“Sem extremos, tudo vai passar”, por Amanda de Moraes

De diferentes formas, o ser humano lida com as frustrações. Alguns hiperfocam no problema, como se não houvesse novos caminhos. Mergulham tão profundo que paralisam qualquer fluxo do cotidiano. Transformam a visão em um raio laser, que mira um único ponto, fazendo com que todo o resto deixe de existir. Nada mais importa.

Muitas insatisfações nascem quando olhamos para o calendário da vida como um roteiro inflexível. É como se existisse uma idade certa para amar, casar, ter filhos, prosperar, aceitar a própria vocação. E, quando o tempo avança sem que essas conquistas tenham chegado, sentimos que estamos atrasados.  Aliás, atrasados em relação a que e a quem?

O mundo, muitas vezes, nos ensina a esperar o pior. A família, as experiências da infância, crenças e as sucessivas decepções podem nos conduzir a uma visão pessimista da existência. Às vezes, crescemos sendo treinados a olhar para a falta; mesmo que a vida sorria em outras dimensões, os olhos permanecem fixos naquilo que (ainda) não temos ou (jamais) teremos. As ausências protagonizam.

Por outro lado, o extremo oposto tampouco nos conduz a uma vida mais plena. O positivismo levado ao excesso, chamado de tóxico, transforma-se em uma espécie de censura emocional. A tristeza, o medo, a frustração, as angústias passam a ser sentimentos proibidos. Instaura-se uma ditadura da felicidade: a obrigação permanente de estar bem, sorrir e enxergar oportunidades, em meio a qualquer adversidade.

O problema é que emoções ignoradas não desaparecem. Elas apenas se escondem, permanecendo vivas, mas alocadas em um lugar menos visível. Quando nos convencemos de que tudo está sempre às mil maravilhas, perdemos a capacidade de olhar a realidade como ela é. E somente aquilo que conseguimos enxergar pode ser compreendido, elaborado e transformado. Negar a dor não a cura, apenas nos afasta da possibilidade de aprender com ela.

Uma busca incessante por uma felicidade permanente nos torna despreparados para enfrentar uma das poucas certezas da existência: em muitos momentos, será difícil. Nem tudo acontece conforme os nossos planos. Projetos fracassam, relações terminam, perdas chegam sem aviso, pessoas que amamos podem nos ferir.

Nem tanto ao céu nem tanto a terra. É insustentável, na prática, desalento total ou a positividade máxima em todas as coisas. É preciso aprender a conviver com a frustração, a impermanência e a dor, sem que a neguemos ou sejamos completamente consumidos por elas.

O mundo machuca. As circunstâncias nos machucam. As pessoas nos machucam. A maturidade não esteja em evitar essas feridas, mas em desenvolver a capacidade de atravessá-las, sem perder a sensibilidade e a esperança.

Os nossos sentimentos não são inimigos a serem derrotados, mas mensageiros a serem escutados. Cada emoção carrega consigo uma história, uma necessidade ou uma ferida, que, se vistas, frequentemente lançam luz sobre aspectos de nós mesmos que permaneciam ocultos.

Aceitar os próprios sentimentos é um dos atos mais corajosos, pois eles existem, são reais e fazem parte da experiência humana. Ser paciente consigo mesmo. Cada um tem os próprios limites e ritmo de transição. Acolher-se, sem esquecer que há o presente, antes de futuro. O passado? Já se foi.

Seja através das pessoas, da natureza, da arte, de encontros inesperados, se tivermos com o coração aberto para saber ouvir, há mensagens edificantes em uma conversa casual, em um livro que chega às mãos, em uma paisagem ou em um olhar. Diante das perdas e dos caminhos interrompidos, a existência pode se expandir mais do que nos momentos de glória, se houver a disponibilidade.

Amanda de Moraes Estefan é advogada, no Rio de Janeiro, e sócia do escritório Mirza & Malan Advogados. Ela é neta do ex-prefeito de Trajano de Moraes, João de Moraes
Amanda de Moraes Estefan é advogada, no Rio de Janeiro, e sócia do escritório Mirza & Malan Advogados. Ela é neta do ex-prefeito de Trajano de Moraes, João de Moraes

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