“Quando você se acostuma com aquilo que não deveria ser normal”, por Jalme Pereira

Conta-se que um homem comprou uma pequena casa ao lado de uma estrada movimentada. Nos primeiros dias, o barulho dos caminhões que passavam durante a noite o incomodava profundamente. Ele acordava várias vezes, reclamava, fechava as janelas e dizia que jamais conseguiria se acostumar. Com o tempo, porém, começou a fazer algumas adaptações. Colocou cortinas mais grossas, fechou as janelas antes de dormir e passou a usar tampões nos ouvidos. Depois de alguns meses, já não reclamava mais.

Anos se passaram. O homem continuava vivendo ali e já quase não percebia o barulho. Até que, um dia, precisou passar algumas semanas em uma pequena casa no interior, onde as noites eram completamente silenciosas. Na primeira noite, não conseguiu dormir. O silêncio o incomodava. Foi então que percebeu algo curioso: não era que o barulho tivesse deixado de existir. Ele apenas havia se acostumado a viver com ele. Muitas pessoas fazem exatamente isso com a própria vida.

Quando o incômodo vira rotina

No começo, determinadas situações nos incomodam. Uma cobrança excessiva, uma relação difícil, uma rotina desgastante, a falta de tempo, a ausência de reconhecimento ou mesmo uma conversa que nunca acontece. Reclamamos e pensamos em mudar. Mas, quando a situação permanece por muito tempo, algo começa a acontecer. Em vez de mudar a realidade, começamos a nos adaptar a ela. E aquilo que antes parecia intolerável começa a parecer “normal”. A pessoa que vive permanentemente cansada passa a dizer que é assim mesmo. Quem trabalha sob pressão todos os dias chama isso de rotina. Quem nunca tem tempo para si afirma que está apenas cumprindo suas responsabilidades. O problema é que adaptação não significa necessariamente que a situação melhorou. Às vezes, apenas aprendemos a suportá-la.

Acostumar-se não significa estar bem

Existe uma diferença entre aceitar uma realidade e se acostumar com ela. Aceitar significa reconhecer que algo existe e decidir conscientemente como lidar com aquilo. Acostumar-se significa deixar de questionar porque já não enxergamos outra possibilidade. E esse é um dos mecanismos mais silenciosos do comportamento humano. Aquilo que se repete deixa de chamar nossa atenção. A irritação vira personalidade, o distanciamento vira jeito de ser e a falta de tempo vira estilo de vida. Até que a pessoa já não consegue mais distinguir aquilo que realmente escolheu daquilo a que simplesmente se adaptou.

O perigo da normalização

O que mais preocupa é aquilo que nos faz mal durante tanto tempo que deixamos de perceber. Porque, quando algo se torna familiar, nossa mente tende a tratá-lo como parte do ambiente. Não significa que esteja saudável. Significa apenas que deixou de parecer estranho. É assim que algumas pessoas passam anos em situações que, se fossem apresentadas a elas pela primeira vez, provavelmente recusariam. Mas, como foram se instalando aos poucos, tornaram-se parte da paisagem. E aquilo que vira paisagem raramente é questionado.

Quando sobreviver parece suficiente

Talvez esse seja um dos motivos pelos quais algumas pessoas demoram tanto para mudar. Elas continuam funcionando, trabalhando, cuidando da família, pagando as contas, cumprindo compromissos e entregando resultados. Por fora, tudo parece normal, mas, internamente, já podem estar vivendo muito abaixo daquilo que poderiam. Não estão necessariamente em uma crise. Apenas perderam a referência de como seria viver com mais energia, presença, tranquilidade ou satisfação.

O que você deixou de questionar?

Talvez seja importante fazer uma pausa e olhar para algumas áreas da própria vida com mais honestidade. O que hoje parece normal, mas no passado teria incomodado você? Que comportamento você deixou de questionar porque se repetiu durante muito tempo?

Que situação você chama de “fase”, embora essa fase já dure anos? O que você está suportando apenas porque acredita que não existe outra possibilidade? Essas perguntas não significam que tudo precise ser abandonado ou transformado imediatamente. Significam apenas que algumas coisas precisam voltar a ser percebidas antes de podermos escolhê-las.

A consciência devolve possibilidades

Mudar começa, muitas vezes, antes de qualquer decisão. Começa quando você volta a perceber que está cansado, que determinada relação mudou, que aquela rotina já não combina com quem você se tornou ou que uma escolha antiga continua produzindo consequências no presente. Porque aquilo que não percebemos continua funcionando no automático. E aquilo que começamos a perceber pode, finalmente, ser questionado. Talvez você não precise mudar tudo. Talvez precise apenas parar de chamar de normal aquilo que, no fundo, já sabe que não está fazendo bem.

Um convite para olhar novamente

Acostumar-se com alguma coisa não significa que ela deixou de fazer mal. Por isso, talvez valha olhar para a própria vida como quem entra em uma casa depois de muitos anos e abre, pela primeira vez, uma janela que permaneceu fechada. O que você vai perceber? Talvez exista mais barulho do que imaginava. Talvez exista mais cansaço. Talvez exista uma relação que precisa de conversa, uma rotina que precisa de mudança, um limite que precisa ser estabelecido ou simplesmente uma parte de você que há muito tempo não recebe atenção. Porque o perigo não está apenas em viver situações difíceis. Está em viver com elas durante tanto tempo que você já não consegue imaginar como seria viver de outra maneira. O que você chama de normal hoje que, se acontecesse pela primeira vez, você jamais aceitaria?

Jalme Pereira é músico, palestrante, desenhista e trabalha na Universidade Veiga de Almeida (UVA)
Jalme Pereira é músico, palestrante, desenhista e trabalha na Universidade Veiga de Almeida (UVA)

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