“Guerra ou Genocídio?”, por Julio Carvalho

Durante a segunda guerra mundial, 1938 a 1945, era editada uma revista denominada Em Guarda, ótima impressão; era enviada a diversas pessoas de Cantagalo graciosamente. Mensalmente meu pai recebia a revista, que além de notícias da Força Expedicionária Brasileira que participava dos combates em solo da Itália, trazia diversas reportagens de outras frentes de batalhas.

Com dez anos de idade, sempre que podia, escondido pegava a revista para ler toda campanha dos aliados na Europa. Depois dos avanços iniciais dos nazistas, anexando a Áustria, massacrando a Polônia, conquistando a Tchecoslováquia e a França, havia uma ótima reportagem sobre o Dia D, em que norte-americanos, ingleses e canadenses, usando  todo tipo de embarcações, desde os diversos navios da marinha de guerra, até embarcações civis, partindo do sul da Inglaterra conseguiram desembarcar no norte da França, na Normandia, com grande perda de soldados venceram o bloquei alemão, apoiados pelo bombardeio da aviação aliada. A partir do Dia D o destino da guerra começou a mudar.

Na parte oriental da Europa, a ousadia dos nazistas invadindo a Rússia também custou caríssimo aos sonhos de Hitler de conquistar toda Europa. Inicialmente, à medida que recuava, o exército russo ia destruindo tudo que pudesse ser útil aos alemães. Em São Petersburgo a resistência russa foi terrível e as batalhas eram de rua em rua. Finalmente, com a chegada de tropas russas que se encontravam no extremo oriental do país temendo um ataque japonês, os alemães foram derrotados; permanecendo prisioneiros na Rússia durante dez anos ou mais, obrigados a reconstruir o que a guerra causou. Isso aconteceu com um alemão, pai de um colega meu no Colégio Batista. Era considerado morto na guerra, reaparecendo muito anos mais tarde, depois que foi libertado da prisão na União Soviética, que ele ajudou a invadir, sendo obrigado a reconstruir

O mais triste publicado nessa revista, depois que os aliados foram avançando sobre a Alemanha e Polônia, eram as fotos dos campos de concentração nazistas, onde eram presos ciganos, homossexuais e, principalmente, os judeus. Presos em diversos pontos da Europa, eram embarcados em trens, em vagões semelhantes aos que transportam o gado bovino nos dias de hoje. Chegando ao destino, as famílias eram separadas, homens para um lado, mulheres para outro; narram que os velhos, as crianças e os portadores de deficiências físicas ou mentais eram executados.

Internados nos campos de concentração eram submetidos a longas horas de trabalho pesado, recebendo alimentação hipocalórica, o que determinava um emagrecimento acentuado. Quando não serviam mais para o trabalho eram mortos em câmaras de gás e os corpos incinerados. Calcula-se que seis milhões de judeus tiveram esse destino durante a segunda guerra mundial. É o inaceitável holocausto do povo judeu.

A revista Em Guarda mostrava essas terríveis fotos de seres humanos esqueléticos, caídos, impotentes para se levantarem ou de mortos empilhados, abandonados pelos nazistas que fugiram ante a chegada dos aliados. Essa terríveis imagens vistas na minha infância jamais foram esquecidas.

Certa vez, visitando a cidade de Natal, encontrei em uma livraria um livro escrito por uma judia, sobrevivente de um campo de extermínio em que ela narra todos os horrores por que passou, inclusive eram marcadas no antebraço com um número pelo qual passavam a ser identificados.

Depois de terminar a leitura, fui à agência do correio e o enviei de presente para um colega de turma, judeu que morava na Tijuca, grande amigo, companheiro de jogos do Flamengo e das longas noites de estudo no período de duras provas na Faculdade de Ciências Médicas, colocando a seguinte dedicatória: “Caríssimo colega, envio-lhe este livro, escrito por uma sobrevivente de um campo de concentração, para que você possa avaliar o quanto seu povo sofreu. Espero que estes absurdos jamais ocorram na história da humanidade!”

