor e saudade por um ente querido que partira para a eternidade. Foi o que faltava nos belos mausoléus erigidos para os ricos e importantes. Lembrei-me da passagem da

Bíblia: “Felizes os humildes de espírito, porque deles será o Reino dos Céus” (Mt. 5,3).

                                                Júlio Carvalho. 

Júlio Marcos de Souza Carvalho é médico, ex-vereador e ex-provedor do Hospital de Cantagalo e atualmente é auditor da Unimed de Nova Friburgo
Júlio Marcos de Souza Carvalho é médico, ex-vereador e ex-provedor do Hospital de Cantagalo. Atualmente é auditor da Unimed de Nova Friburgo e vice-prefeito de Cantagalo.

 

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