“Foi Necessária uma Mulher!”, por Julio Carvalho

O Diário Oficial Eletrônico da Prefeitura Municipal de Cantagalo, nº 1.963, do dia 06 de abril de 2026, publicou o Decreto nº 4.461/2026, de 31 de março de 2026, no qual a Prefeita Emanuela Teixeira da Silva “Declara de Utilidade Pública para fins de desapropriação de pleno domínio de área de terras situada às margens das RJ-160 e RJ-152, a ser desmembrada da área maior da Fazenda do Gavião, localizada no 1º Distrito de Cantagalo.

31 de março, uma terça-feira como tantas outras, estava na minha pequena sala na PMC, examinando algumas contas de água e luz da municipalidade, quando o Secretário de Governo me comunicou que a Prefeita estava solicitando minha presença no gabinete.

Chego lá e ela me avisa que iria assinar o Decreto desapropriando uma área de 54.000 m² da Fazenda do Gavião, e queria a minha presença. Olho em sua mão uma caneta Bic e lhe peço; “não assine com essa caneta. Irei a minha residência apanhar uma caneta dourada, Parker, presente de meu saudoso e querido irmão Joaquim Maurício; que jamais usei e guardo como uma lembrança dele, que sempre sonhava com o crescimento da área urbana de Cantagalo no sentido do Gavião e da Aldeia”.

Quinze minutos depois, retorno e entrego a caneta dourada à Prefeita Emanuela, dizendo-lhe, com emoção:” este é um momento histórico para Cantagalo, é o fim de nossas limitações territoriais urbanas. Ela solicita que eu me assente ao seu lado e assina o Decreto Nº 4.461/2.026.

Estavam presentes no gabinete o Secretário de Governo Ângelo Costa Machado e os profissionais que documentaram o acontecimento, altamente histórico e esperado há mais de meio século.

Desde a época em que frequentava o extinto Colégio Euclides da Cunha, ouvia os professores dizerem que Cantagalo só poderia crescer para o lado do Gavião, principalmente o Prof. Manoel Vieira Baptista, os alunos também discutiam esse assunto na hora do recreio e nos bate-papos fora do colégio. Realmente era e é uma realidade.

Relata a história que nossa cidade foi, inicialmente, habitada pelo grupo de Mão de Luva, garimpeiro mineiro, que atravessou o rio Paraíba e caminhou até aqui em busca do tão sonhado ouro, nos córregos São Pedro e Lavrinhas, instalando-se na localidade, hoje, conhecida como Triângulo dos Ferroviários. Local em que se encontra seu monumento, exatamente na junção dos dois cursos d’água.

Mão de Luva deveria ser um cidadão inteligente, pois montou seu acampamento em um vale bem estreito, entre montanhas bem elevadas, local difícil de ser encontrado pela tropa real. Deu trabalho na época, aí nasceu Cantagalo, terra que gerou 13 municípios nos Sertões dos Índios Bravos.

Nossos conterrâneos foram heroicos, venceram terrenos elevados, aterraram margens de rios, fizeram terraplanagem, cobriram o córrego São Pedro com construções em diversos pontos, enfim lutaram e venceram a natureza ingrata em algumas árduas batalhas. Surgiram os novos bairros: Quinta dos Lontras, Cantelmo, o gigantesco São José, São Pedro I e II, Planalto, Nossa Senhora Aparecida, Santo Antônio, São João, Parque das Árvores, Vila Bela, Chácara da Banheira, Pasto dos Reis (que virou Passos dos Reis).

A história que ouvia nos bancos escolares continuou: “Cantagalo só pode crescer para o Gavião”. Passei dez anos no Rio de Janeiro, seis na Faculdade de Ciências Médica e quatro no Hospital Pedro Ernesto, me preparando para ser cirurgião; só vinha a Cantagalo nos fins de semana prolongados e sempre ouvia a mesma frase.

