“Quando pensar demais impede você de agir”, por Jalme Pereira

Um homem precisava atravessar uma antiga ponte para chegar à cidade do outro lado do rio. Antes de atravessar, decidiu examiná-la com cuidado. Verificou as tábuas, contou os parafusos, observou a correnteza e perguntou aos moradores quando a ponte havia sido construída. Achou que ainda não tinha informações suficientes. Voltou para casa, pesquisou mais e retornou no dia seguinte. Mais uma vez, analisou a ponte. Pensou nos riscos, imaginou diferentes possibilidades e tentou prever tudo o que poderia acontecer.

Os dias se transformaram em meses. Os meses, em anos. Certa manhã, alguém que o observava há muito tempo perguntou: ‘Você ainda pretende atravessar?’ Ele respondeu: ‘Sim. Só estou esperando ter certeza de que é seguro.’ Foi então que percebeu algo que nunca havia considerado: passara tanto tempo avaliando o risco de atravessar que nunca havia descoberto o que existia do outro lado. Talvez algumas pessoas estejam vivendo exatamente assim.

Quando pensar deixa de ajudar

Pensar é uma das nossas maiores capacidades. Analisar, comparar possibilidades, avaliar consequências e antecipar problemas são recursos importantes para tomar boas decisões. O problema começa quando pensar deixa de ser preparação e passa a ser uma forma de adiar a ação. É quando a pessoa pesquisa mais um pouco, espera mais uma informação, refaz a análise, conversa com mais alguém e procura mais uma confirmação. E, mesmo depois de tudo isso, continua sem agir. Não porque não sabe o que fazer. Mas porque ainda não se sente suficientemente segura para fazer.

A ilusão de que precisamos ter certeza

Existe uma expectativa silenciosa de que uma boa decisão precisa ser acompanhada de certeza. Como se, antes de agir, fosse possível eliminar todas as dúvidas, prever todos os resultados e garantir que nada dará errado. Decisões importantes quase sempre carregam algum grau de incerteza. Mudar de emprego, começar um negócio, encerrar um ciclo, iniciar um relacionamento, fazer um investimento ou assumir um novo desafio envolve riscos que nenhuma quantidade de análise consegue eliminar completamente.

O medo também pensa

Nem sempre o excesso de pensamento nasce da necessidade de compreender melhor. Às vezes, nasce do medo. Ele apresenta cenários, levanta dúvidas, lembra experiências negativas e encontra razões aparentemente sensatas para esperar mais um pouco: ‘talvez não seja o momento’, ‘preciso me preparar melhor’, ‘e se não der certo?’ ou ‘e se eu me arrepender?’ A pessoa acredita que está sendo racional. Mas, em alguns momentos, pode estar apenas tentando encontrar uma certeza que não existe. Às vezes, não é a razão que está pedindo mais tempo. É o medo tentando ganhar mais tempo.

Decidir também é lidar com a incerteza

Isso não significa agir por impulso. Existem decisões que exigem planejamento, informação e análise cuidadosa. A questão é saber quando a análise já produziu informações suficientes para uma decisão possível. Existe uma diferença entre cautela e paralisia. A cautela considera os riscos e decide apesar deles. A paralisia continua procurando razões para não decidir.

A ação também produz informação

Existe algo que o excesso de análise costuma esconder: algumas respostas só aparecem depois que começamos. Você pode estudar durante meses como abrir um negócio, mas algumas das informações mais importantes só surgirão quando conversar com clientes reais. Pode planejar uma mudança de carreira, mas só descobrirá determinadas possibilidades quando começar a se movimentar. A ação não elimina a incerteza. Produz novas informações. E essas informações permitem ajustar a rota. É assim que muitas mudanças realmente acontecem: não porque alguém sabia exatamente onde chegaria, mas porque começou a caminhar e foi descobrindo o caminho enquanto avançava.

Quando a preparação vira esconderijo

Existe um momento em que se preparar deixa de aumentar a competência e começa a proteger a pessoa da exposição. Ela faz mais um curso, lê mais um livro, pesquisa mais uma possibilidade, espera mais uma oportunidade. Tudo parece produtivo. E, de certa forma, é. Mas nada muda. Porque o verdadeiro problema não era falta de preparo. Era o desconforto de se colocar em movimento. Talvez por isso algumas pessoas sejam especialistas em preparação e iniciantes permanentes na ação.

Um convite para atravessar a ponte

Talvez exista alguma decisão que você vem analisando há tempo demais. Uma conversa que precisa acontecer. Um projeto que continua no papel. Uma mudança que você sabe que precisa fazer. Um primeiro passo que vem sendo adiado enquanto você espera sentir-se completamente preparado. Talvez você esteja apenas esperando uma certeza que nenhuma decisão pode oferecer. Por isso, antes de pensar mais uma vez, pergunte a si mesmo: “Estou realmente precisando de mais informação ou estou procurando uma garantia de que não vou me arrepender?” Porque algumas pontes não ficam mais seguras porque passamos anos olhando para elas. Elas só nos levam para o outro lado quando decidimos atravessá-las.

Jalme Pereira é músico, palestrante, desenhista e trabalha na Universidade Veiga de Almeida (UVA)
Jalme Pereira é músico, palestrante, desenhista e trabalha na Universidade Veiga de Almeida (UVA)

 

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