Amizade é uma palavra distinta. Amigo é família por escolha; quem aceitamos que faça parte da nossa história. É raro. É significativo. É fundamental.
No entanto, parece que só entendemos o seu real significado com o passar do tempo; sempre haverá ensinamentos que não podem ser adquiridos somente por meio de livros, faculdades e conselhos. É preciso viver.
Na adolescência, os amigos, geralmente, são muitos. Ou melhor, assim denominamos muitas pessoas que nos cercam. Meu avô dizia que adolescente parece marreco, andando sempre em bando. Nessa fase atual, vários colegas dividem risos e brincadeiras, seguem juntos para as festinhas, choram por paqueras e ainda gravam vídeos no TikTok. Como se estar junto em momentos triviais, do cotidiano, denominasse um amigo.
Pode até ser, se banalizarmos esse conceito, abrindo frente para diferentes tipos: o do café, o dos memes, os do prazer feriado. Mas é essencial saber o que esperar de cada um.
No seguir dos anos, naturalmente esse número vai diminuindo. Pela ausência de tanto tempo livre, por nos tornarmos mais seletivos, pela inevitável decepção de esperar do outro o que ele não pode entregar. A vida, naturalmente, passa a limitar o conceito de um amigo (verdadeiro).
À medida que o tempo passa, vêm as adversidades. Com elas, a expectativa de termos os amigos ao lado, para enfrentar a maré turbulenta. É no tempo que o verdadeiro se revela. A lealdade precisa ser posta à prova. O companheirismo precisa de momentos de incerteza para se consolidar. A confiança se constrói dia após dia.
Nesse teste de caráter, muitos sairão dos nossos caminhos. Os que não conseguem sorrir com a sua vitória, os que se ausentaram em momentos difíceis ou simplesmente não buscaram saber se estava tudo bem. Passamos a perceber que muitas amizades eram, na prática, efêmeras. Uma conveniência da ocasião. Era interessante ter por perto, até não ser mais.
Cícero, em sua obra De Amicitia, apresenta a amizade autêntica como um dos maiores bens humanos, ou seja, a união profunda de sentimentos em assuntos divinos e humanos, acompanhada de benevolência e carinho, entre os homens de virtude, pautada pela sinceridade e auxílio mútuo, não em interesses. Complementa, ainda, que a amizade verdadeira está longe de se pautar por utilidade ou prazer, mas, sim, no crescimento moral mútuo. Amigos ajudam-se a ser melhores, longe de bajulações. É aquele que diz a verdade, posto que dura, e alerta a consciência do outro para evitar erros.
Aqueles de longa data são ainda mais raros. São eles que testemunharam diferentes versões do que você foi e, ainda assim, continuaram a amar e permaneceram leais. Com eles, não precisamos fingir. Não precisamos seduzir. Podemos ser inteiramente quem nós somos, em nossas loucuras, defeitos e virtudes. Quem sabe a alma gêmea, havendo de fato, está mais perto de ser um grande amigo a um par romântico?
Aliás, são com os verdadeiros amigos que compartilhamos muitos dos melhores momentos. Boas risadas. Grandes histórias. Está longe de ser questão de número, mas sim de qualidade. Um único grande amigo já é imensa conquista.
Pois disse Polônio a seu filho Laertes, na obra Hamlet, de Shakespeare : “Os amigos que tenhas, já postos à prova, prende-os com grampos de aço na tua alma.” Por essas e outras, amizade é um termo distinto no dicionário da existência.