No dia 12 de agosto de 1965 retornei à minha origem em caráter definitivo; já casado, com uma filha e outro filho a caminho. Acompanhava as campanhas políticas e, de quatro em quatro ano, a mesma promessa: “O fulano vai desapropriar parte do Gavião”; “o beltrano vai fazer um parque de eventos no Gavião”; “Se ganhar, o cicrano vai construir um bairro residencial no Gavião”. Outro candidato falava em um distrito industrial. E ia por aí afora!

Vencida a eleição o autor da promessa, do projeto grandioso, tomava posse, administrava dois, quatro ou seis anos e nada acontecia com o Gavião, que continuava intocável, sem ter onde o povo morar, sem local para a instalação de uma indústria ou de um centro de eventos.

De 1965 até 2024 passaram 59 anos e 14 governos, todos exercidos por homens sérios, que realizaram boas obras em favor da comunidade e do município, mas nenhum desapropriou ou comprou 1 m² do Gavião, nem procurou os proprietários para negociação dos terrenos. Agora, em 2026, foi preciso uma mulher vencer a eleição em 2024 e tomar posse dia 1º de janeiro de 2025, como primeira Prefeita, eleita democraticamente pela vontade popular, para surgir a 1ª desapropriação de uma área de 54.000 m² na fazenda do Gavião, destinada à implantação de uma zona industrial e especial de negócios. Não foi tarefa fácil, depois de meia dúzia de longas reuniões com os proprietários, de muitos diálogos sem sucesso e de inúmeras tentativas infrutíferas.

E quem é essa mulher? Será algum gênio surgido repentinamente em Cantagalo, caída do céu? Não, nada disso, ela é uma mulher comum, que surgiu na política de Cantagalo há 12 anos. 

Vereadora duas vezes, 2012 e 2016 (a mais votada, com 1001 votos), Vice-Prefeita (2020), e, em 2024 Prefeita, em uma eleição com cinco candidatos ao Poder Executivo, em que obteve 5.426 votos (43,95% dos votos válidos), com 1.521 votos de diferença em relação ao segundo colocado.

Os que não a conhecem devem estar pensando, é uma supermulher. Nada disso: é magra, vestida de modo muito simples, sem maquiagem, com os cabelos mal arrumados, desmanchados pelo vento; que não abre mão de morar no distante 4º distrito, São Sebastião do Paraíba, enfrentando 36 Km. de estrada de chão, diariamente, para chegar à prefeitura, onde permanece, diversas vezes, além do horário. 

No Paraíba, pela madrugada, ajuda amarrar os bezerros, para que seu marido possa ordenhar as vacas de leite na pequena propriedade que possuem. Monta no seu cavalo para ajudar reunir a boiada e vem pilotando o seu veículo diariamente para sua função no Poder Executivo de Cantagalo. Diversas vezes não almoça por falta de tempo e vai ao Rio de Janeiro, com grande frequência, em busca de recursos para Cantagalo.

Por suas atividades campestres, em dos comícios, eu a comparei ao rei Davi. Deus determinou que o Profeta Samuel fosse escolher um dos filhos de Jessé para ser o rei de Israel. Davi, que apascentava as ovelhas, e era o filho mais jovem, foi o escolhido e elevou Israel acima das demais nações da época. Em Cantagalo, o povo escolheu uma camponesa de São Sebastião do Paraíba, para dirigir o mais histórico município da nossa região.

Acompanho, quase que diariamente, o seu trabalho e o seu empenho para o desenvolvimento de Cantagalo. Como todo ser humano nem sempre acerta, todavia, seu trabalho, seu entusiasmo, sua fé e seu esforço hercúleo são contagiantes, o que me leva a crer que a primeira mulher no Poder Executivo levará Cantagalo a um futuro glorioso, compatível com a indestrutível história de nosso município. Amém, Senhor nosso Deus!

Júlio Carvalho.

Júlio Marcos de Souza Carvalho é médico, ex-vereador e ex-provedor do Hospital de Cantagalo e atualmente é auditor da Unimed de Nova Friburgo
Júlio Marcos de Souza Carvalho é médico, ex-vereador e ex-provedor do Hospital de Cantagalo. Atualmente é auditor da Unimed de Nova Friburgo e vice-prefeito de Cantagalo.

 

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