Começou a época eleitoral no Brasil. Com as mudanças trazidas pelas mídias sociais, as campanhas já não ocupam apenas as ruas, palanques ou a televisão. Invadem, de outra forma, os lares e incentivam o ingresso de qualquer pessoa: influencers, agora, podem lançar-se com facilidade na corrida por um cargo eletivo.
Nesse bolo, aparecem candidatos de todos os tipos: artistas felizes e frustrados com suas carreiras, esportistas aposentados e sedentos por holofote, vaidosos que amam o som da própria voz. Os bons moços, exemplos da moral e dos costumes, também nunca saíram de moda, quase sempre acompanhados do clássico discurso em defesa da família tradicional. Ah! Não podemos esquecer aqueles ligados ao tráfico e às milícias, aprimorados em atuação, e que ampliaram os seus espaços de poder.
Alguns candidatos usam a estratégia de chamar atenção pelos nomes inusitados. Outros são figuras conhecidas de longa data, que atravessam eleições mudando slogans, alianças e discursos, mas permanecendo sempre por perto.
Na prática, entre avanços e retrocessos, um misto de sentimentos toma conta do povo brasileiro. Há os indignados com a aparente falta de opção. Há os descrentes, que já não esperam absolutamente nada. E há também aqueles que acreditam fielmente em seus escolhidos, com uma devoção que transforma candidatos em ídolos e adversários em inimigos.
Seja como for, a frustração com a política brasileira parece ser um sentimento compartilhado por muita gente. E não deveria ser? Temos uma lista enorme de candidatos, mas nem sempre uma lista igualmente extensa de projetos. Em muitos casos, a política parece ter sido reduzida à disputa pelo citado poder, à troca de favores, à defesa de interesses particulares e à capacidade de permanecer onde se está.
Esse assunto me faz lembrar das reflexões da professora Lúcia Helena Galvão sobre o mito do Rei Arthur e da espada Excalibur e, especialmente, sobre o que significa ser capaz de governar. Na cena icônica das versões mais famosas das lendas arturianas, o Rei Arthur recebe a sua espada, aExcalibur, das mãos da Dama do Lago. A espada surge acima das águas. Nessa leitura simbólica, a espada representa a Vontade. Enquanto submersa, estaria no território dos desejos, dos impulsos e das paixões individuais. Quando emerge das águas e é erguida, passa a representar uma vontade capaz de se colocar acima dos interesses particulares.
Ao emergir e ser entregue a Arthur, ela passa a trabalhar para o bem maior e para a consciência, deixando de ser escrava das paixões cegas.
Eis aqui um ponto para qualquer pessoa que pretenda exercer o poder: antes de governar os outros, é preciso governar a si mesmo. Governar os próprios impulsos. A própria vaidade. A ambição. A necessidade de reconhecimento. A tentação de usar aquilo que pertence a todos para satisfazer aquilo que interessa apenas a si.
Nessa extensa lista de candidatos que se apresenta, qual deles seria capaz de erguer a própria espada acima das águas? De compreender que ocupar um cargo público é recebê-lo temporariamente para o exercer em nome e em favor do povo? E, quanto mais degradado se torna o ambiente político, maior o risco de afastar pessoas decentes, competentes e bem-intencionadas.
Quando alguém decide que a política é suja demais para merecer sua atenção, outra pessoa continuará fazendo política. Quando pessoas sérias deixam de disputar os espaços públicos porque não querem se misturar àquilo que desprezam, esses espaços não permanecem vazios. Alguém os ocupa.
Além disso, uma das consequências mais perigosas da descrença é transformar indignação em indiferença. É compreensível estar cansado da política. É compreensível desconfiar de discursos, promessas e salvadores da pátria. O que não podemos é confundir desilusão com renúncia.
Porque política, em sua essência, não deveria ser apenas a disputa por cargos. É a forma como decidimos viver juntos. É escolher quais interesses devem prevalecer quando os interesses individuais entram em conflito. É decidir quem terá voz, quais direitos serão protegidos, onde serão empregados os recursos públicos e que sociedade pretendemos construir.
Não precisamos de seres humanos perfeitos, nem de heróis ou heroínas, empunhando espadas mágicas. Precisamos de pessoas éticas e coerentes ao mandato, ou seja, um tempo de representatividade ao voto recebido. Entre os critérios, que possamos analisar se o candidato consegue governar a si mesmo, para governar os outros, em prol de um bem maior.
