“A fotografia real de quem sente empatia”, por Amanda de Moraes

Fotos registram normalmente bons momentos. Em outra época, não muito longe, os álbuns eram repletos de vida revelada. O filme da máquina fotográfica, com um número limitado de fotos, era destinado aos momentos especiais: casamentos, festas de aniversários, confraternizações, batizados, viagens. A falta de recurso para poses perfeitas, tiradas hoje com 10 cliques por segundos, eternizava momentos espontâneos e divertidos. Nos filmes fotográficos, ser feliz era o registro.

Hoje, a tecnologia permite refazer o mesmo momento quantas vezes for necessário em busca da imagem perfeita. Com a ajuda de filtros, retoques e outras funções, alimenta-se a obsessão pela imagem. Assim, a mídia social inunda nossas vidas com milhares de pessoas bem-sucedidas, famílias sorridentes e prosperidade estampada em likes.

Como a vida está longe de ser um manancial de água cristalina, uma considerável parte da realidade fica de fora do espetáculo a céu aberto. A dor raramente estará nos álbuns de fotografias e em post de Instagram.

Momentos de dificuldade todos nós temos, dos menores aos mais agressivos. Há aqueles que saem para trabalhar logo após uma discussão em casa. Outros convivem com ambientes de trabalho mais hostis. Muitos passam noites acordados, pensando nos boletos que se aproximam.

Há pessoas enfrentando uma doença grave, acompanhando o sofrimento de alguém que amam ou tentando sobreviver à perda de um familiar. Outras carregam a frustração dos sonhos que não puderam viver. Há ainda quem enfrente uma depressão que, sem motivo aparente para quem observa de fora, insiste em se fazer presente. Crises de ansiedade não batem educadamente à porta: muitas vezes, arrombam-na. Nada disso estará fotografado.

A vida não tem pausa para consertar tanta coisa; é preciso cicatrizar em movimento. É com esse imenso esforço que muitas pessoas saem todos os dias, para continuar as suas vidas. Algumas conseguem dar um bom-dia com um leve sorriso. Em outros casos, limitam-se ao básico das suas funções.

Às vezes, interpretamos como indiferença aquilo que pode ser exaustão. Chamamos de antipatia o que talvez seja esgotamento. Julgamos como desinteresse o comportamento de alguém que está apenas tentando não desmoronar diante dos outros.

Não se trata de justificar toda atitude inadequada ou de eliminar a responsabilidade individual. Nada disso. Compreender a dor de alguém não é aceitar agressões, abusos ou desrespeitos. A empatia é um convite para suspendermos o julgamento, um eventual olhar de superioridade e reconhecer que sempre existe uma parte da história à qual não tivemos acesso. E aqui normalizar que alguém não tem motivos para sorrir com todos os dentes na fotografia real.

Para algumas pessoas, uma única gota é suficiente para fazer transbordar um copo que está cheio há muito tempo. Quem observa apenas a gota pode considerar a reação exagerada. Quem conhece o conteúdo acumulado no copo compreende que aquela resposta não nasceu exclusivamente daquele instante.

Cientes dos humanos dissabores, a empatia deveria ser ensinada desde os primeiros anos escolares como uma habilidade essencial ao convívio em comunidade. Ensinamos crianças a competir, alcançar bons resultados e a ocupar o topo da carreira. No entanto, ainda dedicamos pouca atenção à capacidade de escutar, compreender diferenças, lidar com frustrações e resolver conflitos sem violência.

Empatia é a nossa capacidade de nos colocarmos no lugar da outra pessoa; ver a vida a partir da perspectiva dela, e não da sua, sem julgá-la. Costuma-se dizer que ser empático é calçar os sapatos do outro para descobrir onde apertam. É além. É reconhecer que não conhecemos o caminho percorrido por aqueles sapatos, nem as pedras encontradas durante o trajeto.

Como não podemos enxergar tudo o que existe para além da fotografia, resta-nos escolher uma forma mais cuidadosa de estar no mundo. Escutar antes de concluir. Perguntar antes de acusar. Ser gentil sempre que possível.

Nunca sabemos quando uma palavra dura será a última gota no copo de alguém. Porém, também não sabemos quando um pequeno gesto de humanidade poderá ajudá-lo a não transbordar, nas fotos e fora delas.

Amanda de Moraes Estefan é advogada, no Rio de Janeiro, e sócia do escritório Mirza & Malan Advogados. Ela é neta do ex-prefeito de Trajano de Moraes, João de Moraes
Amanda de Moraes Estefan é advogada, no Rio de Janeiro, e sócia do escritório Mirza & Malan Advogados. Ela é neta do ex-prefeito de Trajano de Moraes, João de Moraes

 

 

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