Na Igreja Católica setembro é o mês dedicado à Bíblia, não que ela seja lida apenas nesse mês, mas é lembrada a sua importância na vida de todo ser humano, seja qual for a sua igreja cristã. Falar ou escrever sobre a Bíblia não é tarefa fácil para um leigo, tamanha a extensão e a sabedoria contida no maior livro religioso. Na leitura da Bíblia encontramos lições para nossa conduta na vida e nas relações humanas.
A Bíblia não é um livro, na realidade ela é uma coleção de livros escritos durante um longo período de tempo que levou de 1.500 a 1.600 anos, tendo como autores pessoas de várias categorias sociais e diferentes graus de cultura, entre seus autores encontramos pastores, pescadores, profetas e reis, o importante é que, para os crentes, todos os autores estavam inspirados pelo Espírito Santo, portanto através da Bíblia Deus fala com os seres humanos.
Não se pode ler a Bíblia como fundamentalista, é necessário que se leve em consideração a época, a história e as circunstâncias em que cada livro foi escrito, tirando-se dos textos as lições para o mundo atual e para nossa vida. Existe até a frase seguinte: “um texto sem contexto vira pretexto”. Os livros da Bíblia foram escritos em hebraico, grego e aramaico.
No ano 70 d.C. os romanos, sob o comendo do general Tito, destruíram o templo de Jerusalém, crucificaram milhares de judeus, levaram inúmeros como escravos para Roma, enquanto outros fugiram para regiões vizinhas, ocorrendo a diáspora do povo judeu. Muitos desses judeus se fixaram em Alexandria, no Egito, e com receio que os escritos religiosos de seu povo fossem esquecidos com o passar do tempo, 70 eruditos judeus se reuniram e resolveram reescrever os livros usados outrora em sua pátria, com acréscimo de mais sete livros (Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruque, Macabeus I e Macabeus II), além de alguns acréscimos aos livros de Ester e Daniel, o que ocorreu entre os séculos IV e II a.C., esta Bíblia ficou conhecida por Septuaginta Grega ou Versão dos Setenta. Em 404 d.C., São Jerônimo, seguindo orientação do Papa Dâmaso I, traduziu para o latim a Septuaginta, conhecida como Vulgata Latina, usada durante muito tempo pelo cristianismo.
São Jerônimo dizia: “Quando rezamos, falamos com Deus; quando lemos a Bíblia é Deus que fala com a humanidade”.
A Bíblia é considerado o livro mais impresso, mais lido e mais traduzido pela humanidade; calcula-se que tenha sido traduzido para 2.454 línguas e dialetos mundiais.
A Bíblia é composta pelo Antigo e pelo Novo Testamento, formados por um total de 73 livros, portanto a Bíblia é uma pequena biblioteca; 46 livros formam o Antigo Testamento, herdado do povo judeu, enquanto 27 livros pertencem ao Novo Testamento. Para o cristianismo Jesus é a figura central da Bíblia, o Salvador da humanidade anunciado pelo Antigo Testamento e revelado pelo Novo Testamento. A influência da Bíblia se manifesta em toda civilização ocidental, embora sua origem se encontre no Oriente Médio.
Conforme carta do Padre Rodrigo Hurtado (Legionários de Cristo) “a Bíblia não é um livro qualquer. Ela é um livro vivo, é o coração de Deus que bate em palavras. É a verdade que consola, desafia, transforma. Mas a Bíblia não caminha sozinha.”. Realmente, é necessário fazer a Bíblia caminhar, ela não deve permanecer sobre um suporte como decoração de residências, nem permanecer guardada em bibliotecas, deve ser lida com frequência, se possível diariamente; se não puder ler um capítulo que sejam lidos alguns versículos, de preferência conforme o magistério da nossa Igreja.
Para os que não possuem fé a Bíblia tem valor histórico em relação ao povo judeu; sendo vários dos seus capítulos confirmados por escavações arqueológicas. Certa vez, li que uma dessas escavações encontrou a casa de São Pedro, demonstrando que ele não era um simples pescador mas o proprietário de uma companhia de pesca. Para mim essa descoberta aumenta o valor de Pedro, pois renunciou um patrimônio maior para seguir Jesus em sua missão.
Os cinco primeiros livros da Bíblia conhecidos como Pentateuco formam o Torá dos judeus, que significa lei, ensino ou instruções, servindo de normas de vida para aquele povo. No Antigo Testamento encontramos desde a beleza dos livros poéticos e sapiências até a aridez do livro dos números.
Nos livros dos Profetas vários versículos anunciam a vinda de um Messias salvador da humanidade, até seus sofrimentos, confirmados na vida de Jesus de Nazaré.
No Novo Testamento os Evangelhos não são uma biografia de Jesus todavia narram múltiplas passagens da sua vida. O bispo Papias considerou o Evangelho de Mateus como o primeiro, todavia alguns estudos colocam nessa posição o Evangelho de Marcos; consta que os primeiros seguidores de Jesus se reuniam na casa da mãe de Marcos que fazia anotações dos fatos narrados por aqueles que conviveram com Jesus, posteriormente, em Roma, por volta do ano 65 d.C., Marcos reuniu suas anotações escrevendo o seu Evangelho, dizem que em um latim precário.
O Evangelho de Mateus é considerado o mais eclesial, prestando-se à catequese; os pintores e escultores do Renascimento se basearam nesse Evangelho na execução de suas obras imortais. Quando jovem, não gostava desse Evangelho por considera-lo muito rígido, relatando castigos divinos, só mais tarde aprendi que Mateus escreveu em aramaico para uma comunidade instável na fé, que ora era cristã, ora era judaica.
Gostei sempre do Evangelho de Lucas narrando várias vezes o perdão de Deus aos pecadores, principalmente o capítulo 15 com a passagem do Filho Pródigo e capítulo 10, em que relata a passagem do Bom Samaritano. Lucas, homem de boa cultura, médico, escreveu seu Evangelho em grego clássico, voltado mais para os estrangeiros que vacilavam na escolha entre o cristianismo e o politeísmo, necessitando várias vezes do perdão por sua insegurança na fé. Lucas escreveu também o Atos dos Apóstolos, que no início formavam um só livro.
O Evangelho de João tem características diferentes dos anteriores, procura mostrar desde o início que Jesus é o Messias prometido e é o Filho de Deus. Não narra histórias como os Evangelhos anteriores, sendo formado por narrativas, diálogos e discursos. É o único que relata Jesus na Páscoa, em Jerusalém por três vezes. O capítulo 21 é um acréscimo, que mostra acontecimentos depois da ressurreição de Jesus Cristo.
O Atos dos Apóstolos descreve o início das atividades dos seguidores de Jesus, as perseguições pelos judeus e a expansão do cristianismo. O livro é a segunda parte do trabalho de Lucas.
Nas treze cartas de São Paulo, atuais até os dias de hoje, encontramos orientações e normas de vida. O mesmo ocorrendo com as cartas pastorais de Tiago, Pedro (1ª e 2ª), de João (1ª, 2ª e 3ª) e Judas.
O Apocalipse coroa a Bíblia, é o livro da Revelação da vitória de Cristo sobre o mundo. Lendo a Bíblia você conhecerá toda a grandeza e fragilidade da humanidade e terá um farol a iluminar seus caminho rumo a eternidade.
Júlio Carvalho.
