A família tradicional brasileira, como o próprio nome anuncia, se mantém fiel ao rito. Em muitos lares, o Natal é a prova viva disso.
A ceia impecável, o arroz com passas. Ninguém gosta de passas, mas é tradição — então todos comem sem reclamar, enquanto os mais ousados as empurram discretamente para o canto do prato. A toalha vermelha na mesa, porque é Natal, ao som da harpa com Jingle Bells. Está tudo cercado por um ambiente acolhedor de pisca-pisca, Papai Noel espalhado pela casa e um presépio que comove ao lembrar o nascimento do menino Jesus.
Até aqui, tudo bem. É um enredo feliz.
Mais a fundo, existem os bastidores. Neles, estão as funcionárias não remuneradas que, todos os anos, fazem mágica para que a fantasia natalina aconteça. Porque, na prática, há sempre duas ceias: a que todos compartilham à mesa e a invisível, sustentada — por tradição — ano após ano, pelas mulheres.
São elas, em grande maioria, que vão ao mercado comprar os ingredientes. Que ligam para fazer encomendas. Calculam a média de ingestão de cada convidado. Lembram-se de que um ou outro podem não consumir carne de peru. Que entram na cozinha muitas horas antes da festa. Arrumam a mesa. Servem a comida. E, entre uma tarefa e outra, ainda separam a roupa das crianças e do marido: escolhem, passam, vestem.
Semanas antes do dia 25, os preparativos já começam. Não é raro ver um homem orgulhoso por ter contribuído com o evento: foi ao mercado e comprou uma caixa de cerveja (gelada). Um feito realmente extraordinário! Quando alguma mulher demonstra cansaço ou irritação, o espanto é geral: “Mas é Natal, por que você está assim?” E muitos homens não ousariam, nem por amor, mudar a tradição: longe da cozinha; longe da arrumação.
Entre o afeto e a exaustão, elas ainda encontram forças para sorrir na foto natalina, participar do Amigo Oculto e perguntar se estão todos bem, precisando de alguma coisa.
Por ser o aniversário de Jesus, símbolo do amor ao próximo, é preciso fazer uma reflexão: é ético ser apenas servido? Em Marcos, na sagrada leitura, uma resposta pode intrigar aquele que jamais lavou a louça numa noite de Natal: “Pois nem mesmo o Filho do homem veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.”
Que, nesta noite de Natal, as luzes possam refletir atitudes mais nobres entre quem faz questão de celebrar o nascimento de Cristo. Assim seja a nossa tradição!
