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“Estabeleço convosco a minha aliança: não acontecerá novamente que toda a carne seja exterminada pelas águas de um dilúvio. Não haverá mais dilúvio para devastar a terra”. Gn 9.11
Naquela segunda feira, 02 de fevereiro, o expediente na Prefeitura Municipal de Cantagalo correra de modo tranquilo, dentro da rotina. Faltando poucos dias para o Carnaval, o secretário de cultura e turismo compareceu ao gabinete da Prefeita para tratar dos últimos preparativos. Deveria ser uma festa imponente como ocorre em Cantagalo anualmente
Por volta das 17.30 horas, a Prefeita embarcou para mais uma viagem de 36 Km. até sua residência em São Sebastião do Paraíba, através estrada de terra, danificada pelas chuvas noturnas que caiam sobre o município. Jamais poderia imaginar que por volta das 22 horas seria alertada por telefonemas de dois vereadores comunicando-lhe que dois distritos de Cantagalo estavam inundados por violentas chuvas, com a população em alto risco de vida. Imediatamente, parte para Cantagalo e segue para o local com os Secretários de Defesa Civil, Assistência Social, Obras e Serviços Públicos e de Transporte. A situação, todavia, era pior do que o esperado, na RJ 125 não conseguem passar, as chuvas destruíram parte da estrada. Voltam e tentam passar pela RJ 133, outra frustação, no pequeno trecho de três Km. que até hoje o governo estadual não asfaltou, embora as promessas sejam várias, por anos seguidos e diversas administrações, o deslizamento de barreiras impediam a passagem.
Foi obrigatória a volta e passagem por Itaocara, retornando até Boa Sorte nosso 5º Distrito de Cantagalo, onde chegaram as 2.30 da madrugada, numa viagem de quase 100 Km. O cenário era de guerra, com as ruas cobertas de lama, pedras, restos de árvores e destroços de móveis arrancados de diversa residências pela força das águas.
No córrego Boa Sorte, as águas destruíram a ponte do Bairro Santa Cecília, refeita pelo governo municipal há menos de um mês; enquanto isso, as águas do córrego do Túnel arrastaram um velho e abandonado ônibus para o seu leito, causando obstrução das águas e aumentando a inundação da localidade.
Chegando a Euclidelândia a situação também era caótica, com inundação da parte baixa, antiga estação da ferrovia, ginásio de esportes e todas as residências da área. Uma Kombi e outro veículo, arrastados pela correnteza, encontravam-se totalmente retorcidos. No bairro Industrial, barreiras enormes rolaram obstruindo as vias de acesso. Na fábrica Votorantim, um grande galpão, não resistindo à força das chuvas ruiu, ferindo gravemente o vigia que ali se encontrava.
Se nos núcleos urbanos a situação era gravíssima, na zona rural não era diferente; estradas vicinais destruídas, barreiras incontáveis em múltiplos locais, com seres humanos isolados e desprovidos de energia elétrica em virtude da queda de postes de sustentação da rede. No Portozil, Euclidelândia, um proprietário rural perdeu a residência, o veículo e um trator, sem citar as pastagens, as cercas e outros bens.
Em Euclidelândia, ruiu um muro da E. M. Elestar Caetano Mendes, todavia o prédio não sofreu danos, foi apenas inundado.
Apesar de tamanha destruição não havia perda de vidas humanas. Alguns moradores atribuíam o fato de as chuvas violentas caírem às 21.00 h, quando todos ainda estavam acordados e puderam fugir para locais mais elevados, enquanto a energia elétrica permaneceu firme, permitindo que todos se orientassem em busca de abrigos mais seguros. Para os religiosos foi a mão de Deus. Para os moradores de Euclidelândia, foi mais um milagre de Santa Rita, a santa das causas impossíveis.
Euclidelândia e Boa Sorte foram atingidas por dois dilúvios seguidos: no dia 02 de fevereiro, à noite, 164 mm.; na madrugada do dia 04, mais 80 mm.
