Todos nós, seres humanos, em algum momento da vida, vivemos o luto — um processo doloroso diante de uma perda, desencadeado por acontecimentos diversos. A morte de uma pessoa querida, o fim de um grande amor, a demissão do trabalho, um caminho que desaguou em uma rua (quase) sem saída.
Há também o luto de nós mesmos: quando uma parte nossa se vai, no momento em que uma crença que sustentava a nossa base se rompe, como um tripé que fica apenas com dois apoios ou sem nenhum.
Arthur Koestler (jornalista, escritor e ativista político), diante do seu desapontamento com o regime comunista, disse: “Nada é mais triste do que a morte de uma ilusão.” Quando uma esperança se desmorona, a dor pode ser profunda, difícil de ultrapassar mais do que a própria realidade que se apresenta. É preciso cuidado, pois com o enterro da ilusão, juntam-se a ela sonhos e sentido de vida, que sustentam mundos inteiros. Às vezes, o não saber é um abrigo.
Um caso ilustra bem. Em casa, um jovem estudioso e educado vai enfrentar o processo seletivo, para o tão sonhado curso universitário. É o primeiro lugar no desempenho, naquela sala de aula, é admirado pelos professores, jamais falta às aulas, segue as regras sociais… Porém, no fatídico dia do resultado, vê a notícia: não aprovado. Por um tempo, o mundo desse ser humano cai. E esse fato poderá ser determinante para as tantas vezes que ele reencontrará a derrota como parte essencial da formação do seu caráter. Um futuro médico, sociólogo, advogado e qualquer profissional encontrará, na lida, o erro. A máxima: a perfeição e a eternidade não são humanas. Aliás, é o que a obra de Carl Jung (um dos mais conhecidos estudiosos da mente humana) ensina sobre dores: ao serem enfrentadas e aceitas, podem ser bases para mais autoconhecimento.
Com os lutos, vem a possibilidade do renascimento. A sabedoria, talvez, esteja em concordar com Lygia Fagundes Telles, quando afirma que mais importante do que nascer é ressuscitar. Aquele que morre muitas vezes em vida é, geralmente, aquele que fez da vida algo valioso, porque só conhece a derrota ou a vitória quem está disposto a ir ao mundo, de peito aberto, sabendo que a felicidade, assim como a tristeza, é trajetória, e não destino. Tudo passa.
Por isso, precisamos estar dispostos a morrer de vez em quando. A vida pertence àqueles que, apesar de tudo, escolhem confiar. Que entendem que a boa-fé se presume e a má-fé se comprova, mesmo em tempos sombrios, porque sempre há de se ter a fé no ser humano. É aceitar que, muitas vezes, seremos frágeis nas pequenas coisas e fortes nas grandes — e está tudo bem. Ninguém é forte o tempo inteiro, ainda mais se um efeito depende de uma decisão de responsabilidade de um terceiro.
Uma demissão no trabalho, um término relacional de supetão, um contrato rompido por uma das partes, um familiar que decidiu não responder a uma mensagem… eis a imprevisibilidade da vida.
No final das contas, viver é sobre isto: não é a ausência da dor, mas a capacidade de atravessá-la com dignidade e coragem, tendo o bem como um fim em si mesmo, buscado pelo seu valor próprio. São assim as borboletas.
