“As muretas do jardim e a Escola Lameira de Andrade”, por Julio Carvalho
Naquele tempo, creio que durante o 2º império brasileiro, e em toda república velha, o jardim de Cantagalo era cercado por uma grade de ferro, com portões em seus ângulos, que eram fechados durante determinado horário noturno, visando protegê-lo contra danos causados por elementos desocupados e dominados pelo alcoolismo.
Esta situação permaneceu até a década de 1930, quando o Prefeito Acácio Ferreira Dias, nomeado pelos vitoriosos da revolução, determinou a retirada das mesmas, transferindo-as para o jardim de Cordeiro, na época 2º distrito de Cantagalo, onde permanecem até hoje bem conservadas.
Nesse período, o piso do jardim ficava a cerca de 20 cm. acima do meio fio das ruas que circundam nossa bela praça pública, podendo ser visitado a qualquer hora do dia ou da noite.
Em 1944, Amaral Peixoto que era o interventor do estado do Rio de Janeiro, nomeou para prefeito de Cantagalo o médico Joaquim de Souza Carvalho Junior, mais conhecido como Dr. Carvalho ou Dr. Carvalhinho, que permaneceu no governo durante dois anos.
Nessa época, os cantagalenses reclamavam que o governo estadual nada fazia em benefício de Cantagalo; foi quando o interventor Amaral Peixoto enviou à nossa cidade o seu Secretário de Obras, o oficial de nome Areia Leão, que ficou hospedado na casa do prefeito, onde mostrou a planta de um grande colégio estadual que seria construído em Cantagalo. Examinada a planta surgiu um grave problema, não havia área disponível capaz de receber um prédio tão grande.
Existia no centro da cidade um prédio estadual completamente abandonado, com as janelas quebradas, parte do telhado já havia caído, servindo de local onde se abrigavam pessoas estranhas à sociedade da época, vindas de outras localidades.
Por outra parte, no alto de uma colina, situava-se o chamado cemitério velho, pertencente à municipalidade, que não era mais utilizado; sendo um problema permanente para 0 governo municipal; nele eram roubadas estatuetas de anjos, peças de bronze e pedras mármores dos túmulos, com frequentes reclamações dos parentes dos falecidos junto ao poder público, impotente para impedir tais práticas ilegais.
O prefeito ofereceu ao governo estadual trocar o prédio estadual em ruina pelo cemitério velho, onde caberia o grande colégio estadual. A proposta foi aceita com uma condição, a prefeitura teria que ceder a área do cemitério completamente limpa.
A prefeitura aceitou e removeu todos os túmulos com os devidos esqueletos para o atual cemitério municipal; os que não estavam identificados foram levados para a caixa de ossos, situada na parte mais elevada do cemitério municipal.
Quando a construtora começou as fundações do colégio, onde cavava encontrava ossos humanos. O serviço foi suspenso e o estado exigiu que todo o terreno fosse cavado numa profundidade de 2 metros, sendo retirados todos os restos mortais encontrados.
O prefeito aceitou o desafio, e toda área foi escavada com trabalho braçal, uma vez que, naquela época, não havia as máquinas pesadas conhecidas hoje. À medida que as escavações prosseguiam o volume de esqueletos era cada vez maior, sendo transportados para o outro cemitério, em um único caminhão que a prefeitura possuía, um Chevrolet gigante, que de gigante só tinha o nome.
Quando um osso caia do caminhão, era apanhado por um funcionário público e recolocado sobre os outros ossos. O prefeito era criticado pelos políticos da U.D.N., todavia o trabalho continuou até o final, sendo construído o prédio majestoso onde se encontra, hoje, E.M. Lameira de Andrade.
Com as escavações surgiu um volume de terra extraordinário que teria que ser removido pela prefeitura de Cantagalo. Onde colocar tanta terra?
O prefeito foi à Nova Friburgo, no trem da Leopoldina, procurou o Prof. Kato, de origem japonesa, que lecionava desenho no Colégio Anchieta; este veio a Cantagalo, analisou o grande volume de terra, visitou nosso jardim, enviando algum tempo depois a planta; sugerindo a construção das muretas atuais e dos caramanchões, criando uma área capaz de receber a terra do cemitério. A obra foi realizada pela equipe de trabalho do construtor português David da Costa Lage, que viveu em Cantagalo durante muitos anos, onde prestou relevantes serviços
O prefeito Dr. Carvalho realizou a obra, durante a 2ª Guerra Mundial, período em que era difícil conseguir o cimento. O pequeno caminhão “gigante” em incontáveis viagens transferiu a terra resultante das escavações do cemitério velho para o aterro do jardim, que passou a ter a forma atual. Novas críticas da oposição, dessa vez em versos ameaçadores, dizendo que o prefeito colocando a terra do cemitério no solo do jardim permitiria que o povo pisasse nos restos mortais, e que um dia seria punido.
Certa vez, ao visitar o Lameira de Andrade, o jovem e saudoso governador do estado do Rio de Janeiro, Roberto Silveira, vítima de um acidente de helicóptero em Petrópolis, declarou: “onde, outrora, só se ouvia o choro da morte; hoje, ouve-se o grito alegre das crianças que frequentam essa escola”.
Sua ideia valeu, Prefeito Dr. Carvalho!
Júlio Carvalho.
