“Triste mácula social”, por Julio Carvalho

Durante os JEEC de 2026, ocorreu no Ginásio José dos Santos Vieira, durante uma partida entre dois colégios de nossa cidade, uma manifestação de preconceito racial por parte de uma jovem estudante que se encontrava na torcida. Como não poderia deixar de acontecer a repercussão foi a pior possível; manifestações contrárias surgiram nas redes sociais e até na TV, em noticiário de nossa região.

Deveríamos aceitar e até gostar que o solo brasileiro tenha sido habitado por todas as raças, devendo servir de exemplo como uma democracia racial, que ainda necessita ser aprimorada, onde todos deveriam possuir os mesmos direitos, uma vez que o crescimento nacional é o somatório do trabalho de todas as raças, principalmente, dos africanos negros, que durante quase quatro séculos foram arrancados da África e levados como escravos para a América e outras partes do mundo, em quantidade calculada de dez milhões de seres humanos.

No Brasil, a escravidão durou até 1888, com os africanos e seus descendentes explorados pelos senhores de engenhos, fazendeiros ricos, nas lavouras de café, enfim em todo tipo de trabalho pesado, sem qualquer direito, trabalhando como animais de cargas e, frequentemente, punidos com os mais brutais tipos de torturas.

Depois da Lei Euzébio de Queiroz, proibindo o tráfico negreiro, o preço dos escravos subiu acentuadamente, ficando mais difícil a aquisição dos mesmos, o que levou à construção de hospitais para escravos; não por bondade dos senhores, mas   em virtude da valorização dos escravos.

Com a Lei Aurea, em 13 de maio de 1888, o que se viu não foi uma libertação autêntica, mas a passagem da escravidão para uma semi- escravidão, principalmente para os que continuaram trabalhando na zona rural, morando em barracos de barro batido, cobertos por sapê, sem instalações sanitárias, trabalhando sem horário estabelecido por lei e alimentando-se com o que produziam. Outros como meeiros. Analfabetos com os filhos nas mesmas condições.

A autêntica libertação dos escravos ocorreu com o êxodo rural, quando os afro-brasileiros se deslocaram para a periferia das cidades, passando a trabalhar nas indústrias, e quando Getúlio Vargas, a partir de 1930, criou as Leis Trabalhistas. Nas cidades, os descendentes puderam frequentar as escolas públicas, onde demonstraram possuir a mesma inteligência que os brancos.

Na época do Brasil imperial, o imperador D. Pedro II encaminhou dois irmãos negros, filhos de escravos, para estudarem na Europa. Um deles, engenheiro, ao retornar ao Brasil, realizou um trabalho de engenharia que os engenheiros estrangeiros, contratados pelo imperador, informaram ser impossível, a construção da estrada de ferro Curitiba -Paranaguá. Se você algum dia visitar a capital do Paraná, não deixe de viajar nesta ferrovia. Você se sentirá orgulhoso de ver o que um brasileiro negro foi capaz de realizar, vencendo os abismos da Serra do Mar. Seu nome André Rebouças.

Na época em que era governador do estado da Guanabara, Carlos Lacerda, ao inaugurar o maior túnel da cidade do Rio de Janeiro, o denominou André Rebouças, em justa e merecida homenagem ao grande brasileiro negro.

Como médico e cirurgião, ao operar incontáveis pacientes da raça negra, jamais encontrei diferença orgânica em relação a outras raças, depois que incisava a pele negra. Internamente têm a mesma estrutura. A diferença está apenas externamente, adaptação do corpo humano ao clima de cada região terrestre, uma vez que o primeiro homem surgiu no continente africano. 

Se o negro fosse inferior não teríamos tantos que se destacaram nos esportes, na música, no cinema e em outras artes. O que falta é oportunidade aos negros.

Durante dez anos trabalhei no Colégio Estadual Maria Zulmira Torres, a convite da diretora Profa. Liame Teixeira de Carvalho. Lecionava Biologia, para o Científico, e Higiene, para o Curso Normal. Tive oportunidade de observar, com tristeza, que os alunos negros formavam uma minoria, todavia se destacavam não só no estudo, mas, principalmente, no atletismo, conquistando inúmeras medalhas nas competições estudantis em que representavam nosso colégio. Até hoje, ao encontra-las, gosto de saudá-las com minhas grandes atletas!

Atualmente, vejo passar diante de minha residência a maioria de alunos, do mesmo estabelecimento, constituída por negros e mestiços; o que representa a ascensão intelectual e social dos mais pobres da nossa sociedade, que merecem total apoio de nossos governos; havendo, ainda, muito a ser realizado numa sociedade capitalista, que exclui os mais pobres.

O caminho é longo e muitos obstáculos terão que ser ultrapassados, creio, todavia, que dia chegará em que todos poderão, orgulhosos, cantar o que se encontra no Hino da Proclamação da República:

“Nós nem cremos que escravos outrora

Tenha havido em tão nobre país

Hoje o rubro lampeja da aurora

Acha irmãos, não sejamos hostis

Somos todos iguais, no futuro

Saberemos, unidos, levar

Nosso augusto estandarte que, puro

Brilha, avante, da Pátria no altar”.

Que este futuro chegue o quanto antes!

Júlio Carvalho.

Júlio Marcos de Souza Carvalho é médico, ex-vereador e ex-provedor do Hospital de Cantagalo e atualmente é auditor da Unimed de Nova Friburgo
Júlio Marcos de Souza Carvalho é médico, ex-vereador e ex-provedor do Hospital de Cantagalo. Atualmente é auditor da Unimed de Nova Friburgo e vice-prefeito de Cantagalo

 

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