“O preço da fuga: quando evitar conflitos rouba a sua paz”, por Jalme Pereira

Antes de começar, a pessoa pensa: “Não quero parecer grosseiro… Depois, a gente vê isso com calma… “Não vale a pena discutir isso agora… Se eu falar, posso magoar…Melhor deixar assim mesmo… Com o tempo, isso se resolve sozinho…” Essa é a trilha mental de quem tem o Esquivo como sabotador dominante.

Por muito tempo, Mário teve um amigo que vivia pedindo ajuda — e ele sempre atendia. Mesmo que isso significasse renunciar ao seu tempo com a família, as horas de descanso ou de momentos importantes para si. A relação era desequilibrada. Mário acreditava que ser generoso era parte de quem ele era.

Um dia, esse amigo simplesmente sumiu. Mário notou sua ausência por mais de dois anos, mas não questionou. Pensou: “Cada um tem seu tempo e seu caminho. Tudo bem.” Até que, inesperadamente, o amigo reapareceu. Disse que, nesse tempo, havia feito treinamentos com outros mentores, mas que os resultados não foram bons. E, agora, queria voltar a conversar com Mário — só que estava sem dinheiro.

Aquilo mexeu profundamente com Mario. O deixou profundamente frustrado — e, acima de tudo, o fez refletir: “Quando era de graça, eu servia. Quando ele teve dinheiro, procurou outro. Agora, volta como se nada tivesse acontecido.” Mário respirou fundo e, com firmeza e serenidade, respondeu: — Meu amigo, posso te ajudar sim, mas no momento estou sem agenda. Todo o tempo que dedico ao trabalho probono já está ocupado. Se puder esperar, te encaixo assim que possível. Resultado, o amigo se afastou novamente — e nunca mais voltou.

Foi ali que Mário entendeu algo importante: por muito tempo, não foi generoso… foi esquivo. Ele evitava o desconforto de se posicionar, mesmo que isso o ferisse por dentro. Essa é uma armadilha clássica do sabotador Esquivo: Parecer gentil e prestativo por fora, mas, por dentro, acumular frustração, desgaste emocional e, às vezes, até mágoa.

O Que Está Por Trás do Comportamento Esquivo?

Esse é o problema central do sabotador esquivo: ele troca paz temporária por um preço emocional alto. Pessoas com esse sabotador ativo: se tornam ressentidas, acumulam frustrações e, muitas vezes, atraem relações abusivas ou desequilibradas, onde dão muito mais do que recebem. O sabotador Esquivo age em nome da harmonia, mas esconde a verdade embaixo do tapete. Ele convence a pessoa de que manter a paz a qualquer custo é mais nobre do que enfrentar os conflitos

Comportamentos Comuns do Sabotador Esquivo

  • Evita conflitos, suprime emoções, engole sapos e posterga decisões importantes mesmo quando precisa se posicionar. E o que parece calma por fora, vira ansiedade por dentro. 
  • Não expõe seus sentimento e vontades, com medo de desagradar. 
  • Aceita compromissos que o sobrecarregam, só para manter a “boa imagem”. 
  • Ignora seus próprios limites, para não gerar desconforto nos outros. 
  • Prefere manter uma aparência de harmonia, mesmo quando há um furacão interno. 

No fundo, ele sabe que deveria se posicionar, falar, agir. Mas algo o bloqueia. E essa omissão silenciosa vai cobrando seu preço com o tempo: cansaço emocional, sensação de ser invisível, baixa autoestima e relações tóxicas que se prolongam por medo do confronto.

De Onde Vem Esse Medo de Conflito?

Pode vir de ambientes onde o conflito era perigoso, violento ou nunca resolvido. Frases como “não arrume confusão”, “engole o choro”, “seja bonzinho(a)” ou “não fale alto” foram internalizadas como verdades. Assim, a pessoa aprendeu que evitar desconforto é uma forma de se  proteger — mesmo que hoje, na vida adulta, isso a impeça de crescer, se expressar ou se impor.

7 Passos Para Reduzir o Poder do Esquivo

A boa notícia é que sim, é possível reduzir (e até silenciar) esse sabotador. Mas isso exige coragem, autoconhecimento e treino emocional. O primeiro passo é entender que conflito não é sinônimo de briga. Conversas difíceis podem ser respeitosas. Discordar não significa desrespeitar. Expressar sentimentos é necessário. E negar alguma coisa não faz de você uma pessoa ruim — faz de você alguém com limites saudáveis.

  1. Reconheça o padrão de fuga: Sempre que sentir vontade de evitar uma conversa ou situação, pare e observe. Isso é medo real ou desconforto emocional?
  2. Reconheça o custo do silêncio: Evitar conflitos não os resolve — apenas os adia. Muitas vezes, com juros.
  3. Respire e ganhe presença: O Esquivo atua no automático. Respirar profundamente ajuda a interromper esse ciclo e retomar o controle da ação.
  4. Pratique pequenas exposições ao desconforto: Comece dizendo o que pensa em situações mais simples. Com o tempo, aumente a complexidade. O importante é agir, mesmo com medo.
  5. Use a técnica do “feedback com empatia”: Fale de forma clara, usando exemplos e com foco no comportamento, não na pessoa. Exemplo: “Percebi que houve um atraso na entrega do relatório. Aconteceu algo específico? Posso te ajudar em algo?”
  6. Reescreva a narrativa interna: Mude o pensamento “vou causar um problema” para “vou resolver um problema”. Conversas difíceis são instrumentos de solução, não de confusão.
  7. Permita-se desagradar: A maturidade emocional passa por sustentar a própria verdade, mesmo correndo o risco de não agradar a todos.

Chegou a Hora de Encarar e se Libertar

Quem cala o sabotador Esquivo ganha liberdade emocional. Passa a viver com mais autenticidade, profundidade e respeito próprio. Aprende a se posicionar sem culpa, a colocar limites sem medo e a resolver problemas em vez de colecioná-los. 

Se você se identificou com o sabotador Esquivo, é hora de dar um basta nessa fuga emocional. Enfrentar pode dar medo, mas fugir eternamente custa ainda mais caro. Você merece ser ouvido, respeitado e viver com verdade. O confronto pode ser desconfortável — mas pode ser, também, a ponte para a liberdade.

Jalme Pereira é músico, palestrante, desenhista e trabalha na Universidade Veiga de Almeida (UVA)
Jalme Pereira é músico, palestrante, desenhista e trabalha na Universidade Veiga de Almeida (UVA)

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