Um levantamento realizado pela Secretaria de Apoio Social mostrou o seguinte resultado:
Casas danificadas…………………………………..50
Casas destruídas…………………………………….02
Moradores afetados…………………………..3.416
Desalojados (em casas de parentes) ……….280
Feridos…………………………………………………..01
Desabrigados………………………………………….00
Desaparecidos……………………………………….. 00
Mortos……………………………………………………00
Desde o início do grave fenômeno atmosférico a Rádio 94 FM (Cordeiro) e a AFRA PX Clube (Associação Friburguense de Rádios Amadores) passaram a divulgar o ocorrido, solicitando socorro para a região atingida.
O DRM (Departamento de Recursos Minerais) registrou na RJ 152, entre Cantagalo e Laranjais, 199 desabamentos de terra, com destruição de um trecho da rodovia entre Cantagalo e Euclidelândia. Em diversos pontos esta rodovia se encontra em meia pista.
De imediato foi instalada uma base do SAMU em Euclidelândia para atender os dois distritos atingidos; com orientação para remover para o Hospital de Itaocara as urgências, caso Cantagalo permanecesse sem acesso.
A empresa JMF- Saúde, voluntariamente, permaneceu de plantão nos finais de semanas, com médico e enfermeira.
Se por um lado os danos causados pela força da natureza foram enormes, por outro serviu para demonstração da solidariedade humana. Imediatamente, como se tudo já estivesse preparado, surgiram máquinas pesadas da P.M. de Cantagalo, do Estado do Rio de Janeiro, da Votorantim, retirando barreiras e permitindo o acesso a moradores que ficaram isolados na zona rural.
Os trilheiros com suas motos prestaram um relevante serviço de socorro, levando alimentos, água potável, roupas e agasalhos aos locais inacessíveis por outros meios.
Das outras partes do município de Cantagalo e dos municípios vizinhos, não parava de chegar nas duas localidades, água, alimentos, agasalhos, roupas e calçados de todos os tipos.
Jipeiros atuavam bravamente, conduzindo a Prefeita e outros membros do governo municipal para socorrer pessoas em áreas isoladas.
As igrejas de várias religiões permaneceram vigilantes e atuantes, recebendo doações e preparando alimentação para os atingidos pelas chuvas.
A Marinha do Brasil, através do Corpo de Fuzileiros Navais, com a FRIDA (Força de Resposta Imediata aos Desastres Ambientais) se fez presente com um grupo de 90 militares, sob o comando do Capitão de Mar e Guerra Leonel; permanecendo alojados na E. M. Elestar Caetano Mendes. Este grupamento trouxe máquinas pesadas que foram importantes na retirada de barreiras que obstruíam as estradas.
No momento da partida para o Rio de Janeiro, o Comandante Leonel condecorou com uma medalha da Marinha de Guerra a Prefeita Emanuela pela sua atuação durante a inundação, e o Vereador Nelson Timóteo, por seu trabalho orientando os militares em relação às estradas profundamente danificadas. As demais pessoas que colaboraram com os fuzileiros receberam um boné da Marinha do Brasil.
À medida que as estradas eram recuperadas os veículos da Enel avançavam com seus funcionários, recuperando as redes elétricas destruídas permitindo a eletricidade chegar às regiões rurais.
Outro grupo que teve uma atuação marcante foi o pessoal das Águas do Rio, comparecendo com grande quantidade de tubulações, recompondo os dutos destruídos. Ao mesmo tempo, com seus caminhões pipas, participavam da limpeza das ruas dos dois distritos cantagalenses.
Com menos de trinta horas o Governo do Estado já havia construído uma passagem provisória ligando a área atingida à sede do município, permitindo o tráfego de veículos leves e caminhões pequenos.
A região também foi visitada por dois Deputados Federais e um Estadual, além de muitas autoridades estaduais, todos empenhados em conseguir ajuda para a recuperação dos diversos danos ocorridos no município de Cantagalo.
No dia 13 de fevereiro esteve nas regiões atingidas o ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional, Sr. Waldez Góes, cumprindo determinação do Presidente da República.
Os danos causados pelas pesadas chuvas são enormes, todavia a solidariedade humana e o apoio de várias áreas governamentais, fazem renascer a esperança de que toda região será recuperada, depois de um longo trabalho.
Júlio Carvalho.