Enganei-me completamente, 80 anos depois vejo as mesmas imagens de cidades destruídas e de crianças e mulheres esquálidas, algumas morrendo famintas, vítimas de um bloqueio por terra e mar. E o pior é que os causadores desses atos desumanos são os mesmos que sofreram nas mãos dos nazistas, os judeus. E as vítimas os palestinos.

Diariamente os meios de comunicação anunciam:

– Cortado o abastecimento de combustível para a faixa de Gaza.

– Cortado o fornecimento de água potável para a faixa de Gaza.

– Deslocamento em massa dos palestinos para o sul, na fronteira com o Egito. 

– Deslocamento em massa dos palestinos para o norte, na fronteira com o Líbano. 

– Bloquei do transporte humanitário para a faixa de Gaza.

– Destruição de 75% das habitações da faixa de Gaza pelos bombardeios israelenses. 

– Hospitais bombardeados, onde se encontravam escondidos terrorista do Hamas.

– Escolas bombardeadas, onde se refugiavam membros do Hamas.

– Palestinos às margens do mar Mediterrâneo, sem água, são impedidos de usar o mar, com risco de serem metralhados. 

– 47 militares israelenses se suicidaram desde o início da guerra em 2023

– Desde o início da guerra, outubro de 2023, 10.000 militares israelenses encontram-se em tratamento psiquiátrico e psicológico em consequência dos horrores da guerra.

– Israel tem plano de deslocar 800.000 palestinos da cidade de Gaza até 7 de 0utubro próximo.

– Netanyahu deseja ocupar toda a faixa de Gaza.

– Mais de 1.700 palestinos foram mortos buscando alimentação na Palestina (ONU).

– Israel planeja aprovar plano para dividir a Cisjordânia (15.08.25)

– Quase 200 jornalistas morreram em Gaza desde 2023 (12.08.25).

– Grupos de direitos humanos de Israel acusam país de genocídio em Gaza (29.07.25).

– Trump contradiz Natanyahu: “há fome de verdade em Gaza” (29.07.25).

– Alemanha anuncia ponte aérea para levar suprimentos a Gaza (29.07.2025).

– Até o mês de junho-25 foram mortos 55.000 palestinos, a maior parte civis, vítimas dos bombardeios pesados de Israel; a maioria velhos, mulheres e crianças

Os jornais noticiam sobre a Guerra na Faixa de Gaza, para mim não se trata de guerra tamanha a disparidade de armas e os absurdos cometidos pelos israelenses; para mim estamos assistindo a um genocídio dos palestinos. Para os que têm dúvida basta apelar para os dicionários: Genocídio – “Intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico ou religioso; crime contra a humanidade”. É o que estamos assistindo.

Infelizmente, as grandes potências permanecem indiferentes diante do massacre de um povo, que assiste a redução cada vez maior de seu território conquistado por um vizinho de espírito expansionista. Em 1948, ao ser criado, Israel possuía uma área de 20.770 Km²; hoje, ocupa 27.800 Km², crescimento com territórios tomados dos árabes em cada guerra ocorrida desde a sua criação; amanhã será um pouco maior após a tomada da Faixa de Gaza e destruição dos palestinos.

Como médico tenho o dever de lutar pela preservação da vida. Sei que esse meu protesto pouco valerá, mas dormirei mais tranquilo com a minha consciência.

       Júlio Carvalho.

Júlio Marcos de Souza Carvalho é médico, ex-vereador e ex-provedor do Hospital de Cantagalo e atualmente é auditor da Unimed de Nova Friburgo
Júlio Marcos de Souza Carvalho é médico, ex-vereador e ex-provedor do Hospital de Cantagalo. Atualmente é auditor da Unimed de Nova Friburgo e vice-prefeito de Cantagalo.

 

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