Conscientizar vítimas sobre a violência que sofrem é um dos passos, para uma tarefa muito maior. Ensinar a identificar as diferentes formas de agressão e orientar sobre como pedir ajuda são ações fundamentais para o combate à violência. Palestras, cursos e grupos de apoio também são válidos. No entanto, se continuarmos olhando apenas para as mulheres, o foco estará apenas nelas, deixando de lado quem agride ou quem ainda não entendeu que aparentes pequenas ações precisam mudar.
É preciso dizer com todas as letras: o combate à violência contra a mulher não avançará enquanto os homens permanecerem à margem dessa conversa. E não estamos falando apenas dos agressores já identificados, mas também daqueles que alimentam, perpetuam e normalizam comportamentos que sustentam a cultura machista. Há ainda um grupo, numeroso (independentemente de gênero), dos que simplesmente se calam, com um silêncio que não é neutro. É cumplicidade. É aval.
Homens precisam reconhecer o papel que desempenham em um sistema que há séculos os favorece, mesmo quando não percebem. Sem essa autocrítica, o debate sobre violência doméstica será menos potente do que deveria. Como avançar se muitos sequer conseguem admitir que atitudes “inocentes” – como piadas, comentários e opiniões – são, em verdade, os primeiros tijolos de um muro que aprisionará mulheres?
Quantos homens dizem “não sou violento” enquanto praticam violências diárias travestidas de brincadeira? Quantos repetem estereótipos que objetificam mulheres, educam filhos para seguir o modelo tradicional de masculinidade e reforçam ideias machistas dentro e fora de casa? A lista de frases que ouvimos como se fossem naturais é longa: “Mulher minha não faz isso”, “Isso não é coisa de mulher”, “Homem é assim mesmo”. Sem falar na culpabilização da própria vítima: “Se deu liberdade, não reclame”. E ainda há aqueles que se orgulham: “Meu filho vai ser pegador.” Muitos optam por ignorar o que é feminismo, embora o desqualifiquem sem pudor.
Pois é. São essas pessoas que, ao lerem na capa de um jornal que uma mulher foi arrastada por quilômetros em São Paulo, por causa de um término de relacionamento, como noticiado recentemente, ficam em choque. No mesmo período, outro homem atirou por pelo menos seis vezes contra sua ex-namorada.
Pensemos: a raiz de muitas violências contra as mulheres está em falas que, a princípio, não geram (de imediato) nenhum tipo de impacto. Porém, forjam a constructo mental de muitas pessoas. É assim que se molda a mentalidade que, mais tarde, faz homens acreditarem que podem decidir sobre a vida delas. “Tudo começa cedo, e começa pequeno!” – como dizem vários cristãos.
É preciso enfrentar o problema em sua origem: as atitudes, os discursos e os silêncios que constroem a estrutura que autoriza a violência. Enquanto tolerarmos a misoginia disfarçada de humor, de tradição ou de opinião, continuaremos produzindo agressores. E continuaremos perdendo mulheres.
Este é um tema que exige coragem. Coragem para ouvir, para admitir, para mudar. E, sobretudo, para não mais aceitar o inaceitável.
